Há naufrágio para lá dos barcos

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Para os meus avôs: Tomé e João, que voltando me contaram a história; e para os que não voltando, são e serão sempre parte dela.

Os barcos pousando no cais
Não servem à faina, nem ao lazer
Levam filhos desmembrados dos pais
Rumam ao trauma sem o saber


Vira crente o que chega ateu
Na inquietude do combate
Armas em frente, olhos no céu
Que deus me ajude, que ninguém me mate


Molda-se rápido a noção de tempo
Passam-se os meses, passa-se o ano
Foram forçados a um juramento
O de cruzar duas vezes o oceano


Mas os que não voltam, quem os chora
Se há que seguir com o que não se atrasa?
Os que ficam, rezam pela hora
De poder partir, voltar para casa


Chegada a noite, depois do mando
Escrevem cartas de amor contido
Para as mães, uma vez no cais gritando
Filho não partas, fica comigo


Mas há um ir urgente em clamar os povos
Sob a guarida do passado glório
Então lá vão bandos de miúdos novos
Sacrificar a vida por território


Estar no confronto é viver de imediato
E fazer da vala uma trincheira
Um soldado ferido caiu no mato
Viu passar na bala sua vida inteira


Acorrem soldados, salvando à pressa
Um parceiro das terras sem liberdade
Era um amigo, que coisa perversa
A de encontrar na guerra intimidade


Comandante venha, apresse o passo
Que este naufraga dentro do corpo
O comandante foi, pegou-lhe no braço
E disse, este que sangra já está morto


O amor que um dia os soldados tinham
Não mais se aplica nesta terra
De dia eles lutam, mas de noite sonham
Que libertem África, e acabem com a guerra

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: SAPO

Escrito por: Rodrigo Caeiro

Editado por: Margarida Simões

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