Este verão tem sido muito diferente: incêndios que consomem florestas, temperaturas que batem recordes, praias cada vez mais perigosas e vidas perdidas, por um calor que deixou de ser apenas desconfortável. O meu nome é Soraia Amaral e escrevo “Confissões de uma Ansiosa”, uma crónica sobre aquilo que nem sempre se diz em voz alta, onde a inquietação ganha forma e a ansiedade se torna escrita. Hoje, escrevo sobre aquilo a que podemos chamar de “ecoansiedade”.
Lembro-me de, em criança, o verão significar apenas uma coisa: verão.
O fim das aulas e o início do descanso. A praia, durante o dia inteiro, a bola de Berlim (sem creme, para mim) e o gelado ao final da tarde. Os parques aquáticos, as madrugadas quentes passadas no café, e os reencontros com os 15 primos que vivem demasiado longe para os vermos durante o resto do ano. Sim, a única preocupação na altura eram mesmo os escaldões ou as picadas de mosquitos.
Porém, sinto que este verão está muito, mas muito, diferente. Claro, agora tenho 19 anos, e metade das diversões que citei já não me entusiasmam assim tanto (apesar de uma bola de Berlim cair sempre bem). A verdade é que o mundo está cada vez mais perigoso e instável, e até o nosso momento de descanso se transformou numa constante dor de cabeça.
Por exemplo, há umas semanas estava na praia com os meus amigos quando, de repente, começa um incêndio, não muito distante do parque de estacionamento (no qual tinha o meu carro) da praia em que estávamos. Para terem noção, toda aquela zona é repleta de mato e folhas secas. Para além disso, já havia até um helicóptero a vir buscar água à nossa frente. Sem contar que quando esse acabou, outro incêndio começou (desta vez mais longe, mas horrível de se ver).
O que estou a tentar dizer é que, hoje em dia, abrir as notícias em julho equivale a encontrar incêndios diferentes que consomem florestas todos os dias, temperaturas que batem recordes, praias cada vez mais perigosas e vidas perdidas, por causa de um calor que deixou de ser apenas desconfortável. E, para quem já vive com ansiedade, o planeta parece ter decidido alimentar todos os nossos medos.
O que mais me chocou foi o perigo crescente na praia, nomeadamente no mar. À medida que os anos vão passando, vão havendo cada vez mais incidentes aquáticos: mortes, desaparecimentos, pessoas em perigo e fenómenos de arrepiar a espinha; muitos destes ocorrem porque (e perdoem-me pela frieza) alguém que não sabe nadar muito bem se aventurou. O aumento da confiança face ao mar e a pouca perceção do perigo que este tem, acaba por ser um fator que aumenta os incidentes referidos.
No entanto, os fenómenos meteorológicos não ficam atrás desses fatores: sabiam que as tempestades de inverno foram responsáveis por tornar o mar mais imprevisível ainda? Sim, os horrores causados não ficaram na estação mais fria. Isto acontece porque a erosão costeira acelerou, o que resultou na alteração das correntes.
A meu ver, pior do que os perigos marítimos (algo que, se tivermos consciência, podemos evitar) são as ondas de calor – estas já não conseguimos evitar. E não, não significa que a UV esteja mais alta, e que “o bronze vai render”.
O calor extremo aumenta o risco de mortalidade. Para mim, é surreal como é que o calor pode ser tão elevado ao ponto de poder causar mortes.
Para além disso, as ondas de calor, muito suscintamente, levam a secas, incêndios florestais, espécies invasoras (e cada vez mais fortes), mosquitos que transmitem doenças, pragas agrícolas (o que afetará os nossos alimentos), e a obrigação de redistribuir os animais, para que consigam sobreviver.
E como todos somos seres humanos, o psicológico também é afetado. Tudo isto provém das alterações climáticas, e apesar de ainda haver uma boa parte da população que não acredita em “tal barbaridade”, ambos sabemos que é verdade. Eu, pessoalmente, sou engolida por um sentimento de impotência face a tudo isto pois, apesar de fazer a minha parte, muitas pessoas continuam a agir como se o problema fosse muito distante delas, quando, na verdade, começou em nós, e nas nossas ações pouco ou nada ecológicas.
Como referi no início do artigo, o verão já não significa apenas férias: há eventos cancelados devido ao calor extremo (como os 250 anos dos EUA), escolas encerradas mais cedo do que o suposto – e desde o COVID-19 que percebemos que, afinal, isto não é tão apetecível assim -, pessoas que evitam sair à rua na hora do calor (o que leva ao tédio), trabalhadores expostos ao calor (como os trabalhadores de construção), e famílias que vão dormir com medo de um incêndio de madrugada (como o incêndio em Vouzela, às 3h00 da manhã do dia 2 de julho).
Portanto, aqui percebemos de onde vem a ecoansiedade: da angústia, da preocupação e do sentimento de impotência perante a crise climática, especialmente entre os mais jovens que, assim como eu e todos vós, querem um futuro, e de preferência neste planeta.
O grande problema é que não nos estamos a conseguir adaptar às rápidas mudanças, mas sim ao hábito em ver o planeta mudar. E condenamo-nos ao deixar de nos surpreender com o extraordinário, aceitando como normal aquilo que não é, de todo.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Escrito por: Soraia Amaral
Editado por: Cristina Barradas


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