O novo caminho de Anitta: onde os orixás dançam na pista

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No seu novo álbum, Anitta apoia-se na sua religiosidade para manifestar a sua fase de busca por equilíbrio: as canções desenham um espaço onde diferentes crenças se cruzam, e o seu entendimento aparece menos como solução definitiva e mais como aprendizagem contínua de viver.

“Enquanto insiste, eu tô fazendo retiro, em paz me retiro
Pra sua intenção, ficou só miragem, sua paisagem
Minha meia volta, dou a volta ao mundo
Passagem, só de ida pra um estado elevado
Enquanto eu sambo”
(letra de “Desgraça”)

Equilibrivm”, o novo álbum da artista brasileira com maior alcance global da atualidade, chegou ao alcance do público a 16 de abril, com sensação térmica de felicidade e realização por parte da própria Anitta. É, nas suas palavras, “a maior bênção” da sua vida e a prova de que “achar o equilíbrio é mais do que possível, é maravilhoso”. Ao contrário dos projetos anteriores, esta nova fase assume‑se como a mais próxima de Larissa, a face menos pública da cantora. O disco é apresentado como uma oferenda “para muita ou pouca gente, para quem quiser ouvir”. Anitta propõe uma coletânea mística e intimista, com participações de artistas que descreve como amigos talentosos e iluminados, e através do cruzamento de ritmos afro‑brasileiros, como o axé e o samba, com batidas de macumbeats e tendências do reggae.

A proposta musical explora o caminho de busca espiritual que a cantora tem feito nos últimos três anos. A sua religião já tinha surgido de forma concreta em “Aceita”, do álbum “Funk Generation”, mas em “Equilibrivm” deixa de ser apenas uma menção para se tornar um dos eixos centrais do projeto. Numa das entrevistas mais recentes, Anitta fala de uma linha lógica, no contexto deste trabalho, de procura de equilíbrio interior e, em certa medida, de “limpeza energética”. Ao longo do disco há uma evolução que cruza elementos e símbolos do candomblé, da umbanda, do budismo e de rituais indígenas, bem como a própria questão do sincretismo religioso, convivendo com o quotidiano e o lado mais profano. Fé e festa caminham de mãos dadas, o importante é a tentativa de encontrar um ponto de equilíbrio.

Equilibrivm” funciona como um pequeno mapa da pluralidade espiritual brasileira. Nas letras surgem Pombas Giras e a força de Exu Mulher, como Sete Saias, evocam‑se agrados e oferendas, a ternura de Oxum e a forma como a cantora diz ver Deus em tudo: na família, nos cães, em si mesma. Há Nanã, mãe criadora através do barro, sublinhada também no videoclipe, e a cabocla que lembra o entendimento entre o humano e a natureza. Tudo isto aparece em linguagem pop, como uma homenagem a orixás e a energias em que Anitta acredita.

Se nas letras o álbum desenha esse mapa espiritual, na imagem ele ganha corpo. Cada capa de faixa, vídeo musical e até a forma como Anitta se tem vestido nesta fase prolongam a mesma lógica de equilíbrio: saias longas, colares de contas, braceletes de palha de costa traçada e cores associadas a determinados orixás convivem com elementos urbanos, de festa, entrevistas e performances, que remetem à pista e à força feminina. Não é apenas decoração “exótica”, mas uma forma de trazer para o centro símbolos que muitas vezes ficaram confinados ao espaço do terreiro, expondo-os a um público global sem diluir a sua potência.

Fonte: Instagram
Fonte: Instagram

Equilibrivm” é entregue, assim, por uma Anitta que se vê num ciclo de purificação e, ao mesmo tempo, numa busca contínua por evolução espiritual. A viragem acontece depois de atingir o topo do mundo e, na sequência, a queda, fruto de problemas de saúde que a obrigaram a parar e a rever prioridades. A artista conta ainda o momento chave em que recebeu a biografia de Carmen Miranda com a dedicatória “Mude o final”, gesto que a fez pensar nas semelhanças entre os percursos profissionais e pessoais de ambas, incluindo o escrutínio de ser acusada de estar “americanizada”. A diferença é que, onde Carmen acabou transformada em mártir, Anitta escolhe outra saída: decide ser feliz, recusar sacrificar de novo a saúde e o tempo de qualidade para chegar ao cume, e, dessa forma, muda o final.

“Eu vi pote de ouro e não vi arco-íris
Gastei meu tempo sem admirar
Cabeças ocas cheias de palpites
Querendo me desequilibrar
Fingi que nem ouvi, fui adiante
Eu já não sou mais como eu era antes
Tô conhecendo a liberdade
Fazendo as pazes com a felicidade”
(letra de “Deus Existe”)

Por fim, este acaba por ser o projecto da cantora com maior aceitação em termos gerais, reunindo público e crítica em torno de uma ideia ímpar. É um conjunto forte e coeso que traz foco e luz para abrandar, dizer adeus aos excessos e procurar aquilo que nos permite ser divinos e humanos ao mesmo tempo, nesse movimento de encontro do equilíbrio. Existe uma coexistência pare circular entre o ancião e o moderno, entre o sagrado e o profano, entre o industrial e a autenticidade. O trabalho cruza a brasilidade de ritmos afro-brasileiros com uma produção contemporânea numa primeira parte em português e, depois, avança para uma abordagem mais direta ao público internacional, em inglês e espanhol. Os orixás dançam na pista, a simbologia converte-se em poesia pop e a atenção ao detalhe convida a desacelerar o consumo cultural rápido, permitindo-nos pensar, imergir e, quem sabe, ser também luz no caminho do outro.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Capa: YouTube

Escrito por: Carolina Dinis

Editado por: Íngride Pais

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