“O Diabo Veste Prada 2”: Um regresso à medida do digital

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Em Nova Iorque, nada é como costumava ser. A prestigiada revista de moda Runway já não ocupa o papel, mas sim os ecrãs. As redes sociais e a inteligência artificial estão no centro de todas as atenções, enquanto a imprensa tradicional entra em declínio. Miranda Priestly, envolvida em polémicas, perdeu prestígio enquanto editora-chefe e, Andrea Sachs, após vinte anos de jornalismo, foi despedida do jornal onde trabalhava no dia em que recebeu um prémio de carreira. Diante do desafio de sobreviver às exigências da publicidade e ao imediatismo, os seus caminhos voltam a cruzar-se nesta sequela de O Diabo Veste Prada.

A peça audiovisual conta com o regresso do elenco original: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci. Com a sua “Runway Tour”, a digressão de antestreias já passou por países como os Estados Unidos, o México, o Japão e o Reino Unido. A 28 de abril, chega a Portugal com o visionamento de imprensa nos Cinemas NOS do Centro Comercial Colombo, contando na peça audiovisual com outras personalidades da moda e do cinema, como Donatella Versace e Simone Ashley —esta última a interpretar Amari, a nova ‘Emily’ de Miranda.

À semelhança do filme anterior, a sequela, realizada por David Frankel, apresenta o mundo editorial e as personagens principais —Miranda, Andrea e Emily— mas sob uma nova perspetiva visual: o vestuário deixa de ser apenas um conjunto de nomes de marcas, objetos de ostentação ou conteúdo para as revistas, para passar a refletir um capitalismo irremediavelmente tecnológico. Logo no início do filme, a falta de orçamento decorrente desta mudança torna-se evidente. É esta crise que deixa Andrea desempregada, a redação da Runway com pouco pessoal e as peças de coleção, outrora presenteadas, reduzidas a meros empréstimos.

A urgência em criar conteúdos apelativos apaga o êxito daquela que fora a fórmula infalível para “aquele trabalho pelo qual mil raparigas matariam”. Os conteúdos aprofundados e originais deixam de interessar quando a leitura na cadeira passa a ser feita, como Priestly bem sabia, na casa de banho. O novo mundo dos conteúdos virais não se resume a uma atenção fragmentada; a cancellation culture das redes sociais consegue prejudicar a editora-chefe mais famosa de Nova Iorque devido às más atitudes para com os seus empregados. A Runway, focada na elegância do discreto, precisa de se apoiar em horizontes passados enquanto tenta abraçar os novos. Sachs regressa como uma repórter mais madura, embora sem domínio dos novos formatos, para devolver à revista a credibilidade perdida. Ela testemunha a substituição do artístico pelo funcional: no setor, quem não tem cliques suficientes perde o direito de partilhar as suas ideias.

Emily Charlton, assistente de Miranda no primeiro filme, é agora executiva na Dior e namorada de Benji Barnes, um homem influente que detém nas mãos o destino da Elias-Clark, o grupo editorial matriz da Runway. Aquela que há 20 anos era apenas uma subordinada, passa agora a ditar o futuro da revista. Nestes jogos de poder entre o antigo braço-direito de Priestly e a própria editora-chefe, revela-se a dependência dos media face aos investimentos e parcerias para se sustentarem. A ética jornalística, tal como Andy acaba por perceber, parece não ter importância nos tempos que correm, sendo a IA um “futuro do qual não se pode fugir”.

Andrea Sachs em O Diabo Veste Prada 2 e 1. Fonte das imagens: Cinemas NOS e Vogue France

O Diabo Veste Prada 2 nasce de uma nova interpretação do mercado, especialmente da alta-costura: as pessoas já não querem objetos, querem experiências. Os influencers são agora a imagem da perfeição e o Ozempic a chave do cânone de beleza a atingir. O glamour converte-se em sinónimo de minimalismo e o luxo silencioso em aspiração. Nesta nova obra, as escolhas de vestuário da nova figurinista, Molly Rogers, assim o demonstram. Adeus aos acessórios e malas gigantes, aos monogramas extravagantes e aos estampados. Os tons frios e intemporais recuperam o protagonismo e o sucesso que tiveram no primeiro filme, mas com ainda mais força. O azul-marinho, os pretos e os cinzentos partilham o ecrã com padrões às riscas, axadrezados e lisos, que nada têm a ver com as rendas, as bolinhas e o animal print de 2006, embora estes últimos também surjam complementares no filme.

A tendência culmina com o espírito rebelde da Dolce & Gabbana na passerelle da coleção de primavera 2026, apresentada em Milão. Em tempos de discrição, a Runway reconcilia-se com a loud fashion e provoca uma reviravolta na moda atual. “O Diabo” que dá título ao filme é agora, sem dúvida, o próprio Diabo. Ao som dos ritmos Dark Pop de Lady Gaga, celebra-se a rejeição da singeleza que tinha inundado os feeds dos telemóveis: “Leva-me ao túmulo, porque encontrei Deus em forma de mulher”.

Novamente, as personagens, verdadeiramente circulares, completam a história da moda e da imprensa mundial. Evoluem, aceitam o que a selvajaria das novas comunicações tem para lhes dizer e, acima de tudo, reinventam-se. O Diabo Veste Prada 2 deixou de falar do que se tem para enfatizar a forma como se mostra. A revista que outrora enchia as gráficas reflete-se agora nas lojas de luxo vazias da Galleria Vittorio Emanuele II, pela qual Miranda Priestly agora caminha.

A saga deixou de definir apenas moda, para se tornar uma mensagem social sem precedentes no tempo das mudanças. Contudo, apesar das tecnologias, sempre prevalecerá a originalidade de sermos “humanos gloriosos e falíveis na nossa natureza”.

O Diabo Veste Prada 2

Direção: David Frankel. Intérpretes: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci. Género: comédia dramática. EUA, 2025. Duração: 115 minutos. Estreia: 29 de abril. 

Trailer de O Diabo Veste Prada 2

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados

Fonte da imagem de capa: Cinemas NOS

Escrito por: Reyes S. Sacramento

Editado por: Margarida Simões

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