Considero que a calçada portuguesa é o exemplo perfeito de uma beleza singela; simples na sua composição, mas que carrega consigo a beleza de ser construída, uma por uma, há centenas de anos. Tal como todos os elementos culturais, a calçada portuguesa representa significativamente o nosso país, e, na minha perspetiva, a estagnação que lhe é inerente.
Recentemente, ao arrastar uma mala com um certo peso pela calçada portuguesa, apercebi-me de algo que nunca antes tinha dado conta. O quão difícil é fazê-lo. Não foi a primeira vez que o fiz, e muito menos a primeira vez que notei que não é propriamente fácil, no entanto, ao contrário das outras vezes, esta fez-me pensar.
Durante esta longa caminhada, que apesar de parecer longa só durou cerca de 30 minutos, apercebi-me que, efetivamente, a calçada portuguesa não é feita para rodas, muito menos para rodas pequenas. O pavimento está longe de ser liso. As pedras que o constituem são irregulares, têm alturas e espaçamentos diferentes, o que pode acabar por desgastar ou até mesmo estragar as rodas, isto não impede a deslocação, consegui chegar ao destino que pretendia, no entanto de forma muito mais demorada e exaustiva.
O que me fez pensar não foi propriamente a dificuldade de carregar seja o que for pela calçada portuguesa acima, mas sim o que isso representa no nosso país. A calçada portuguesa é frequentemente apresentada como um símbolo de identidade e tradição, no entanto a sua permanência quase intocável, mostra a tendência que acompanha Portugal há décadas, a dificuldade de abandonar soluções do passado, mesmo quando estas já não correspondem às necessidades do presente. Isto leva-me a questionar o porquê de continuarmos a insistir em soluções que, claramente, nos criam dificuldades, apenas porque fazem parte daquilo a que estamos habituados.
Somos, por natureza, um país convencional, e, pessoalmente, é uma característica que admiro. Admiro-a porque revela um certo respeito pela história e pelas tradições que recebemos de gerações anteriores. No entanto, esse respeito não nos deveria impedir de reconhecer quando a mudança é necessária. Um exemplo disso é a burocracia presente em inúmeros serviços públicos. Apesar de todos os avanços tecnológicos que surgem, existem ainda processos que obrigam os cidadãos a apresentar documentos presencialmente, e que os obrigam a esperar longos períodos de tempo por procedimentos que facilmente poderiam ser simplificados.
No fundo, acredito que respeitar as tradições é, efetivamente, uma forma de preservar a identidade de um povo, mas isso não deve impedir a procura de soluções mais eficazes para os desafios do presente. Considero que mais importante do que manter as tradições, é observar as mudanças com uma certa esperança, e adaptarmo-nos às mesmas para que o país possa continuar a evoluir.
Considero por fim que um país não se fortalece por permanecer igual, mas pela capacidade de evoluir sem se esquecer das suas raízes. Cabe-nos então, preservar aquilo que verdadeiramente nos define, e, simultaneamente, ter a coragem de modernizar o que necessita de ser modernizado. Seja através da simplificação de serviços públicos, ou até mesmo através da construção de uma via que facilite a circulação de rodas. Para que as pessoas com mobilidade reduzida se consigam deslocar com autonomia, para que os turistas que surgem com novas ideias e mentalidades as consigam passar para o nosso país, e para que as novas gerações, que serão o nosso futuro, assim como as gerações mais velhas que já o foram, consigam circular em segurança, sem estar constantemente a tropeçar devido ao relevo do pavimento.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: https://pin.it/5B28v6ZkQ
Escrito por: Francisca Lousada Silva
Editado por: Rodrigo Caeiro


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