Portugal continuará a vestir o sete

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Há despedidas que nunca pertencem apenas a quem parte. Pertencem também a quem fica, a quem acompanhou cada passo, a quem celebrou cada conquista e a quem, sem dar por isso, cresceu ao lado de uma história que julgava não ter fim.

Cristiano Ronaldo despede-se da Seleção Nacional. E, por mais que soubéssemos que este dia acabaria por chegar, há qualquer coisa de difícil em imaginar Portugal sem ti de quinas ao peito. Durante mais de duas décadas, habituámo-nos a ver-te vestir a camisola das quinas, a ouvir o teu nome ecoar pelos estádios e a acreditar que, enquanto estivesses em campo, ainda havia mais uma página por escrever.

Nunca foste apenas um jogador a representar um país. Foste um país inteiro a reconhecer-se num número, numa camisola, numa celebração. Levaste Portugal contigo aos quatro cantos do mundo. Fizeste a nossa bandeira erguer-se nos maiores palcos do futebol e o nome de um país tão pequeno caber na boca de gente que talvez nunca tivesse ouvido falar de nós.

Deste-nos noites que ficaram na memória, lágrimas que não precisaram de explicação e alegrias que, por instantes, fizeram milhões de pessoas sentir exatamente o mesmo. Fizeste-nos abraçar desconhecidos, gritar à frente de televisões, acreditar até ao último minuto. E, sem nunca teres de nos conhecer, conseguiste fazer-nos sentir parte de alguma coisa maior do que nós.

Venceram também todos os que alguma vez sonharam contigo, todos os que acreditaram quando parecia impossível, todos os que aprenderam que há sonhos pelos quais vale a pena chorar. Talvez seja isso que mais custa nesta despedida. Não nos despedimos apenas do capitão, dos golos ou das vitórias. Despedimo-nos de uma presença que se tornou familiar, de uma certeza que nos acompanhou durante tantos anos. Daquela sensação de que, quando a bola chegasse aos teus pés, alguma coisa ainda podia acontecer. De olhar para o relvado e saber que estavas lá. De ouvir o hino e procurar-te entre os onze, como se ver-te de camisola vestida fosse também uma forma de nos sentirmos em casa.

Porque tu marcaste golos, mas marcaste também gerações. Há crianças que cresceram a imitar os teus festejos, a desenhar o teu nome nas camisolas, a pedir o número sete sem sequer imaginarem tudo aquilo que ele viria a significar. Há meninas que começaram a jogar futebol porque te viram jogar e perceberam que também podiam sonhar alto, que também podiam querer mais, que não precisavam de pedir desculpa pela dimensão dos seus sonhos. Há pessoas que nunca tocaram numa bola e que, ainda assim, sabem o que significa ver-te representar Portugal. E há quem tenha aprendido contigo que o talento não dispensa o trabalho, que a ambição não é um defeito e que cair nunca precisa de ser a última coisa que fazemos.

Talvez nunca venhas a saber os nomes de todas essas pessoas. Nunca saberás quantas vezes foste o motivo de alguém voltar a tentar, quantas crianças encontraram em ti um exemplo, quantos sonhos começaram numa tarde qualquer, num campo de bairro, com uma bola nos pés e a tua camisola vestida. Nunca saberás quantas vezes o teu percurso se cruzou com a vida de alguém sem que te apercebesses. Mas é também isso que faz de ti muito mais do que um jogador. É aquilo que deixaste em pessoas que nunca conhecerás e que, ainda assim, levarão um bocadinho de ti consigo.

E talvez vinte e três anos nunca fossem suficientes. Como poderiam ser, se crescemos contigo? Se nos habituámos a encontrar-te em tantas das nossas memórias? Se houve crianças que te conheceram antes de saberem o que era uma derrota, jovens que aprenderam a sonhar contigo e adultos que, depois de tantos anos, ainda se levantam do sofá quando a bola chega aos teus pés? O tempo pode contar os anos de uma carreira, mas não consegue medir aquilo que alguém significa para um país. E não há calendário que nos prepare para o momento em que temos de aceitar que uma parte tão familiar da nossa vida chegou ao fim.

Hoje, deixas a camisola da Seleção. Levaste-a contigo quando o mundo inteiro te olhava, defendeste-a quando era preciso, carregaste o peso de milhões de expectativas e deste-nos motivos para sentir orgulho de uma bandeira que, tantas vezes, parece maior quando a vemos contigo. Mas agora és tu que mereces que a história te agradeça. Não apenas pelas vitórias, pelos recordes ou pelos troféus. Não apenas por teres sido o capitão, o melhor marcador, o homem que tantas vezes decidiu jogos que pareciam perdidos. Obrigada por cada vez que nos fizeste acreditar. Por cada vez que nos lembraste de onde vínhamos. Por cada vez que, num estádio longe de casa, fizeste Portugal parecer perto. Obrigada por teres levado contigo o nome do nosso país e por nunca nos teres deixado esquecer que também podemos chegar onde, um dia, nos disseram que não chegaríamos.

E obrigada, sobretudo, por aquilo que não aparece nas estatísticas. Pelas memórias que ajudaste a criar em famílias inteiras, pelas conversas que começaram por causa de um jogo, pelos abraços que nasceram de um golo, pelas tardes em que o país parou para te ver jogar. Há coisas que não cabem numa carreira, por maior que ela seja. Há alegrias que não se conseguem explicar a quem não as viveu. E há pessoas que, sem fazerem parte da nossa vida, acabam por fazer parte da nossa história.

Um dia, os recordes serão ultrapassados. Outros jogadores vestirão a camisola sete, outros capitães levantarão troféus e outras crianças encontrarão novos ídolos. O futebol continuará, Portugal continuará a jogar, a vencer, a perder e a sonhar. Mas haverá sempre qualquer coisa de diferente quando olharmos para aquele número. Porque nós sabemos quem o vestiu antes. Sabemos as lágrimas que deixou, os sorrisos que nos deu e tudo aquilo que vivemos enquanto o víamos correr atrás de uma bola como se carregasse consigo os sonhos de um país inteiro.

E talvez, daqui a muitos anos, quando alguém perguntar o que significaste para Portugal, não seja preciso falar dos golos nem dos troféus. Talvez baste contar a história de um menino da Madeira que sonhou em grande e que, um dia, fez um país inteiro sonhar com ele. De um rapaz que saiu de casa para perseguir aquilo em que acreditava e que acabou por levar consigo milhões de pessoas, mesmo sem nunca as ter conhecido. De alguém que nos ensinou que representar um país é muito mais do que vestir uma camisola, é dar-lhe uma história que passa de geração em geração.

Cristiano, não sei se alguma vez conseguirás compreender verdadeiramente o lugar que conquistaste na memória dos portugueses. Talvez nem seja possível. Talvez nunca saibas que, para muitos, o teu nome está ligado a algumas das memórias mais bonitas da sua vida. Que há quem se lembre de ti quando pensa na infância, nas tardes passadas em família, nos primeiros jogos que viu, na primeira camisola que vestiu. Que há pessoas que vão sentir a tua falta sem nunca terem tido a oportunidade de te dizer obrigada. E que, por mais estranho que pareça, também vamos sentir saudades de uma coisa que ainda ontem tínhamos.

E, quando Portugal voltar a entrar em campo, haverá milhões de pessoas a cantar o hino, a segurar a bandeira e a acreditar no futuro. Talvez algumas procurem instintivamente o número sete. Talvez outras se lembrem de ti sem dizerem uma palavra. E talvez, por um instante, todos sintamos falta de uma coisa que julgávamos que ainda teríamos por muito tempo. Porque há despedidas que não apagam presenças. Há histórias que não acabam quando deixam de ser escritas. E há pessoas que nunca saberão quantas vidas tocaram, porque o fizeram sem estar lá para ver.

Vinte e três anos depois, devolves a camisola à Seleção, mas aquilo que deste a Portugal não se devolve. Guarda-se. Conta-se. Sente-se. E, enquanto houver uma criança a vestir o sete, alguém a sonhar com uma bola nos pés ou um português a sentir orgulho ao ouvir o nome do seu país, uma parte de ti continuará em campo.

Obrigado por tudo, Cristiano. Por teres sido nosso durante tanto tempo, por nos teres dado tanto sem nunca saberes exatamente a quem chegava e por nos teres deixado uma história que continuará a ser contada muito depois de deixares de a escrever. Portugal nunca te poderá devolver aquilo que lhe deste. Só pode prometer que não se vai esquecer.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Pinterest

Escrito por: Gabriela Martins

Editado por: Rodrigo Caeiro

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