Há demasiados Sonhos dependentes de Duas Horas

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Em Portugal, já não se avaliam apenas conhecimentos: avalia-se a capacidade de um jovem sobreviver à pressão. O meu nome é Soraia Amaral e escrevo Confissões de uma Ansiosa, uma crónica sobre aquilo que nem sempre se diz em voz alta, onde a inquietação ganha forma e a ansiedade se torna escrita. Hoje, escrevo sobre a “corrida de sobrevivência” que é a entrada no Ensino Superior.

Caro leitor, aviso atempadamente que este artigo não se trata apenas de uma indignação face ao Governo – não sou cronista política. Trata-se de uma crónica de empatia, na qual exponho, de maneira honesta, a experiência que tive por esta mesma altura, há um ano atrás. É, digamos, um abraço de conforto aos alunos de 12º ano.

Todos os anos repetimos o mesmo ritual: os exames chegam, os rankings ocupam as notícias, as médias sobem, as vagas desaparecem e milhares de jovens respiram apenas quando tudo acaba (se forem como eu, sustêm a respiração até à chegada dos resultados). Dizem que faz parte. Eu pergunto-me se devia fazer.

A pressão dos Exames Nacionais chega muito antes do dia do exame, sem sequer nos apercebermos (aliás, mesmo muito antes disso). Posso dizer que quando tive o meu primeiro encontro com a psicóloga da escola, no 9º ano (aquele processo dos testes psicotécnicos), experenciei o primeiro “estou mesmo a crescer, vou para a faculdade”. Desde então que tem sido uma loucura.

Mas, colocando a minha ansiedade extrema de lado, todos concordamos que o secundário é uma dor de cabeça, pois é a altura em que começamos a pensar, de facto, no curso em que desejamos ingressar e, à partida, definir assim a nossa carreira (graças ao nosso país, 90% dos casos não se verificam dessa maneira).
E, sem dúvida alguma, são três anos que passam a correr: entramos no curso que desejamos, com apenas 15 anos, temos um choque incansável no 10º ano, fazemos exames da nossa área no 11º ano (o pior ano letivo de longe) e no 12º ano terminamos esta linda viagem, com a inscrição na faculdade para aqueles que assim entendem.

O que não compreendo, de todo, é o porquê dos exames valerem tanto da nossa nota. Um aluno pode trabalhar três anos da sua vida, obter ótimos resultados, e ter planos excelentes para o futuro – até que uma noite mal dormida, uma discussão, uma dor de barriga ou um pingo de ansiedade muda tudo. E assim, vários sonhos terminam numa sala de mesas individuais, em frente a cerca de dez páginas de papel, num espaço de duas horas.

Já para não falar dos erros das plataformas, nos atrasos e falhas das correções, nas alterações constantes das regras, na falta de recursos e na incerteza constante. O Governo é egoísta o suficiente para resumir tudo isto num simples “está tudo controlado”. Isto acontece pois os jovens e os seus problemas são sempre assumidos como última prioridade, já que “somos novos”, e “temos tempo”, e “não temos quaisquer preocupações alarmantes”. Os exames este ano só vieram a agravar mais a ansiedade dos estudantes e a crescente aversão à entrada na universidade.

Se eu, que já passei por tudo isto, sinto um aperto no peito sempre que chega a época dos exames, imagino quem está agora a viver tudo pela primeira vez (e da maneira que está a ser). Invejo a coragem de todos os alunos do 12º ano deste ano. Invejo a resistência ao sistema, a garra que têm em erguer os seus direitos, a persistência em estudar e a força para entrar no Ensino Superior – para concretizarem os seus sonhos.

Os exames, e a própria estrutura da educação em Portugal, fazem-nos acreditar que uma nota define quem somos. Que uma falha anula todas as nossas virtudes. Que uma falta de atenção apaga todos os nossos esforços. E que todos os planos, fora o A, são um completo fracasso, pois “não fomos bons o suficiente”. Eu penso assim, e dificilmente algum dia hei de conseguir mudar por completo.

Vocês não são “malucos” ou “obcecados” por pensarem assim: são jovens portugueses que têm um sonho, e que se esforçam para o realizar. Infelizmente, o sistema contém todos os obstáculos para tal. A meta parece longe (e é mesmo). Mas vale a pena lá chegar.

O único conselho que vos posso dar é o seguinte: esforcem-se hoje, com o que têm hoje, para o amanhã. O que têm hoje é suficiente, e mesmo que pareça pouco, se o utilizarem bem, valeu a pena. Tracem planos, não desistam disso – manifestem, desejem, sonhem, imaginem-se no futuro. Mas não se esqueçam que estão no presente, e se hoje não vos colocarem a vós mesmos, à vossa saúde (mental e não só), ao vosso bem-estar e aos vossos queridos à frente de tudo aquilo que não podem controlar, cuja importância não vale tudo o que referi (de longe), o amanhã frutífero que desejam não é alcançável.

“Os jovens estão cada vez mais frágeis. Têm todos os problemas do mundo, passam a vida a queixar-se e querem tudo de mão dada”. Discordo. Na verdade, nunca achei que fôssemos frágeis. Acho precisamente o contrário. Acho extraordinário que consigamos continuar a levantar-nos todos os dias para estudar, quando sentimos que o peso do futuro nos caiu inteiro em cima dos ombros, ao consultar as pautas.

Aos alunos do 12.º ano só quero dizer isto: nenhuma pauta conhece o vosso carácter. Nenhuma média mede a vossa coragem. Nenhum exame resume tudo aquilo que são. E, se há coisa que esta ansiosa aprendeu, é que a vida tem uma estranha forma de abrir portas onde antes só víamos paredes. Talvez esteja na altura do nosso sistema de educação aprender a fazer o mesmo.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Pinterest

Escrito por: Soraia Amaral

Editado por: Íngride Pais

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