Washington olha para Teerão, Pequim agradece

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A guerra contra o Irão parece revelar uma das grandes incoerências da política externa americana sob o Trump 2.0. A National Security Strategy de 2025 diz que uma estratégia deve avaliar, ordenar e priorizar. Nem todo país, região ou conflito pode estar no centro da política externa americana.

Essa ideia é, na teoria, bastante sensata. O problema é que a prática contradiz o discurso. O documento demonstra que o foco dos Estados Unidos não está no Oriente Médio. Não por acaso, há o objetivo explícito de evitar novas forever wars nessa região. A prioridade dos Estados Unidos é clara: a Ásia. No entanto, ao iniciar uma guerra contra o Irão, Washington parece fazer exatamente o contrário: desperdiça recursos, mina a sua credibilidade e dissipa o seu foco para o Oriente Médio.

Elbridge Colby, um dos principais arquitetos da National Security Strategy de 2025, argumenta que o principal objetivo dos Estados Unidos é prevenir que a China alcance hegemonia na Ásia. A região, afinal, representa cerca de um terço do PIB nominal mundial e quase metade em paridade de poder de compra. É, claramente, a zona mais importante do mundo, e continuará a ser durante todo o século XXI. Além disso, pela primeira vez a China é reconhecida como um competidor a altura dos Estados Unidos. Nesse contexto, é evidente que o que caracteriza a política externa americana é a competição com Pequim. Portanto, a conclusão lógica deveria ser uma política externa mais voltada para a dissuasão na Ásia, para o fortalecimento de alianças regionais e para a proteção de rotas comerciais estratégicas. Em vez disso, a guerra contra o Irão empurra os EUA de volta para o tipo de intervencionismo que o próprio documento diz querer superar.

É difícil encontrar uma justificativa estratégica sólida para essa guerra.

Seria para enfraquecer a China energeticamente? Talvez, mas esse argumento é frágil. A China depende de energia do Golfo, mas também diversificou as suas fontes e tem capacidade de absorver choques, através da sua enorme reserva energética.

Seria para manter aberto o Estreito de Ormuz? Ora, ele já estava aberto.

Outro possível argumento seria o de enfraquecer um parceiro importante da China, mas mesmo isso parece pouco convincente. O Irão é, sem dúvida, um ator relevante para Pequim, mas não é o centro da estratégia chinesa. Ao atacar o Irão, os Estados Unidos também enfraquecem a própria credibilidade. Aliados dos Estados Unidos no Golfo, que dependem da estabilidade regional para seu desenvolvimento económico, têm motivos para desconfiar de uma potência que diz defender a ordem e a segurança, mas que contribui para tornar a região mais insegura.

Esse é o ponto fundamental: a guerra contra o Irão não fortalece a posição americana diante da China. Pelo contrário, ela enfraquece-a. Para conter a China, os Estados Unidos precisam de recursos, uma rede de aliados estável, uma base industrial forte e uma imagem internacional confiável. Precisam, sobretudo, de aliados e capacidade produtiva para salvaguardar cadeias de suprimento estratégicas e competir com a China em escala, seja em tecnologia, energia, semicondutores, defesa ou infraestrutura. Também precisam de uma política externa minimamente coerente com o direito internacional, justamente para preservar a sua superioridade diplomática e a sua rede de alianças.

Afinal, durante décadas, os Estados Unidos apresentaram-se como defensores de uma ordem internacional baseada em regras. Mas, desde Trump, essa imagem tornou-se cada vez mais difícil de sustentar. 

Na minha visão, será a maior beneficiária dessa guerra.

Em primeiro lugar, porque o conflito distrai os Estados Unidos da região que realmente importa para a competição sino-americana: a Ásia.

Em segundo lugar, a guerra oferece à China uma oportunidade diplomática enorme no Sul Global. Muitos países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio já olham com desconfiança para as intervenções militares americanas.

Em terceiro lugar, a crise no Golfo oferece à China uma oportunidade estratégica no campo energético. Uma crise no Golfo reforça para muitos países a necessidade de reduzir a dependência do petróleo e diversificar as suas fontes de energia. No entanto, as principais cadeias produtivas das energias alternativas — painéis solares, baterias, veículos elétricos, minerais críticos e tecnologias de armazenamento — são amplamente dominadas pela China. Assim, quanto mais os países do Sul Global procuram proteger-se da instabilidade petrolífera do Oriente Médio, mais podem acabar dependentes da infraestrutura, do financiamento e da tecnologia chinesa. A guerra, portanto, pode acelerar uma transição energética que fortalece Pequim. 

Além disso, há um problema direto para a estratégia de alianças dos Estados Unidos no Leste Asiático. Se o objetivo principal de Washington é dissuadir a China, então a tarefa mais importante deveria ser construir e manter uma rede sólida de aliados e parceiros na região – Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Austrália, Índia, Taiwan e países do Sudeste Asiático. No entanto, a guerra contra o Irão dificulta essa tarefa. Muitos desses países são altamente dependentes do petróleo que passa pelo Golfo e pelo Estreito de Ormuz. Ao gerar instabilidade nessa região, os Estados Unidos desviam a sua atenção da Ásia e colocam os seus próprios parceiros asiáticos diante de riscos energéticos e económicos. Isso pode enfraquecer a confiança desses países na liderança americana, justamente quando Washington mais precisa de convencê-los de que é um ator previsível e confiável face a políticas chinesas cada vez mais agressivas no Mar da China Meridional e no Mar da China Oriental.

Se a prioridade declarada dos Estados Unidos é conter a ascensão chinesa e impedir a hegemonia de Pequim na Ásia, então abrir uma nova frente militar no Oriente Médio parece um erro estratégico evidente. Em vez de reforçar a dissuasão no Indo-Pacífico, Washington dispersa recursos e atenção; em vez de fortalecer a sua rede de aliados, sobretudo no leste asiático, aumenta a desconfiança; em vez de defender uma ordem internacional baseada em regras, dá à China a oportunidade de apresentar-se como a voz da estabilidade, o que lhe aumenta a credibilidade internacional, podendo fortalecer laços com o Sul Global e, até mesmo, com aliados históricos dos Estados Unidos.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da imagem da capa: https://www.ncuscr.org/event/u-s-china-relations-in-the-shadow-of-the-iran-war/

Escrito por: Theo Vivas

Editado por: Rita Luís

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