A paralisia estratégica da Europa: Como a obsessão pela ameaça russa secundariza o declínio interno

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Enquanto Bruxelas concentra recursos, atenção e capital político numa guerra cujo objetivo final continua por definir, a Europa acumula fragilidades que podem pesar muito mais no seu futuro do que a própria Rússia: estagnação económica, atraso tecnológico, uma população que envelhece a um ritmo recorde e uma dependência militar dos Estados Unidos que só se aprofundou desde 2022. A pergunta que poucos em Bruxelas parecem dispostos a fazer é simples — a obsessão com Moscovo está a proteger a Europa, ou a distraí-la do que realmente ameaça o seu lugar no mundo?

Desde a publicação do A Strategic Compass for Security and Defence, cerca de um mês depois da invasão russa à Ucrânia, a União Europeia passou a tratar oficialmente a Rússia como uma ameaça direta à segurança europeia. A partir daí, todos os documentos oficiais dos Órgãos da EU relativos às questões estratégicas e de segurança utilizam-se desses adjetivos sem que ninguém os questione. O problema não está em reconhecer que a Rússia representa um risco, mas sim em transformar esse risco no centro de toda a política externa e de segurança europeia, desviando recursos e atenção de fragilidades que podem ser, no longo prazo, muito mais danosas para o futuro do continente.

Declínio económico, atraso tecnológico, problemas demográficos e uma dependência ainda muito forte dos Estados Unidos são quatro ameaças concretas à autonomia europeia, mas bem menos discutidas. Nesse sentido, é legítimo perguntar: as políticas adotadas depois da invasão fortaleceram realmente a Europa? E, talvez mais importante do que isso, qual é, afinal, o objetivo estratégico da União Europeia na guerra da Ucrânia?

Primeiro, é preciso definir o que significa, na prática, a chamada ”ameaça russa”. Qual é a sua escala real? E quais são, de facto, os objetivos de Moscovo?

Sim, a Rússia representa uma ameaça à segurança europeia, sobretudo para os países mais próximos das suas fronteiras, e isso não deve ser ignorado nem minimizado. A ausência de uma invasão militar contra a União Europeia também não significa ausência de perigo. Ciberataques, ingerência política, espionagem, campanhas de desinformação e outras formas de guerra híbrida já fazem parte, há anos, das relações entre a Rússia e vários Estados europeus.

Mas tratar a Rússia como uma ameaça praticamente ilimitada à União Europeia é completamente diferente. Desde o fim da União Soviética, Moscovo nunca declarou a intenção de invadir a União Europeia como bloco. Uma operação militar contra um Estado da NATO envolveria riscos completamente diferentes dos enfrentados na Ucrânia, incluindo a possibilidade real de uma guerra direta com os Estados Unidos e outras potências nucleares — um cenário que qualquer político e militar russo sabe ser trágico. Política, militar e economicamente seria uma decisão de enorme imprudência (coisa que a Rússia, e Putin, definitivamente não fariam)

O caso da Ucrânia, tal como o da Geórgia em 2008, precisa de ser entendido num contexto muito específico, que não se repete automaticamente noutros pontos do continente. Existem questões históricas, territoriais, estratégicas e identitárias que ligam a Rússia ao espaço pós-soviético de uma forma que simplesmente não existe relativamente à Europa Ocidental. A própria perceção russa sobre a Ucrânia é outra. A Crimeia, o Mar Negro, a expansão da influência ocidental no antigo espaço soviético e a aproximação progressiva de Kiev à União Europeia e à NATO — um conjunto de fatores raramente presente, por exemplo, na relação da Rússia com Portugal ou com a Alemanha — são questões muito particulares entre os dois Estados beligerantes.

Deste diagnóstico nasce outra questão, de igual pertinência: qual é, então, o objetivo europeu na guerra?

Por vezes, dá a sensação de que a política adotada se mantém simplesmente porque já foi adotada, como se a União Europeia se encontrasse numa espécie de inércia devido a um forte path-dependency. A União Europeia é, acima de tudo, uma potência normativa, utilizando o termo cunhado por Ian Manners. Tendo sido construída sobre valores políticos e jurídicos, defender a soberania territorial ou o direito internacional é, sem dúvida, perfeitamente legítimo. O problema é que uma política externa não pode existir apenas com base em princípios abstratos. Precisa, sobretudo, de objetivos concretos, mensuráveis, e prioridades bem estabelecidas.

Sanções, envio de armamento, financiamento da Ucrânia, isolamento diplomático da Rússia: são instrumentos, não fins em si mesmos. E para avaliar se esses instrumentos estão a funcionar, é preciso primeiro saber, com clareza, o que se pretende atingir.

Recuperar todos os territórios ocupados? Enfraquecer permanentemente a Rússia? Garantir apenas a sobrevivência do Estado ucraniano? Forçar Moscovo a negociar? Impedir qualquer futura agressão? Não há nenhuma resposta clara por parte dos dirigentes europeus.

Esse problema torna-se ainda mais evidente agora que a guerra já entrou no seu quinto ano — um período que, há três anos, quase ninguém em Bruxelas teria previsto. As sanções atingiram a economia russa, é verdade, mas não provocaram o seu colapso. A Rússia adaptou parte das suas relações comerciais e manteve capacidade para continuar a guerra. No campo militar, apesar das sucessivas mudanças territoriais, encontramos um absoluto impasse.

Uma guerra de atrito produz exatamente este tipo de situação: o custo aumenta, mês após mês, enquanto o resultado propriamente dito continua indefinido. Há desgaste militar, económico e social de todos os lados, mas não há a resolução do conflito, para nenhum dos lados.

É por isso que a diplomacia deveria voltar a ocupar um papel muito maior do que aquele que hoje ocupa. Isto não significa aceitar automaticamente as exigências russas, nem abandonar a Ucrânia à sua sorte. Significa apenas reconhecer que o objetivo de qualquer política de guerra deve ser alcançar uma situação política melhor do que aquela que existia antes (ou evitar a piora da atual) e não simplesmente prolongar o conflito porque recuar se tornou politicamente difícil.

É precisamente aqui que entra o custo de oportunidade europeu.

Desde 2022, a União Europeia e os seus Estados-membros já mobilizaram cerca de 216,7 mil milhões de euros em apoio à Ucrânia, dos quais aproximadamente 77 mil milhões em assistência militar. Ao mesmo tempo, o relatório Draghi estima que a Europa necessita de entre 750 e 800 mil milhões de euros adicionais de investimento por ano para recuperar competitividade, modernizar a sua indústria, acelerar a digitalização e reduzir dependências externas. Em outras palavras, muito dinheiro.

O argumento não é que todo o dinheiro destinado à Ucrânia poderia, sem mais, ser transferido para inteligência artificial ou políticas de natalidade, obviamente. O ponto é que recursos financeiros, capacidade industrial e capital político são, por definição, limitados. E as escolhas, goste-se ou não, revelam sempre prioridades – e prioridades é a base de uma política eficiente.

As fragilidades internas europeias, aliás, já são bem visíveis.

A crise energética, por exemplo, mostrou uma delas com clareza. A Comissão Europeia atribui a subida dos preços à agressão militar russa contra a Ucrânia e àquilo que descreve como ”instrumentalização do fornecimento de gás” (Comissão Europeia). Os números confirmam o choque: segundo o Eurostat, a eletricidade subiu de 23,5€ para 28,4€ por 100 kWh entre 2021 e 2022, e o gás no mercado grossista chegou a ultrapassar os 300€/MWh — cerca de 15 vezes a média pré-guerra. O efeito propagou-se: a inflação da área do euro atingiu 8,1% em 2022, segundo o BCE, puxada em parte pelo peso da energia nos custos de produção alimentar.

O desafio demográfico é ainda mais profundo, e muito alarmante. Em 2024, a taxa de fertilidade da União Europeia caiu para 1,34 filhos por mulher, o nível mais baixo alguma vez registado na sua história. Uma população que envelhece a este ritmo implica menos trabalhadores, maior pressão sobre pensões e saúde, e menor capacidade de sustentar crescimento económico no longo prazo. Porque, no final, a base da economia ainda são as pessoas, os trabalhadores, os jovens.

Há também a questão tecnológica. A Europa continua atrás dos Estados Unidos e da China em várias das tecnologias que definirão as próximas décadas — inteligência artificial, computação, plataformas digitais, semicondutores. Grande parte da infraestrutura tecnológica utilizada diariamente por cidadãos, empresas e governos europeus depende de empresas estrangeiras. Carros elétricos chineses, bases de dados norte-americanas, softwares militares dos Estados Unidos, computadores, inteligência artificial — a lista é infinita e abrange todos os setores.

Tudo isto toca diretamente na autonomia estratégica que a própria União Europeia diz, com insistência, querer construir.

E em relação a esta dependência existe, porém, uma contradição clara que evidencia a falta de virtú dos dirigentes europeus: a Europa quis reduzir a sua dependência da Rússia em nome da segurança, mas fê-lo à custa de aprofundar, de forma quase simétrica, a sua dependência militar face aos Estados Unidos. Segundo o SIPRI, as importações de armamento dos membros europeus da NATO mais do que duplicaram entre 2015–2019 e 2020–2024. E aquilo que não é surpreendente? A fatia norte-americana nessas importações subiu de 52% para 64%.

A tendência, longe de se inverter, aprofundou-se nos anos seguintes, confirmando que não se tratou de um pico conjuntural ligado ao início da guerra, mas de uma reorientação estrutural das compras europeias. Entre 2016–2020 e 2021–2025, as importações de armas dos Estados europeus dispararam 210%, e quase metade desse volume veio, mais uma vez, dos Estados Unidos. Só entre os membros europeus da NATO, a parcela norte-americana chegou aos 58%.

É claro que os Estados Unidos são aliados da Europa, e essa nunca foi a questão (infelizmente). Como resumiria Henry Kissinger, ”ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser amigo é fatal“. A questão é como pode uma política conduzida em nome da autonomia estratégica europeia ter produzido, na prática, o reforço de uma dependência externa precisamente na área mais central para a própria segurança do continente? A Europa afastou-se de uma vulnerabilidade perante Moscovo, isso é inegável, mas não construiu, na mesma proporção, uma capacidade militar verdadeiramente sua, preferindo comprar em vez de produzir e importar em vez de investir. Trocou, no fundo, uma dependência por outra. Terá sido essa a autonomia estratégica que dizia procurar?

É claro que existe um argumento contrário: reduzir o apoio à Ucrânia poderia ser interpretado por Moscovo como sinal de fraqueza — e países como a Polónia, a Estónia, a Letónia e a Lituânia têm razões históricas bastante concretas para desconfiar da Rússia. Não seria responsável, nem sensato, ignorar essas preocupações.

Mas reconhecer um risco não obriga a transformá-lo na prioridade absoluta de todo um continente.

A Europa pode reforçar as suas fronteiras orientais, manter capacidade militar suficiente para dissuadir uma agressão e, ao mesmo tempo, procurar uma resolução negociada para a guerra. Pode apoiar a Ucrânia sem assumir, automaticamente, que qualquer quantidade de recursos, durante qualquer período, é justificável só porque acredita que a causa é justa.

O ponto central, no fim de contas, é estabelecer prioridades, limites e uma meta atingível e mensurável.

Uma Europa economicamente estagnada, tecnologicamente dependente, demograficamente envelhecida e incapaz de garantir energia competitiva não se torna estrategicamente forte apenas porque aumenta as despesas militares. Pelo contrário: a capacidade de defesa depende exatamente dessas bases — indústria, tecnologia, energia, população e produtividade.

A Rússia representa um problema de segurança que deve, sim, ser gerido com seriedade. Mas transformá-la no princípio organizador de toda a estratégia europeia pode revelar-se um erro bem maior. Enquanto Bruxelas concentra recursos e capital político numa guerra cujo objetivo final permanece pouco claro, os problemas que realmente determinarão o lugar da Europa no mundo continuam a crescer, silenciosamente, dentro das suas próprias fronteiras.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da imagem da capa: https://cataloniaglobal.cat/en/eu-russia-relations-time-to-break-the-stalemate/

Escrito por: Theo Vivas

Editado por: Margarida Simões

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