Enquanto ainda estou em casa

Escrito por

“É preciso sair da ilha para ver a ilha” escreveu Saramago. Esse é o problema de todas as partidas. Para descobrirmos aquilo que existe para lá do que conhecemos, temos primeiro de nos afastar de tudo aquilo que nos ensinou a sentir em casa.

Há quem diga que é preciso sair da zona de conforto, como se a zona de conforto fosse uma espécie de prisão, e nós, pobres criaturas adormecidas pela rotina, precisássemos apenas de reunir alguma coragem para atravessar a porta e finalmente começar a viver.

Dizem-no com uma facilidade admirável, porque é sempre mais simples aconselhar os outros a partir quando somos nós a ficar para trás, e esquecem-se de uma coisa bastante pequena, embora de pequenas coisas se faça quase tudo o que importa…sair de um lugar não significa apenas ir para outro, mas também deixar qualquer coisa.

Às vezes deixamos pessoas, outras vezes deixamos ruas, quartos, cafés e hábitos tão insignificantes que só percebemos que eram importantes quando já não estão ao alcance de uma caminhada de dez minutos. Deixamos a possibilidade de aparecer sem avisar, de telefonar só porque sim ou de saber que alguém está ali mesmo que não se diga nada. Deixamos até versões de nós próprios que só existiam naquele lugar, porque há pessoas que somos apenas quando estamos com determinadas pessoas e há casas que conhecem de nós coisas que nunca contámos a ninguém.

É estranho pensar que podemos estar felizes e tristes ao mesmo tempo. Não devia ser possível, dirão alguns, como se os sentimentos tivessem obrigação de respeitar fronteiras, mas a verdade é que a tristeza não pede licença à felicidade para entrar. Podemos querer muito uma coisa e, no instante seguinte, ter vontade de voltar atrás. Podemos estar ansiosos pelo que vem e, ainda assim, sentir falta daquilo que estamos a deixar. Podemos olhar para uma mudança com entusiasmo e pensar, quase no mesmo pensamento, que talvez tivéssemos sido felizes se nada tivesse mudado.

Cada vez me convenço mais que crescer é aprender a suportar estas contradições sem as tentar resolver. Durante muito tempo pensei que coragem fosse não ter medo e hoje, parece-me uma definição demasiado conveniente, porque, se assim fosse, seriam poucas as pessoas verdadeiramente corajosas e talvez nenhuma delas soubesse disso. A coragem pode ser uma coisa bastante menos gloriosa. Pode ser continuar quando o medo já chegou, fazer a mala com as mãos um pouco trémulas, despedirmo-nos como quem tenta não transformar uma despedida numa despedida, sorrir porque sabemos que alguém está a olhar para nós e depois, quando já ninguém está a ver, permitir-nos sentir aquilo que tínhamos estado a empurrar para depois.

Há crueldade nas partidas, mesmo quando somos nós que escolhemos partir. Até porque escolher uma coisa não significa deixar de perder as outras. Não existe uma versão da vida em que todas as possibilidades ficam intactas, à nossa espera, para o caso de mudarmos de ideias. Cada vez que escolhemos um caminho, há outros que ficam por percorrer, e essa é a parte de crescer de que ninguém gosta muito de falar… esta necessidade de aceitar que não podemos viver todas as vidas que poderíamos ter vivido e, ainda assim, partimos. Não porque deixámos de gostar do lugar onde estávamos, nem porque aquilo que conhecemos se tornou insuficiente, mas porque há uma altura em que ficar começa a ser uma resposta à pergunta errada. Então vamos, levando connosco mais coisas do que aquelas que cabem numa mala, porque há memórias que não pesam nada e, mesmo assim, conseguem tornar qualquer viagem mais difícil.

Levamos as vozes, os almoços demorados, as discussões por coisas estúpidas, as piadas que só fazem sentido para duas ou três pessoas, o conforto de saber onde está cada coisa e a certeza de que, se alguma coisa correr mal, há sempre um lugar para onde podemos voltar. É precisamente por sabermos que esse lugar existe que conseguimos partir.

Sei que sair da zona de conforto não é deixar de ter um lugar para onde voltar, mas descobrir que podemos ter mais do que um. É assustador perceber que o mundo pode ficar maior sem que a nossa casa fique mais pequena, que podemos gostar de pessoas novas sem gostar menos das antigas, e que, podemos aprender a viver longe sem que a distância tenha necessariamente de significar ausência.

Também por isso as saudades não são uma coisa má. Sentir falta não é necessariamente uma prova de que fizemos a escolha errada, é apenas a prova, bastante simples, de que alguma coisa valeu a pena.

No fundo, ninguém sai verdadeiramente da sua zona de conforto. Levamo-la connosco, escondida nas pequenas coisas, nas palavras que dizemos sem pensar, nos hábitos que repetimos quando estamos nervosos e na maneira como procuramos qualquer coisa familiar quando tudo à nossa volta é novo. Ainda bem, repito.

Crescer não é deixar de precisar do conhecido, é aprender que o desconhecido também pode, um dia, tornar-se casa. Por isso, há partidas que doem precisamente porque, pela primeira vez, percebemos que queremos mesmo ir.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Gerada pelo ChatGPT

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Francisca Lousada Silva

Deixe um comentário