Há uma frase que se tornou tão comum que já passa despercebida. “Vou perguntar ao Chat.” O que começou por ser uma curiosidade tecnológica transformou-se num reflexo.
Já não perguntamos ao amigo que sabe de cinema, à mãe que faz sempre a melhor receita ou ao professor que domina determinado assunto. Também pesquisamos cada vez menos e (imaginem a seguinte frase dita por milhares de vozes em uníssono) “perguntamos ao Chat”.
O mais curioso é que já nem nos apercebemos disso. Perguntamos que filme devemos ver, que mensagem enviar depois de um primeiro encontro, como responder a um e-mail, como fazer um trabalho, que legenda colocar numa fotografia, como organizar a semana, o que cozinhar com os ingredientes que temos no frigorífico e até que opinião devemos ter sobre determinados assuntos.
Pela primeira vez na história, temos uma ferramenta que responde a quase tudo. A questão é… será que ainda sabemos responder sem ela?
Não me interpretem mal, a inteligência artificial representa um dos maiores avanços tecnológicos das últimas décadas. Ajuda médicos a detetar doenças mais cedo, acelera descobertas científicas, traduz idiomas em segundos, apoia pessoas com deficiência, automatiza tarefas repetitivas e permite que profissionais das mais diversas áreas ganhem tempo para aquilo que realmente exige criatividade e pensamento humano. Seria absurdo negar os benefícios da inteligência artificial.
O problema começa quando deixamos de a utilizar como ferramenta e passamos a utilizá-la como cérebro.
Um estudo apresentado na conferência internacional CHI 2025, realizado com 319 profissionais que utilizavam inteligência artificial no trabalho, concluiu que quanto maior era a confiança depositada na IA, menor era o esforço dedicado ao pensamento crítico. Em vez de resolverem problemas, muitos participantes limitavam-se a verificar ou editar aquilo que a inteligência artificial produzia.
Outro estudo, publicado este ano na revista científica Societies, analisou 666 participantes e encontrou uma associação entre o uso frequente da inteligência artificial, a chamada “delegação cognitiva” (quando transferimos para a tecnologia tarefas que antes dependiam do nosso raciocínio) e níveis mais baixos de pensamento crítico.
Não significa que a inteligência artificial nos torne menos inteligentes. Significa, isso sim, que o cérebro funciona como qualquer outro músculo e aquilo que deixa de ser exercitado, acaba por enfraquecer.
Talvez seja precisamente isso que mais me preocupa, estarmos a perder o hábito de pensar devagar, de errar, pesquisar, comparar fontes, discutir ideias e de dizer simplesmente “Não sei.”
Hoje, perante qualquer dúvida, a resposta parece estar sempre à distância de um pedido escrito numa caixa de texto. No entanto, grande parte da aprendizagem acontece exatamente antes da resposta. Acontece quando procuramos, hesitamos, mudamos de opinião e percebemos que uma questão pode ter várias respostas.
A inteligência artificial elimina, muitas vezes, esse caminho e entrega-nos o destino sem nos deixar fazer a viagem.
Há uns anos dizia-se “vou ao Google”. A diferença é que o Google obrigava-nos a abrir vários sites, a escolher, a ler, a cruzar informação e a decidir em quem confiar. Hoje basta fazer uma pergunta e esperar que alguém, ou melhor, alguma coisa, pense por nós.
Atualmente, não estamos apenas a delegar tarefas, mas a delegar o próprio processo de pensar.
Não acredito que devamos ter medo da inteligência artificial. Acredito, sim, que devemos ter medo da facilidade com que desistimos de usar a nossa própria inteligência.
Nenhum algoritmo, por mais avançado que seja, conseguirá substituir aquilo que nasce da experiência humana, da dúvida, da criatividade e do pensamento crítico. Por isso, da próxima vez que alguém disser “vou perguntar ao Chat”, talvez valha a pena fazer uma pausa.
Se a tecnologia já consegue responder a quase tudo, a única pergunta que continua a depender exclusivamente de nós é… ainda queremos pensar?
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Freepik
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Íngride Pais


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