Limiares III: S/e/r/mos

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Somos seres de percepções. Vivemos nos prédios emprestados pelos que vieram antes que nós. Amamos nos cantos em que eles discutiram. Confiamos nos pares para partilharmos as nossas histórias. Asseguramos os cimentos para o amanhã que aguardam. Mas as pazes se esgotam e as notícias e vieses preenchem os espaços que as mãos seguraram. Então, o buraco pelo qual comunicamos é o único jeito para sabermos que jamais estivemos acordados. Falar é uma renúncia do poder. Porém, fazer a escolha de não calar, o derradeiro esgarçar da ousadia.

As crenças feneceram. Quando ligar os ecrãs é desencorajador, vivemos à procura de certezas. Aqui não estou em perigo, nunca vou deixar de estar acompanhado, tenho comida para levar à boca, sou consciente da minha contorna. O grupo não falha quando os líderes o fazem. Um irónico modo de viver. Não é fazível falar de concordância quando o que ouvimos e gostamos já foi dado com a mesma ligeireza que os cromossomas ao nascer. 

Somos o que somos, ou o que a vida constringiu a aceitarmos? A identidade social desapareceu dos dicionários. Está nos algoritmos. Conversar é matemática, enquanto existir, política. A vida não é anelo, é código binário. Somente se constroem 0 e 1 impedidos de aperceber-se de que também são 2 e 3. As “bolhas” de pensamento mataram as ambições. O importante seria compreender que se é mais do que o grupo, do que o local que moldou o percurso; é-se todos os números racionais, embora de um modo inconsciente. Aprender é recordar o que nunca se soube que foi conhecido. 

Um dia, alguém teve a boa fortuna de ler. Carvalho Calero afirmou que as “línguas e as naçons nom som unidades naturais, senom culturais sujeitas aos ritmos e fluências da história que (…) trastocam as realidades que conduzem”. O humano que caçou, na altura, tornou-se passivo. É mais fácil viver alienado quando a conformidade da opinião popular, quer da comunidade, quer do meio, é o principal enquadre. O povo “considera próprias as formas alheias, e estranha como alheias as próprias quando se lhe proponhem”.

Os humanos também já não falam. Valorizar o que os pares esperam que seja valorizado colocou as próprias noções no abismo. Neste código, a matemática falha: os números despem-se do cálculo e tentam agir como o que não são. Veem-se na potestade de traduzir os esquemas alheios; colocá-los nas fachadas dos seus próprios prédios como méritos pessoais. Nesse ínterim, os envolvidos pretendem não ter reparado e sorriem. Na mesma, o bairro seguirá a ser bonito.

Portanto, seria atrevido afirmar afeiçoar-se ao espaço físico. Porque ele, o que é que seria se estiver vazio? Não é, pois, um espaço de convívio tão simbólico como os jogos das crianças? No fim, somos uma aplicação binária infinita ou, para os valentes inclusivos, pessoas. Isto não é sobre confins ou alteridades. Senão daqueles pelos que mais proximidade sentimos. Neles, e o que têm para nos ensinar, estão as fronteiras desse espaço que, desde a coloquialidade de uma conversa no bar, asseveramos amar.

Isso foi o que me sentou hoje a escrever, como se fosse a primeira pessoa que o faz. Como se, a comunicar, simplesmente definíssemos e não estivéssemos a pedir licença por fazê-lo. Algum dia, quiçá, deixar-se-ão de “rejeitar como artificiosas as formas restauradas” e voltaremos a não ser a faixa torta do algoritmo.

Nunca se falou de números. 

Tampouco de palavras.

Só de s/e/r/mos.

Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Imagem de capa: “Dizem que não há rias mais bonitas do que as nossas. Mas já não têm peixes.” Fonte: Colección de Arte ABANCA (editada)

Escrito por: Reyes S. Sacramento

Editado por: Rodrigo Caeiro

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