Jornal desacordo: na hora da despedida, que futuro?

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José Pereira, o diretor do Jornal desacordo no ano letivo 2025/2026

Hoje é o meu último dia como diretor do Jornal desacordo. Nesta despedida, partilho a minha jornada, o que foi este ano e o que alcançámos. Agradeço, desde já, a todos os que contribuíram para que o desacordo continuasse vivo!

Este ano, o Jornal desacordo esteve em perigo real de fechar portas em definitivo. À frente do projeto, procurei o melhor aconselhamento possível: houve quem desse o fim como certo e quem confiasse mais na nossa comunidade.

Com parceiros em dificuldades financeiras e institucionais graves, com revoluções de motivações pouco claras, com campanhas mais ou menos dissimuladas na sua origem contra a reputação de membros desta direção e com impasses logísticos e institucionais na nossa organização, este ano foi prolífico em desafios.

Os desafios, porém, não são novos. O desacordo sempre dependeu de uma parceria estratégica com a Associação de Estudantes do ISCSP (AEISCSP) para financiar as suas ferramentas essenciais. Com as convulsões nessa estrutura, chegou a ser celebrado um contrato para travar essa arbitrariedade.

Este ano, contudo, antes de a nova direção da AEISCSP tomar posse, nem uma resposta. O prazo dos pagamentos terminava antes das eleições. A solução? Foi esta direção, e esta direção apenas, que suportou todos os custos do Jornal desacordo e todo o material utilizado pelos redatores.

Como é óbvio, há muito que não se consegue executar quando a prioridade é sobreviver: financeira, institucional, cultural e socialmente. Nas dimensões não financeiras, os nossos redatores, vocês, foram fulcrais.

Ainda assim, contrariámos as tendências de blogs e websites noticiosos: 300 artigos publicados em doze meses, mais 68% do que no mandato anterior e o maior volume em quase uma década; mais leitura no site, entre janeiro e agosto, do que nos períodos homólogos de 2024 e 2025; e, no Instagram, 436 mil visualizações desde janeiro, mais 12% do que no período homólogo, com as interações a crescerem 56%.

Isto mostra que o nosso jornal está vivo e recomenda-se. Com uma comunidade coesa e pronta a contribuir com as suas ideias e criatividade. É difícil encontrar precedentes para tanto envolvimento como o que houve da vossa parte neste mandato.

Aprovámos o Regulamento Interno, preparado desde o mandato passado, aumentámos a equipa da redação e reforçámos todos os pontos: previsibilidade e um quadro sólido que permita ao público e à comunidade reconhecer-nos, de forma inequívoca, pelos nossos valores.

Trabalhámos ainda com estudantes de vários cursos do ISCSP, com destaque para uma nova identidade visual, desenvolvida em trabalhos de disciplinas do curso de Ciências da Comunicação e a apresentar no próximo mandato. Com o CONSENSUS e a PACTA, revistas dos Núcleos de Ciência Política e de Relações Internacionais, lançámos uma edição comemorativa dos 52 anos do 25 de abril. A qualidade do que os redatores produziram sobre esse marco mostra que podemos ir muito longe em projetos mais ambiciosos.

Não conseguimos, infelizmente, concluir a tempo um novo protocolo de cooperação com a nova direção da Associação de Estudantes, por constrangimentos de ambas as partes. Estamos, contudo, prontos para fechar em breve um acordo que esclareça as obrigações de cada parte e reforce as sinergias entre as organizações.

Muitas foram as iniciativas, o acompanhamento e a dedicação de cada um desta direção. Obviamente, não agradaremos a todos. Mas fico feliz por haver, no próximo ano, mais uma oportunidade para não agradar a toda a gente: muito melhor do que desaparecer.

Tenho plena confiança de que o Jornal desacordo vai libertar-se destes problemas e dependências estruturais. Um plano financeiro e de autonomização, uma nova estratégia editorial, um plano educativo e parcerias com a comunidade, dentro e fora do ISCSP, abrem esse novo rumo.

Desde o início, sabia que não seria possível executar tudo o que precisava de ser feito para sairmos destas dependências num só mandato; defini objetivos mais modestos para abrir caminho a um mandato diferenciador, em que o desacordo não estivesse apenas em busca da sobrevivência.

Estou certo de que o próximo mandato pode e vai aproximar ainda mais os ISCSPianos da sua ciência, dos docentes, dos colegas de outros cursos e da sua comunidade: freguesia, câmara municipal, cidade, Universidade de Lisboa, entre outros.

No dia 29 de agosto, falei com a nova diretora, Margarida Simões, sobre o seu projeto. Fiquei feliz por verificar que estamos de acordo quanto ao essencial: mais autonomia, mais colaborações e mais formação para os membros, com uma política social e financeiramente responsável.

A minha jornada

O Jornal desacordo foi a pedra basilar da minha licenciatura em Ciências da Comunicação: foi aqui que desenvolvi a escrita de artigos e de notícias, mas também a escrita criativa, ou até persuasiva. Foi por causa do desacordo que entrevistei alguns dos meus artistas favoritos e cobri eventos que cresci a acompanhar, como o Festival da Canção, ou ligados à área que segui no mestrado, como a Web Summit.

Viajei por Portugal e pelo mundo com membros desta família. Há memórias que ficam para toda a vida e aqui tenho muitas delas.

Houve até quem viesse a trabalhar comigo noutros projetos e momentos. Acima de tudo, levo do desacordo amigos para a vida, que de outra forma nunca teria feito. Temos aqui algo especial, que ultrapassa a noção de um jornal universitário online: somos uma comunidade, uma família, mesmo uma religião na nossa vontade de fazer melhor e com mais perspetivas. Nada disto foi forçado; surgiu organicamente. E isso é irrepetível.

No jantar de início de mandato do Jornal desacordo. A Italian Republic das Avenidas Novas entra para a história dos encontros dos nossos membros

Foi aqui que cometi muitos erros enquanto redator e aprendi com eles, umas vezes de formas mais firmes do que outras; que passei conhecimento enquanto editor; e que, por fim, coordenei todo o projeto a partir da cadeira mais quente da direção.

Foi uma honra! Aprendi muito, a nível pessoal, profissional e académico. Esta experiência valeu-me estágios e experiência relevante para a entrada no mestrado em gestão na Nova SBE, a minha casa no próximo ano e meio. Devo tudo ao Jornal desacordo, e isso nunca será eclipsado pelas dificuldades deste ano. Fico, aliás, feliz por vê-lo a sair de situações perigosas bem anteriores a este desafio.

Quando fui sondado, no início do ano letivo 2024/2025, não estava muito inclinado a aceitar: tinha grandes desafios académicos e profissionais pela frente e alternativas bem mais apetecíveis. Aceitei porque amo este projeto como vocês, e a anterior diretora, Marta Ricardo, foi essencial para que eu tenha entendido que o meu lugar era a continuar este legado, que fará 15 anos em 2027.

Deixo um agradecimento enorme a todos os que me ensinaram, me permitiram passar conhecimento e fazem, dia após dia, evoluir esta família. Que mais pessoas sintam o que sentimos no desacordo e beneficiem da garra e da paixão que temos por este projeto.

Que futuro para o Jornal desacordo?

A minha visão é a de que o futuro do Jornal desacordo, apesar de tudo o que mencionei, não passa apenas por uma direção e pelos seus projetos, melhor ou pior executados, com mais ou menos constrangimentos.

Passa por vocês.

O projeto só faz sentido se não perdermos o que nos distingue: a paixão. Por este projeto, por esta família e pelos seus valores. Para fazer mais, derrubar os muros do imobilismo e do conformismo e expressar, sem timidez, o melhor que as nossas mentes podem produzir.

Devemos fazê-lo sem a desculpa de que somos muito novos ou de que não temos propriedade para determinada análise. Devemos ir em frente e falhar quando tiver de ser, sem medo de ter uma voz e sem nos conformarmos com a estupidificação confortável.

Vocês são o futuro deste país: de Ciência Política a Relações Internacionais, dos Recursos Humanos à Sociologia, da Administração Pública às Ciências da Comunicação, entre tantos outros cursos do nosso Instituto. Honremos a nossa educação e o nosso legado em todos os momentos. Atuemos e pensemos como exigimos dos governantes e dos seus opositores. Sejamos cidadãos exemplares no zelo pelo social e pela coisa pública.

Todos temos a obrigação de ser servidores públicos: de acrescentar valor ao público, às pessoas. Independentemente dos objetivos, é premissa essencial fazê-lo para alguém, com moral e ética inabaláveis e de forma sustentável em todos os domínios: ecológico, social e financeiro. Para isso, temos de trabalhar em conjunto para o bem comum: construir soluções, e não destruí-las antes de terem uma oportunidade; despojar-nos do ego e das pretensões pessoais para atingir o primado da Coisa Pública.

A nossa missão é munir os nossos membros de competências técnicas, académicas e humanas para navegar a escrita criativa, técnica ou persuasiva, de forma socialmente responsável e virada para os desafios da(s) sociedade(s): não pela via panfletária, mas pelo primor da razão, da lógica e da base científica, respeitando as opiniões divergentes e os valores que partilhamos enquanto sociedade e enquanto jornal.

Nunca o Jornal desacordo teve estratégias tão bem delineadas nem um projeto tão robusto como hoje. Mas são vocês que têm de garantir que ele segue em frente, como embaixadores a todo o momento: não de uma direção, não só de um jornal, mas de uma missão.

Vejam isto como uma plataforma para melhorar e dinamizar a faculdade: inclusão, acesso ao conhecimento e partilha com a comunidade. Acima de tudo, estejam atentos, questionem e expressem a vossa opinião, com respeito e empatia, em busca de soluções que beneficiem o máximo de intervenientes dentro da razoabilidade e dos limites materiais do projeto.

O desacordo deve, a meu ver, continuar a explorar estruturas mais democráticas. A discussão foi aberta neste mandato; contudo, constrangimentos logísticos e legais adiam, por enquanto, esse processo, que deve decorrer de forma livre e dentro da lei. Para isso, é essencial continuar a procurar uma solução funcional e credível, pelo que todos são bem-vindos a apresentar as suas ideias.

Novas ideias são sempre bem-vindas: conversemos e trabalhemos. A porta da Direção estará sempre aberta. Cada membro ou leitor tem direito à mesma atenção e a um debate igualmente profundo e sério, numa responsabilidade partilhada: respeito mútuo e soluções que não sirvam apenas uma das partes.

Continuarei, como sempre, a ler e a ajudar naquilo que for preciso: seja o jornal, sejam os seus membros, passados, presentes ou futuros. Obrigado por tudo! Obrigado a todos!

Escrito por: José Pereira

Editado por: Íngride Pais

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