E quantos pastéis de nata é que vamos ter de vender?

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Portugal brilha como postal para turistas, mas esconde fragilidades. Cidades perfeitas para visitantes contrastam com salários baixos e habitação cara para quem vive aqui. Tiago Oliveira, da CGTP-IN, avisou no Dia Mundial da Segurança Social: uma economia de pastéis de nata não compra comboios.

No dia 8 de maio, em contexto do Dia Mundial da Segurança Social, o secretário-geral da CGTP-IN, perante questões levantadas pela imprensa, encaminhou o seu discurso para a baixa produtividade nacional, apontando-a como resultado das políticas públicas adotadas ao longo dos anos. Segundo Tiago Oliveira, as vulnerabilidades do país tornam-se evidentes num modelo assente em baixos salários e em fases do processo produtivo com fraca incorporação de conhecimento científico e tecnológico e baixo valor acrescentado.

É ainda referida a dependência económica excessiva no setor do turismo e da hotelaria: “E quantos pastéis de nata é que vamos ter de vender para comprar comboios à Suíça, ou à Espanha ou à Alemanha?”, questiona, recordando também a empresa nacionalizada de comboios, a Sorefame. Como solução, defende que Portugal deve diversificar a atividade produtiva e as relações económicas, substituindo importações por produção nacional de bens estratégicos, com vista à valorização dos trabalhadores e à melhoria das suas condições de vida.

Fonte: Arquivos RTP

O setor turístico e hoteleiro baseia-se em trabalho precário e num modelo de baixos salários, em contraponto com o aumento da acumulação e centralização da riqueza em grandes grupos económicos, como o Grupo Pestana, o Grupo Vila Galé ou o Grupo Tivoli/Minor. Açores e Algarve constituem casos concretos deste fenómeno, assim como Lisboa, onde se observa uma crescente elitização associada à pressão turística e à transformação do espaço urbano.

Neste contexto, não é suficiente falar de crescimento económico quando a riqueza gerada não é distribuída de forma equitativa e justa. A subordinação da economia a setores específicos, como o turismo, coloca o país numa condição de maior vulnerabilidade económica, sobretudo face à dependência externa e à instabilidade da procura internacional.

Fonte: SIC Notícias

Mais do que uma questão económica, esta realidade já se reflete na forma como o país se apresenta e é vivido. O constante vai e vem dos turistas não disfarça as dificuldades enfrentadas pelas populações locais, nem a falta de planeamento a longo prazo. A crescente “turistificação” tem vindo a transformar cidades e comunidades, pressionando o acesso à habitação e ao custo de vida, incluindo bens essenciais, como a alimentação.

A identidade cultural e o passado histórico destes espaços têm-se diluído em representações artificiais de interesse comercial. Criam-se cidades sem memória, que se tornam meras maquetes e acabam por colapsar, transformando-se em souvenirs. Capicua reflete esta realidade na canção “Souvenir”, do álbum “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”. A artista evidencia, ainda, como as políticas de substituição urbana que privilegiam a construção de espaços orientados para o turismo geram um sentimento de não pertencimento, bem como reações de recusa e reivindicação por parte dos moradores. A rapper demonstra também como até o fado se converteu numa simples atração turística oca, sem vínculo à identidade nacional. A marginalização da cultura, dos espaços e das comunidades reduz tudo a um souvenir de loja turística, sobretudo na ausência de políticas públicas sustentáveis e de uma produção nacional acompanhada por uma redistribuição justa da riqueza.

Esta lógica de país-vitrine estende-se também ao próprio mercado de trabalho. Fala-se ainda da ideia de que os portugueses não querem trabalhar. Mas, como referiu Tiago Oliveira, não é como se os portugueses tivessem um chip que muda a produtividade pessoal quando cruzam uma fronteira.

Em Portugal, os salários continuam baixos face ao custo de vida atual. Muitos vivem em modo sobrevivência. Trabalhar deixou de ser garantia de estabilidade económica. Alguns ficaram, outros emigraram para construir uma vida digna. O verdadeiro problema nunca foi o trabalhador comum, mas um modelo que se habituou a pagar o mínimo possível enquanto exige o máximo.

No âmago, o dirigente alerta para um país que não pode viver só de turismo. Cultura, espaços e pessoas não são souvenirs. É tempo de diversificar a produção, valorizar o trabalho e priorizar quem constrói o país. Continuaremos um expositor para visitantes ou uma nação soberana dos seus setores?

Este artigo é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de Capa: Crónicas Macaenses

Escrito por: Carolina Dinis

Editado por: Rodrigo Caeiro

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