“Inventámos a democracia ali”, Cecília Cunha em Há sempre alguém que diz não

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“Resistência”. É assim que Cecília Cunha resume uma vida atravessada por dois tempos. O antes e o depois da Revolução dos Cravos. Entre ambos, uma linha profunda separa o medo da palavra e o direito de a dizer.

Cecília Cunha foi aluna do Liceu Camões nos últimos anos do Estado Novo. Tinha consciência política antes da revolução. Era algo raro, mas não impossível, numa geração que cresceu entre discos proibidos, livros censurados e uma cultura jovem importada dos anos 60. “Nós já tínhamos uma visão crítica”, recorda. Todavia, essa visão vivia cercada.

A escola era um reflexo fiel do regime. Mais do que regras, havia vigilância. O comprimento da bata, a proibição das calças, o impedimento de circular, livremente, pelos espaços. Tudo era controlado. “Era um sistema de clausura”, descreve. Até os pátios, raros lugares de fuga, eram supervisionados. A relação com os professores não era de proximidade, mas de obediência. Acima de tudo, havia medo.

Medo que não terminava à porta da escola. Em casa, as opiniões eram sussurradas. A rádio ouvia-se em segredo. Havia sempre alguém de quem desconfiar, um possível informador da PIDE. “Nem na família mais alargada era conveniente expressar opinião”, diz. A liberdade, antes de 1974, era uma prática clandestina.

Ainda assim, resistia-se. Entre colegas, formavam-se pequenos núcleos de afinidade política. Escreviam-se frases proibidas, trocavam-se panfletos e organizavam-se debates informais. Cecília preparava-se para entrar num movimento estudantil clandestino, o MAES, quando o país mudou de repente.

Na madrugada de 25 de abril de 1974, a notícia chegou por telefone. Tropas na rua, movimento em marcha. A ordem era clara, ficar em casa. Contudo, o país inteiro parecia acordado. “Havia relatos em direto, chorávamos, tínhamos medo”. A libertação não foi imediata nem linear. Nas primeiras horas, a dúvida persistia… seria mesmo o fim do regime?

A resposta chegou nos dias seguintes e, sobretudo, nas ruas. Cecília saiu, viu e sentiu. Dias depois, voltou ao liceu para testemunhar algo simples e revolucionário. Eram rapazes e raparigas juntos, pela primeira vez, no mesmo espaço. “A nossa celebração foi podermos estar todos juntos”.

Seguiu-se um processo caótico, mas profundamente criativo. Assembleias improvisadas, debates e decisões coletivas. “Inventámos a democracia ali”, afirma. Contra a narrativa de desordem, Cecília Cunha defende que aqueles foram tempos de aprendizagem política intensa, vivida no concreto e no quotidiano.

A cultura acompanhava essa transformação. Discos de Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco circulavam entre jovens que já conheciam a censura e a auto-censura. Canções que diziam sem dizer, que denunciavam sem poder nomear. “Mesmo quando proibidos, tinham de se autocensurar”.

Com o tempo, Cecília Cunha regressaria ao mesmo liceu, desta vez como professora. O passado nunca ficou para trás. Influenciou a forma como ensinava, como se relacionava com os alunos e como entendia a escola. Mais do que transmitir matéria, sentia uma responsabilidade de partilhar uma experiência de transformação.

Hoje, 52 anos depois, a liberdade não é uma conquista garantida. A professora não romantiza o presente. Pelo contrário, alerta para sinais inquietantes. “Há ambientes onde temos medo de falar”, confessa, recordando episódios recentes de agressão verbal e intimidação. A liberdade de expressão, que parecia consolidada, revela fragilidades.

A memória, por isso, torna-se essencial. Não como celebração vazia, mas como exercício crítico. O 25 de Abril não é apenas passado, é um processo em curso.

Talvez seja essa a terceira palavra que faltava, não um fim, mas uma continuidade. Como mostra a trajetória de Cecília Cunha, a liberdade não se herda, aprende-se e, sobretudo, defende-se.

Mais do que um testemunho isolado, este é um dos retratos que compõem esta rúbrica sobre memória.

Fonte da imagem de capa: Própria

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Cristina Barradas

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