O truque colonial: Como as colónias eram impedidas de prosperar?

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Se o colonialismo nem sempre dependia da escravatura, e os colonizadores até pagavam às colónias pelos recursos, como é que conseguiam ganhar tanto dinheiro? Em que é que a colonização era diferente do comércio normal?

A estratégia era mais subtil do que parece. Ouvimos muitas vezes termos vagos como “exploração” ou “abusados”. Por isso, vou tentar desenvolver mais o tópico na esperança de iluminar mais o tema. 

Mercados cativos

A primeira restrição é que a colónia só podia comprar bens ao seu colonizador. Não podias procurar o preço mais baixo, tinhas de aceitar qualquer preço absurdo que o colonizador cobrasse pelos produtos acabados. Da mesma forma, só podias vender as tuas matérias-primas ao colonizador, ao preço ridiculamente baixo que ele impusesse, caso contrário não conseguias vender. Concordamos todos que já começa mal, mas então e se simplesmente recusasses participar?

Tenho uma quinta, cabras, vacas, uma casa. Não pago renda. Os meus antepassados viveram assim durante gerações. Porque haveria de jogar o jogo deles? Como é que me vão obrigar a trabalhar numa mina por um salário baixo se eu nem preciso de salário?

Precisas de um salário porque tens de pagar impostos.

Têm de ser pagos caso contrário as consequências são mórbidas, como podes calcular. Mas a especificidade é que não os podias pagar com colheitas, como um camponês medieval podia. Tinhas de pagar com uma moeda específica: a moeda do colonizador. E a principal forma de obter essa moeda era trabalhar para as empresas do colonizador. Portanto, sim, acabavas por trabalhar mais nas minas e nas plantações por salários absurdamente baixos sem alternativa. Sem concorrência, nenhuma empresa de outro país podia vir à tua terra competir pela tua mão de obra e oferecer salários mais altos porque não podias comerciar com ninguém para além do teu colonizador.

Poderias pensar: ok, o jogo está viciado, mas não sou escravo. Ainda posso comprar e vender. Vou trabalhar imenso, poupar, investir na minha própria fábrica, produzir e competir com a Grã-Bretanha. Certo, só posso comerciar com a Grã-Bretanha, mas se os meus produtos forem suficientemente bons, posso criar um monopólio contra eles e inverter os papéis.

Até é plausível, mas há um exemplo na história que demonstra o contrário.

O caso da Índia: desindustrialização

A Índia já teve a melhor indústria têxtil do mundo. O fio indiano era tão fino e bem produzido que não tinha rival: nem na Europa, nem na China. A Índia representava um quarto de toda a produção manufatureira global. Até os próprios britânicos preferiam os têxteis indianos aos seus. Portanto, seria de esperar que a Índia se libertasse, certo?

Textile (India), 18th century (CH 18424099-2), Fonte: Wikimedia Commons

A Grã-Bretanha impôs uma tarifa de 85% sobre os tecidos indianos, tornando-os artificialmente mais caros do que o tecido britânico. Devastador, quando só podes vender aos britânicos. Quando alguns tecelões indianos tentaram vender secretamente aos holandeses ou franceses, guardas da companhia britânica invadiram, cortaram tecidos ainda nos teares e chicotearam os tecelões até lhes deixarem as costas sangrentas.

E como se isso não bastasse, o uso de tecidos indianos foi proibido na Grã-Bretanha. Homens e mulheres ingleses apanhados a usá-los eram severamente multados. Isto deu aos têxteis britânicos a proteção necessária para se industrializarem sem a ameaça imediata da concorrência indiana.

Enquanto isso, a Índia passou de uma potência industrial de topo mundial para uma colónia subordinada de matérias-primas ao serviço da indústria britânica. E claro, se ainda tivesses algumas poupanças (por algum milagre), os britânicos podiam simplesmente aumentar os impostos para as absorver.

Afinal, eram escravos ou não?

Normalmente, os países não te taxam até ao último cêntimo disponível, porque querem que uses as poupanças para criar negócios produtivos ou adquirir bens. Isso impulsiona o crescimento da economia, aumenta a receita fiscal a longo prazo e torna o país mais próspero.

Contudo, a Grã-Bretanha não queria que criasses negócios concorrentes. Portanto, porque deixariam eles que tivesses mais do que o mínimo necessário para sobreviver? Precisavas apenas do suficiente para continuares a ser um trabalhador produtivo.

No final, estavas escravizado em tudo menos no nome.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados

Fonte da imagem de capa: Philip Dorf, Our Early Heritage: Ancient and Medieval History, Oxford Book Company (adapted)

Escrito por: Beatriz Djalo

Editado por: Margarida Simões

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