Todos estamos azedos com o que se passou no Mundial. Desde os fãs natos que insistem ainda hoje no grande roubo britânico de ‘66 aos que usam a camisola da seleção só pela dancinha, não há como negar. Ninguém gosta de ser eliminado, muito menos Portugal, e muito menos por Espanha. No entanto, a verdade é que não perdemos só um jogo e não fomos eliminados só do Mundial: perdemos a nossa dignidade como país e fomos há muito eliminados da competição de países com governos decentes.
Atenção, eu também sou homem, humano, e português. Custou-me ver aquele jogo em que o golo depois dos 90” de Merino nos roubou a chance de ir mais longe. Custou mesmo. Acredito com tudo o que tenho que merecíamos ganhar, e acreditei em cada momento. O texto com que se deparam neste momento não é uma declaração apaixonada à Espanha, muito menos um arrastar de Portugal pela lama. Pelo contrário, é uma análise crítica. Não só porque achei engraçado e pertinente, mas também porque é o meu dever como ser humano (logo, um ser político) analisar e criticar tudo aquilo com que me deparo. Prossigamos.
Portugal já tinha perdido assim que ouvimos Sanchez condenar a “intervenção militar injustificada e perigosa” realizada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, enquanto de Montenegro apenas ouvimos a condenação dos “injustificáveis ataques” iranianos, condenação expressa a um país que se atreve a retaliar o imperialismo americano, quando este se lhe bate de frente. Aliás, não, induzi-vos em erro, peço desculpa: Luís Montenegro deixou ainda claro o seu apoio à política americana de ingerências, mostrando-se aberto para aplicar sanções a Teerão, sempre contra a autodeterminação dos povos. Onde estava Montenegro, onde estava Rangel, onde estava a direita quando Mahsa Amini foi violentada até à morte? Não basta votar favoravelmente um voto de pesar e esquecer-se amanhã, não basta utilizar vidas humanas como desculpa para o apoio egoísta à violência.
Bem, na verdade, como poderia não estar Montenegro contra a autodeterminação dos povos, se está (ele e o seu partido) contra a autodeterminação dos portugueses dentro da sua própria pátria? Em Espanha fez-se história em 2023: baniu-se a terapia de conversão, de qualquer tipo, estendeu-se a idade legal para uma mudança de sexo formal de maneira surpreendente, ao mesmo tempo que se desburocratizou todo o processo. Perfeito. Em Portugal, estivemos mais focados em deitar fora aquilo que já tínhamos: pusemos um bolo perfeitamente bom no lixo para depois cozinhar uma nojeira qualquer. Típico. A nova proposta regressiva, vinda exatamente daqueles que juravam nunca se alinhar com a extrema direita fascista (já o fizeram) infantiliza adultos de uma maneira paternalista, retira agência sobre o próprio corpo aos portugueses. Sem razão nenhuma. Pratica de maneira óbvia o negacionismo, ignorando psicólogos, médicos, famílias e as próprias pessoas trans, que apelam exatamente a leis no sentido contrário. Votámos em março, fez-se o que se pode, mas o grupinho fez panelinha com as propostas, fosse o parlamento a casinha e o governo as bonecas, e os projetos de PSD e CH passaram. Observemos — enquanto Sanchez bate recorde atrás de recorde em campo, Montenegro joga para trás e sabota o jogo. Forma-se um padrão de sede de poder e controlo sobre a vida alheia bastante alinhado como o republicanismo americano de que a direita portuguesa tanto tem gostado. Estamos 2 – 0, até agora, vantagem para Espanha.
Faz-me lembrar de, recentemente, já em 2026, Espanha, atrás de França, ter dado passos para incluir o direito ao aborto na Constituição, para que este não possa ser retirado com o flutuar dos governos. Inteligente. Decerto Portugal fez o mesmo, não? Mais ou menos. Portugal foi, ao invés disso, palco de múltiplas marchas anti aborto e, consequentemente, anti mulher, que receberam uma atenção mediática desproporcional, tentando ainda através desta dominar o campo de simpatia do cidadão, denominando-se “Marcha pela Vida”. Estas marchas também acontecem em Espanha, acontecem em muito lado, o problema é termos pessoas pertencentes aos partidos do governo e à direita “moderada” (que não existe em Portugal) nestas marchas, ao invés de governantes que condenam estas posições, como têm os raptores ilegítimos de Olivença aqui ao lado. A liberdade, a cobertura e a corda que damos a manifestações anti mulher, organizadas por sujeitos que, na minha opinião, em grande parte, nunca abriram alarido igual pelo 25 de Abril, é politicamente preocupante. Estamos a defender o indefensável.
Já tínhamos perdido pelo simples facto de que, se Espanha fosse como Portugal, talvez nem teríamos visto Lamine brilhar na seleção. O município onde Lamine Yamal cresceu, Rocafonda, é muito mais barato e em conta, proporcionalmente, e até mesmo sem ter em conta a proporção, do que os subúrbios lisboetas a ele equivalentes. Teríamos um Lamine, filho de pais trabalhadores, com a nota de despejo à porta, sem vaga para casa social e sem classificação para quaisquer apoios no que toca à habitação. Um Lamine lisboeta teria uma vida complicada. Duvidam de mim? A densidade de Airbnbs em Lisboa é 6 vezes maior do que em Barcelona, apesar da menor dimensão da capital lusa. Os salários, em média, são 41% menores, mas o custo de vida diminui apenas 6 a 8% para viver na nossa capital. Golo da Espanha.
Perdemos assim que Espanha, acompanhada de outras corajosas nações, se recusou prontamente a participar no Festival Eurovisão 2026, em protesto contra a participação de Israel. Portugal bem tentou: os trabalhadores da RTP fizeram conhecer as suas exigências numa carta aberta, exigiram a não participação no festival. As suas preocupações legítimas foram abafadas, foram silenciados e ninguém fez caso. Também já tínhamos perdido quando os nuestros hermanos reconheceram o Estado Palestiniano, em 2024, quando se impuseram repetidamente perante a comunidade internacional contra o fetiche bélico e expansionista israelo-americano, tiveram e têm o seu Primeiro Ministro a vir a público em favor da Palestina — não fomos capazes de os igualar. Montenegro só foi capaz de defender uma suspensão parcial de acordos com Israel depois de vermos portugueses no lugar do torturado. Nada significaram as dezenas de milhares de vidas perdidas, igualmente humanas, igualmente importantes, para o governo português, em todo este processo. Nada continuam a significar, já que a direita não diz nada com nada sobre o genocídio, exceto quando é para ridicularizar adversários políticos com a questão da flotilha. Aí sim, falam. O gato devolveu-lhes a língua.
Devolveu-lhes a língua para vermos Rangel tranquilizar a oposição, garantindo que “não há problema nenhum com os EUA” (quando esse é exatamente o problema.) A graxa é tanta que vimos Marc Rubio tecer-nos largos elogios, falando de uma “amizade forte”, “parceria sólida” e descrevendo um dos “aliados mais antigos e fiéis”. Se temos Rubio a elogiar-nos à grande e à americana, será que estamos bem? Claramente não.
Assim termino a minha reflexão, ainda a matutar na azia de não termos largado Aljubarrota neles todos. Em 2030 levam com a colher do pão. Até lá, podemos focar-nos na partida que nos espera, a mais importante de todas, porque estão em jogo as nossas vidas: a política. Talvez uma das primeiras vezes na história onde nem sequer damos luta. Onde está a nossa rivalidade com Espanha agora? A sede de ganhar? A partida ainda não acabou, está longe de acabar. Os nossos vizinhos estão a ganhar, e a ganhar por muito, e sabem o mais triste? A maioria da vantagem deles são autogolos.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Instagram
Escrito por: Lucas Sousa
Editado por: Íngride Pais


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