Há sempre um corpo que está na moda. Durante algum tempo são as curvas, depois a barriga completamente lisa, depois os músculos definidos e, de repente, voltamos à magreza extrema. Os padrões mudam, mas a pressão continua: parece que há sempre alguma coisa em nós que precisa de ser alterada.
E é precisamente sobre isso que quero falar hoje: sobre a forma como transformámos o corpo numa tendência e sobre o impacto que isso pode ter na nossa relação com a comida, com o espelho e, principalmente, connosco próprios.
Nos últimos tempos, tenho sentido um regresso da magreza extrema enquanto ideal estético. Celebridades, influencers, vídeos, publicidade e tendências acabam por influenciar aquilo que consideramos bonito, desejável ou até saudável.
Mas há uma distinção a fazer: questionar a promoção de padrões corporais extremos não significa julgar ou diagnosticar o corpo de alguém. Não conseguimos saber se uma pessoa tem uma perturbação alimentar através de uma fotografia.
O problema não são os corpos. O problema surge quando um determinado tipo de corpo é transformado num padrão que sentimos que devemos alcançar.
E esta não é apenas uma questão estética.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as perturbações alimentares surgem frequentemente durante a adolescência e o início da idade adulta. Estima-se que afetem cerca de 0,1% dos adolescentes entre os 10 e os 14 anos e 0,4% dos jovens entre os 15 e os 19 anos. A OMS alerta ainda para a elevada gravidade da anorexia nervosa, que pode levar à morte prematura.
Em Portugal, um estudo publicado este ano, 2026, procurou perceber como os próprios adolescentes interpretam os comportamentos alimentares desordenados e os fatores que os podem influenciar. A investigação envolveu 80 jovens entre os 15 e os 19 anos, no Porto, e identificou temas como a comparação com outras pessoas, as preocupações com a imagem corporal, os padrões sociais de beleza, as redes sociais e os comentários sobre a aparência.
Estes resultados fazem-nos pensar como a relação que temos com o nosso corpo não se constrói isoladamente. Aquilo que vemos, ouvimos e consumimos diariamente também pode influenciar a forma como aprendemos a olhar para nós próprios.
As redes sociais tornaram essa comparação ainda mais presente. Passamos horas a consumir fotografias, vídeos, rotinas e recomendações de outras pessoas e, quando somos constantemente expostos ao mesmo tipo de aparência, podemos começar a encará-la como uma espécie de referência.
Uma revisão científica publicada em 2023, que analisou 50 estudos realizados em 17 países com jovens entre os 10 e os 24 anos, encontrou associações entre a utilização das redes sociais, preocupações com a imagem corporal e comportamentos alimentares desordenados. Entre os mecanismos identificados estavam a comparação social e a interiorização de ideais como corpos considerados “fit”.
E talvez o mais complicado seja perceber quando a inspiração começa a transformar-se em obrigação.
Vemos vídeos de “What I Eat in a Day” em que alguém restringe aquilo que come durante o dia porque vai jantar fora à noite, transmitindo a ideia de que é necessário “compensar” para desfrutar de uma refeição.
Vemos também rotinas aparentemente perfeitas: acordar muito cedo, treinar todos os dias, cumprir os passos, preparar todas as refeições e nunca sair do plano.
Individualmente, alguns destes hábitos podem fazer sentido. O problema começa quando acreditamos que temos de fazer tudo isto para sermos saudáveis, disciplinados ou merecedores de determinado corpo.
Também assistimos à popularização das chamadas “canetas para emagrecer” como parte das conversas sobre aparência e perda de peso. No entanto, medicamentos utilizados para controlo do peso têm indicações clínicas específicas e estão sujeitos a prescrição e acompanhamento médico. Não deveriam ser tratados como simples tendências estéticas.
É igualmente importante lembrar que nem todas as vidas têm o mesmo contexto.
Algumas das pessoas que seguimos trabalham precisamente nas áreas do fitness, da alimentação ou da criação de conteúdos. Treinar, preparar refeições, filmar rotinas ou experimentar produtos pode fazer parte do seu trabalho.
Isso não significa que estejam a fazer alguma coisa errada. Significa apenas que a rotina delas não tem de ser a nossa.
Podemos inspirar-nos no que vemos sem transformar inspiração em comparação.
No meio de tantos vídeos sobre o que comer, quando comer, como treinar e como alcançar o “corpo ideal”, talvez exista uma pergunta muito mais importante:
“Como é que eu me sinto no meu próprio corpo?”
A saúde não devia seguir modas. Devíamos falar de exercício físico pelo bem-estar que proporciona, e não apenas pelas calorias que queima. E falar de alimentação saudável também significa falar de uma boa relação com a comida.
Um chocolate não precisa de ser um vilão. Uma refeição não deveria provocar culpa. E comer algo de que gostamos não deveria criar automaticamente a necessidade de “compensar”.
Talvez também esteja na altura de normalizarmos parar de comentar o corpo dos outros:
— Estás tão gorda.
— Estás tão magra.
— Devias emagrecer.
— Devias comer mais.
Muitas destas frases são ditas sem intenção de magoar, inclusive dentro da própria família. Mas nunca sabemos aquilo que outra pessoa está a viver ou a relação que mantém com o próprio corpo.
Em vez de comentarmos a aparência, podemos simplesmente perguntar:
— Como estás?
— Tens-te sentido bem?
— Precisas de alguma coisa?
Porque um corpo não nos diz se uma pessoa está saudável. Uma fotografia não conta a história completa de alguém. E um algoritmo não deveria decidir aquilo que sentimos quando olhamos para o espelho.
Talvez esteja na altura de deixarmos de ensinar às pessoas qual é o corpo que devem ter e começarmos a aceitar que existem corpos diferentes, vidas diferentes e formas diferentes de cuidar de nós.
O teu corpo não nasceu para alcançar um padrão de beleza. Nasceu para te acompanhar durante toda a tua vida.
Cuida dele, alimenta-o, movimenta-o e respeita-o.
O teu valor nunca será um número na balança, o tamanho da tua roupa ou aquilo que vês ao espelho.
Cuida de ti. Fisicamente, mas também mentalmente. Porque saúde nunca será apenas aquilo que os outros conseguem ver.
Se sentes que a comida, o peso, o exercício físico ou a tua aparência começaram a ocupar demasiado espaço nos teus pensamentos ou a causar-te sofrimento, procura apoio profissional. Não precisas de esperar até achares que estás “suficientemente mal” para pedir ajuda.
Podes contactar o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS 24 através do 808 24 24 24, selecionando a opção 4. O serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias, e é assegurado por psicólogos clínicos.
Em caso de pensamentos suicidas, podes contactar a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio — 1411. Em situação de emergência ou risco de vida, liga 112.
Fontes Consultadas (Webgrafia)
Costa, A., Teixeira, B., Pereira, R., Warkentin, S. & Oliveira, A. (2026). Adolescents’ Perceptions of Disordered Eating Behaviors, Influencing Factors, and Perceived Effects on Health and Well-Being. Journal of Nutrition Education and Behavior, 58(5), 416–426. Estudo realizado com 80 adolescentes entre os 15 e os 19 anos no Porto.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41618938/
Dane, A. & Bhatia, K. (2023). The social media diet: A scoping review to investigate the association between social media, body image and eating disorders amongst young people. PLOS Global Public Health, 3(3). Revisão de 50 estudos realizados em 17 países sobre redes sociais, imagem corporal e comportamentos alimentares desordenados.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36962983/
Organização Mundial da Saúde — OMS (2025). Mental health of adolescents. Informação atualizada sobre saúde mental na adolescência e perturbações alimentares.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health
European Medicines Agency — EMA (2026). First oral GLP-1 treatment for weight management. Informação oficial sobre medicamentos GLP-1 utilizados no controlo do peso, indicações clínicas e necessidade de prescrição.
https://www.ema.europa.eu/en/news/first-oral-glp-1-treatment-weight-management
SNS 24 (2025). Aconselhamento psicológico no SNS 24. Informação oficial sobre apoio psicológico disponibilizado pelo Serviço Nacional de Saúde.
https://www.sns24.gov.pt/pt/servico/aconselhamento-psicologico-no-sns-24/
SNS 24 (2025). Prevenção do suicídio. Informação sobre prevenção, sinais de alerta e Linha Nacional de Prevenção do Suicídio — 1411.
https://www.sns24.gov.pt/pt/tema/prevencao-e-cuidados-de-saude/prevencao-do-suicidio
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Freepik
Escrito por: Rita Cardona
Editado por: Margarida Simões


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