Abril, Águas Mil

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No início, Abril pesa nos telhados,
com chuva forte e céus cinzentos, mas calados.
As ruas vazias mostram-se contidas,
guardam vozes, gestos e ações reprimidas.

Chove bastante, nas janelas e nos corações,
aqui não há espaço para quaisquer ambições.
Dias escuros provocam um sentimento escuro,
agora, já ninguém se preocupa com o futuro.

Mas o bater da chuva algo traz,
um murmúrio, um sussurro, algo capaz.
Capaz, talvez, de levantar o povo,
Para assim, talvez, começar de novo.

Abril avança, agora sem o talvez,
e procura romper esta tremenda timidez.
De cravos nos bolsos, o povo avança,
molhado pela chuva, mas cheio de esperança.

Até que, de repente, rompe a manhã,
e deixa de haver tanta incerteza em torno do amanhã.
A voz ganha corpo, o gesto é inteiro,
a luz entra em grande e rasga o nevoeiro.

O sol de primavera, inopinado e ardente,
aquece o corpo e a alma de tanta boa gente.
Gente esta que sofreu e por muito passou,
mas que, felizmente a meio, Abril ultrapassou.

Os cravos, nas mãos, agora florescem,
depois de tanta opressão, que bem merecem.
Acabou a prisão, acabou a sentença,
Já há espaço para o povo sentir pertença.

E assim, no fim do mês, o céu torna-se aberto,
e o futuro, até que enfim, até parece certo.
Abril já não chora, agora sorri,
após águas mil, Portugal nasce aqui.

25 de Abril de 1974. Revolução dos Cravos,
na qual todas e todos deixaram de ser escravos.
Dia da Liberdade. Feriado Nacional,
no qual saímos todos à rua pelo bem de Portugal!

Fonte da Imagem de Capa: Pinterest

Escrito por: Soraia Amaral

Editado por: Cristina Barradas

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