Quero ter filhas teimosas

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A minha mãe ainda hoje se queixa da minha teimosia. Mas, verdade seja dita, logo a seguir desabafa: “Bem, tens a quem sair.” Todas as mulheres que mais admiro são teimosas, mandonas e, segundo muitas pessoas, têm “problemas de atitude”. Mas serão maus esses atributos?

Todos sabemos que a sociedade tem expectativas diferentes para homens e mulheres. Essas expectativas moldam os nossos comportamentos, a nossa forma de pensar e, por consequência, o nosso cérebro. Como Daphna Joel e Luba Vikhanski escrevem no livro Cérebro e Género: ”Qualidades associadas aos homens são características de um grupo dominante: força, força de vontade, necessidade de realização, competitividade, agressividade. Qualidades associadas às mulheres são de um grupo subordinado: fraqueza, brandura, amabilidade, sensibilidade, afeto, empatia, solicitude.”

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E o que é uma mulher teimosa? Uma pessoa do sexo feminino com qualidades tradicionalmente associadas ao sexo masculino. “Mas, Sara, homens e mulheres são diferentes. Sabes o que dizem: os homens são de Marte e as mulheres de Vénus.”

Muitos acreditam que estas diferenças existem porque, de facto, pertencemos a géneros diferentes. No entanto, o cérebro é igual. “(…) quase não existem diferenças na estrutura e no funcionamento cerebrais entre rapazes e raparigas recém-nascidos (…) é impossível dizer se uma diferença entre mulheres e homens numa característica do cérebro, numa capacidade cognitiva ou num comportamento é inata (pré-programada) ou se resulta de experiências e de influências externas”, explicam as autoras.

Ou seja, não conseguimos afirmar que determinadas qualidades pertencem naturalmente a um género. Como argumenta Goffman, a cultura define aquilo que entendemos como a nossa própria natureza.

Quem me conhece sabe que quero ter três filhos: duas meninas e um menino. Apesar de não ter o poder de decidir o sexo dos meus bebés, espero ter uma filha que seja tão ou mais teimosa do que eu. E, com teimosa, refiro-me a resistente e determinada.

Mulheres fortes raramente são bem recebidas. A vergonha tenta ser-lhes incutida, seja por quem está perto, seja por desconhecidos nas redes sociais. Se forem fortes mentalmente, avisam-nas: “Olha que nenhum homem te vai aturar. Homem não gosta de ser mandado.” Se forem fortes fisicamente, dizem-lhes: “Olha que os homens não gostam de músculos. Isso não é feminino.”

Podem parecer comentários inofensivos, talvez ditos por mães ou tias preocupadas com a continuação da família. Mas eu só ouço: “Mantém-te pequena e calada. Assim, pode ser que não deem muito por ti. Como fizeram comigo.”

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Se queremos igualdade, as mulheres têm de ser fortes e extremamente teimosas, porque todos parecem ter algo a dizer sobre nós. De acordo com uma pesquisa conduzida pela empresa de análise de linguagem Textio, cerca de 88% das mulheres de alto desempenho recebem feedback centrado na sua personalidade ou atitude, em comparação com apenas 12% dos homens.

Esta tendência não se limita ao ambiente profissional. Também na cultura popular, as mulheres são alvo de escrutínio intenso e o seu trabalho tende a ser menos reconhecido. As celebridades femininas enfrentam significativamente mais julgamentos morais do que os homens e, muitas vezes, aquilo que é produzido por ou para mulheres recebe menos valorização. Um exemplo disso foi Barbie: apesar de ser um filme realizado por mulheres e centrado na experiência feminina e na crítica ao patriarcado, o único ator do elenco a receber uma nomeação para um prémio de representação foi Ryan Gosling. O próprio ator manifestou a sua desilusão por Greta Gerwig e Margot Robbie, realizadora e protagonista do filme, respetivamente, não terem sido nomeadas nas suas categorias – “Não há Ken sem Barbie e não há filme da Barbie sem Greta Gerwig e Margot Robbie”.

Estamos constantemente a ser vigiadas, controladas e diminuídas. Haverá sempre quem nos ache demasiado ambiciosas, demasiado emotivas, demasiado calmas, demasiado simples ou apenas “demasiado”. Se tentarmos ser o que os outros querem que sejamos reduzimo-nos a nada: as mulheres, aos olhos dos outros, deviam ser sempre diferentes em algo.

Como America Ferrera diz, no seu monólogo do filme Barbie: “Estou tão cansada de me ver a mim mesma e a todas as outras mulheres a esforçarem-se para que as pessoas gostem de nós. (…) É tão contraditório e ninguém te dá uma medalha nem te agradece!”.

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O mundo precisa de mulheres que se recusam a permanecer pequenas. Que não se deixam policiar pelo que dizem, pelo que não dizem, pela forma como falam ou pelo momento em que falam. Que não estão sempre a pedir desculpa. Que são teimosas e fazem o que querem porque querem. Sem medo de parecerem mandonas ou chatas, sem recorrerem ao constante “Escolhe tu”, que tantas vezes nos coloca num lugar semelhante ao de uma criança.

É precisamente este condicionamento de nos policiar que noto até na estrada. As mulheres não são más condutoras por natureza, como se a personalidade viesse configurada de origem, tal como fazemos nos Sims. São massaricas (como se costuma dizer) porque têm medo de errar. Pensam demais, hesitam e não têm confiança nelas próprias. Para mim, isso é uma ótima ilustração do mundo real: estamos constantemente a duvidar de nós mesmas, enquanto muitos homens colocam a primeira e avançam sem medo.

Em suma, quanto mais mulheres teimosas existirem, melhor o Mundo será. E espero que todos nós criemos bem as meninas do futuro. Dizem que falamos muito- para mim não falamos o suficiente.

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Escrito por: Sara Reis

Editado por: Cristina Barradas

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