É verdade que a moda sempre refletiu o momento em que vivemos: as mudanças sociais, as crises económicas e, com os sapatos de salto alto isso não seria diferente. Mas será que a altura dos saltos altos realmente indica se estamos a viver um momento de crise?
O High Heel Index (Índice de salto Alto), surgiu como uma forma divertida de encontrar um padrão entre a moda e a situação financeira global. A teoria defende que existe uma relação inversa entre o tamanho do salto e o estado da economia: à medida que os mercados financeiros declinam, a altura dos sapatos de salto alto sobem, e vice-versa. Ou seja, em períodos de crise económica, os saltos tornam-se mais altos e extravagantes, enquanto que em momentos de estabilidade e prosperidade os modelos mais baixos e minimalistas se sobresaem.
Este conceito foi popularizado em 2011 por Trevor Davis, economista e especialista em produtos de consumo da IBM, que observou que, “em recessões económicas os consumidores recorrem a modas mais extravagantes como meio de fantasia e fuga”.
Ao longo da história, está correlação parece ser evidente: Durante a Grande Depressão dos anos 30, os saltos altos e sapatos de plataforma ganharam popularidade, sendo assosiados a uma forma de fuga da dura realidade económica. Ainda nos anos 40, durante o período de guerra, esses mesmos sapatos continuaram a fazer sucesso. Da mesma forma, com a crise do petróleo nos anos 70, marcas como Salvatore Ferragamo lideraram a tendência com saltos de silhuetas exageradas, substituindo assim as sandálias clássicas de saltos baixos dos anos 60.

Já a crise financeira de 2008 exemplifica ainda mais o High Heel Index: stilettos altíssimos e arquitetónicos, dominaram as passarelas através de estilistas como Alexander McQueen, reforçando a ideia de que, em tempos de instabilidade a moda tende ao exagero.

Assim como o High Heel index, existem diversos indíces que buscam representar a mesma tendência entre a moda e a economia sob outras lentes. O Lipstick Index (Índice do batom), por exemplo, é a ideia de que em tempos de recessão, as mulheres compram menos artigos de luxo, mas continuam investindo em pequenos bens acessíveis como o batom. Também o Men’s Underwear Index (Índice da roupa interior masculina), que defende que os homens tendem a adiar a compra de roupa interior quando estão financeiramente pressionados, então a queda nas vendas de cuecas pode indicar recessão.
Afinal o que está por trás desses índices?
Esses índices revelam que o consumo, estética e o emocional estão conectados. As pessoas não consomem apenas objetos mas sim, significados psicológicos. Algo que se manifesta com muita força em momentos de crise e de transição social. Neste caso, o salto alto pode representar estatuto, poder, fantasia, sexualidade, entre outras coisas.
O consumo pode ser visto como uma compensação emocional, sendo assim, em situações de maior ansiedade e impotência existe uma busca por recompensa emocional imediata através de compras impulsivas. Visto que, em tempos de crise, as pessoas tendem a deixar de planear a longo prazo, as decisões tornam-se mais simbólicas e os itens supérfluos ganham importância, simbolizando uma mensagem interna de “eu ainda tenho valor”. Isso explica o consumo como uma construção de identidade performática e como sensação de controle.
Análise crítica e atualidade:
A maioria dos economistas considera o High Heel Index interessante culturalmente mas fraco estatísticamente. A moda funciona em ciclos próprios e as tendências tendem a retornar independente da conjuntura económica. Mesmo quando a recessão coincide com os saltos altos, isso não prova uma causa direta, pode ser apenas uma coincidência histórica. Ainda esses dados costumam ser difíceis de medir: qual seria a métrica correta? O mercado de luxo ou a fast fashion? O impacto regional, as passarelas ou o volume real de vendas?

Atualmente as incertezas económicas que surgiram a partir de 2020 foram respondidas de forma diferente. Ao invés de saltos altos, houve uma viragem rumo ao conforto e à praticidade. Essa mudança pode ser associada a fatores como o aumento do trabalho remoto, uma maior ênfase na saúde e bem-estar físico e uma resposta cultural parante aos desafios económicos que agora se revelam mais prolongados.
Embora o High Heel Index careça de validação científica rigorosa, a sua importância reside no diagnóstico social que oferece. Para além de prever curvas de inflação e quebras na bolsa, demonstra que o ser humano utiliza a estética como ferramenta de adaptação, controle e afirmação de indentidade. A moda continua sendo um reflexo dinâmico da sua época, com consumidores e estilistas que buscam passar pelo equilíbrio entre a realidade e o desejo.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: https://pin.it/7eB0CKOC6
A autora escreve em português do Brasil.
Escrito por: Letícia Figueiredo
Editado por: Rita Luís


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