Aquilo que lia sobre regimes opressivos foi, durante muito tempo, algo que encarava como uma realidade distante. Um dia, percebi que o meu avô os guarda na memória, e a partir daí, passou a fazer parte da minha história.
Lembro-me de ser muito nova e de gostar, especialmente, de aulas de História que abordassem a Inquisição, o Holocausto e o Estado Novo. Ao mesmo tempo, sempre foram temas que me deixaram mal-disposta, pela tamanha crueldade dos tempos. Tinha vontade de vomitar, reação fruto da minha “singular” sensibilidade, da idade tenra que tinha e, sobretudo, do choque que sentia, ao ver que a realidade dos nossos antepassados havia sido tão atroz. Era bárbaro. Parecia-me tão distante da realidade do mundo em que estava inserida, que era inexequível imaginar tais cenários sem que me sentisse fraca.
Li o diário de Anne Frank quando tinha 12 anos. A minha tia ofereceu-me o livro, na mesma altura em li “Os filhos da droga”.
Alguns dos meus familiares achavam que os livros que lia, na altura, eram demasiado severos e explícitos para a minha idade. A minha tia, por sua vez, frisava a importância de os ler cedo, para cedo formar sentido crítico e ganhar consciência do que é, na realidade, a vida. Talvez tenha sido, em parte, graças a estas leituras que considero a minha empatia “singular”. A minha tia dizia-me, tal como os professores de História, que “aprender sobre o passado é essencial, para não o repetir“. De qualquer forma, esse passado continuava a parecer-me distante. Continuava a encará-lo, portanto, como apenas passado. História.
Por volta da mesma idade, comecei a perceber que a minha avó mudava de canal quando apareciam, na televisão, cenários de guerra ou crianças em sofrimento. Perguntava-lhe porquê, e explicava-me, sempre, que o meu avô não podia ver imagens explícitas de violência e ferimentos, devido à sua experiência traumática na Guerra do Ultramar.
A indisposição que sentia, nas aulas de História, e ao ler os livros que a minha tia me oferecera, deixou de estar acompanhado por uma sensação de “realidade distante”. O sofrimento que lia nos livros estava, afinal, ao meu lado. As letras impressas no papel transcendiam, afinal, até à minha família. Estava no coração, na pele, e na memória dos meus avós.
Cresci e comecei a estar mais atenta aos seus testemunhos, durante a ditadura. O meu avô tinha 18 anos quando foi para a guerra e viu um dos seus melhores amigos morrer, cruelmente, à sua frente. Desde então, nunca mais foi o mesmo. Os seus testemunhos, que por vezes partilha, ainda hoje, quando menos estamos à espera, são sempre vagos e parecem carecer de pormenores, ou tempo para serem explorados. Na verdade, não falta tempo. Falta a natural capacidade de lidar com as explícitas memórias sem sentir a tal indisposição.
Ainda que o seu coração guarde muita dor, e que a sua história tenha sido reescrita a a partir essa experiência, sempre com marcas de tinta permanente impossíveis de apagar, o meu avô não a consegue expressar essa angústia, através de palavras. Expressa-a através da linguagem corporal, das reações que tem a certos estímulos, e de um olhar onde, se mergulharmos profundamente, se encontram as “marcas de guerra” e as marcas do Antigo Regime, que encaixotou os sonhos de um jovem rapaz, com a vida toda pela frente.
Foi a partir destas partilhas, leituras e vivências que percebi que os 3 assuntos que mais captavam a minha atenção nas aulas têm, na realidade, muito em comum uns com os outros mas, acima de tudo, muito em comum com o presente. E se não ouvirmos a história de quem a teve de escrever condicionado por regras severas e mudanças, de quem não teve a liberdade de a escrever, o passado passará a, lentamente, difundir-se com a nossa realidade.
A verdade é que, a cada dia que passa, a cada livro que leio e a cada conversa que tenho com o meu avô, percebo que caminhamos para lá.
Os tempos injustos para a Humanidade e os regimes opressivos não são apenas registos de dor. São também uma razão para honrar a liberdade que, até agora, a nossa história tem tido. São o incentivo à luta, para quando for preciso, lutarmos por ela.
O 25 de Abril não apagou nada do que se passou, mas garantiu que não teríamos de viver o mesmo que os livros e os corações dos nossos antepassados guardam.
A mim, trouxe-me o direito de aprender nas aulas de História, de ler os livros que a minha tia me deu, de falar com os meus avós, e escrever, hoje, sobre isso.
Foi o 25 de abril que me deu a oportunidade de escrever a minha história, com as cores e materiais que mais me fizerem sentido. A carvão ou a caneta, e com uma borracha para alterar as opiniões que, outrora, me faziam sentido. Sem tinta permanente que defina até onde posso ir.
Cabe-nos honrar esta liberdade. Cabe-nos olhar para a História que nos trouxe até aqui, e lembrar que ainda após a Inquisição, surgiu o Holocausto. Que até após o Holocausto, se deu o Antigo Regime. Mesmo após o 25 de abril, um regime opressivo pode voltar a sugir, se não valorizarmos o poder de escrever a nossa própria história.
Hoje, é dia de celebrar a vida com todas as cores que pode ter.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: El Confidencial
Escrito por: Cristina Barradas
Editado por: Margarida Simões


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