Cresci num campo qualquer, onde nada parecia ter pressa. Os dias eram iguais. O sol vinha, ia e o vento passava por nós sem nos perguntar nada. Eu não pensava, não haviam motivos para pensar. Era só uma flor.
Até que um dia deixei de o ser.
Arrancaram-me da terra e, pela primeira vez, senti o mundo a acontecer depressa demais. Mãos, vozes, passos que não paravam. Havia um ruído estranho no ar, como se tudo estivesse prestes a partir, mas ninguém fugia. Pelo contrário, aproximavam-se.
Não entendi.
Fui levado por ruas que não conhecia, entre pessoas que falavam alto e baixo ao mesmo tempo, que tremiam sem frio e suavam sem calor. Algumas sorriam como quem descobre algo novo. Outras tinham os olhos molhados, como se estivessem a perder alguma coisa.
E eu, no meio de tudo isto, continuava sem saber o que estava a acontecer.
Colocaram-me na boca do cano de uma espingarda. Pareceu-me um lugar errado para uma flor. Demasiado duro, demasiado frio. Esperei o pior, mesmo sem saber o que isso era.
Mas nada aconteceu.
A arma não falou.
As pessoas olhavam para mim como se eu tivesse feito alguma coisa. Como se eu tivesse escolhido aquele lugar e soubesse o impacto que estava a ter.
Mas eu não sabia. Eu só estava.
No entanto, naquele momento, fui mais do que alguma vez tinha sido.
Senti mãos a tocarem-me com cuidado, como se eu fosse frágil mas necessário. Sem entender porquê, senti que estar ali importava. Que, naquele instante, eu não era apenas uma flor.
–
Agora, estou seco.
Guardaram-me dentro de um livro que já poucas vezes é aberto. O vermelho começou a apagar-se, como se também ele tivesse aprendido a esconder-se. O meu corpo já não pesa, já não ocupa. Sou quase ausência.
Às vezes caio quando alguém o folheia. Ninguém repara.
Mas eu lembro-me de tudo.
Lembro-me das mãos. Do cuidado. Da pressa. Lembro-me de um dia em que o mundo parecia maior do que o medo.
Hoje, o tempo é outro. Fala-se de liberdade como se fosse certa. Como se não precisasse de ser segurada com as duas mãos
Eu não entendo palavras. Nunca as entendi.
Mas sei reconhecer o toque.
E há muito tempo que ninguém me segura como naquele dia de abril.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Imagem de capa: Pinterest
Escrito por: Rita Luís
Editado por: Margarida Simões


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