Porquê estudar se posso beber Imperiais? (Not a pub)

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Nesta edição do  “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona confessa o seu comportamento mais bizarro até à data: a vontade súbita de estudar em pleno mês de julho. Enquanto os universitários normais fazem a fotossíntese e bebem Imperiais na praia, a cronista recorre à psicologia para tentar perceber porque é que aprender só sabe bem quando deixa de ser uma obrigação.


Chegámos a julho e eu, que devia estar a aproveitar as merecidas férias universitárias, deparei-me com um sintoma bizarro: o bichinho do estudo decidiu finalmente aparecer.
Sim, logo agora que o ano letivo terminou.
Podem internar-me pelo bem da ciência.

Em vez de estar na praia ou a beber copos como qualquer jovem normal nesta altura do ano, dou por mim em casa a devorar cursos online só porque a minha cabeça achou que eles eram “interessantes”.

Isto pode ser culpa da minha recente inscrição no LinkedIn, que me deixou altamente inspirada (ou ligeiramente pressionada) para ser uma boa profissional.
Ou talvez seja apenas a manifestação de uma crise existencial fofinha, onde tento descobrir o que quero fazer da vida sem entrar em pânico absoluto.

O que mais me intriga é a ironia da situação: durante o semestre, fazer um trabalho era um sacrifício, agora, abro um curso às três da tarde com a maior naturalidade do mundo.
Faz sentido?
Nenhum.
Por isso, decidi investigar.

Após uma pesquisa muito séria no Google, descobri que o meu cérebro não está avariado. Há explicações psicológicas, perfeitamente lógicas, para este surto de produtividade:

Teoria da Autodeterminação: Resumidamente, ficamos muito mais motivados quando sentimos que a escolha é nossa. Durante o semestre, o estudo vem acompanhado de prazos, avaliações, trabalhos de grupo e aquela culpa académica constante. Agora, em julho, ninguém me diz “isto vai sair no teste”. Estudo por pura autonomia.

Reactância Psicológica: É o termo científico para o famoso “agora que me obrigaste, já não quero”. Quando sentimos a nossa liberdade sob ameaça, tendemos a resistir. Eu passava o ano letivo a resistir às obrigações da faculdade e, agora que estou livre, resisto… estudando por iniciativa própria. Coerência acima de tudo.

O Sistema de Recompensa Imediata: Na faculdade, estudamos volumes absurdos de matéria para, talvez, ter uma nota daqui a um mês. Nos cursos online, o processo é limpo e eficaz: vês uns vídeos, fazes uns quizzes e recebes um certificado imediato. O cérebro adora este pico de dopamina rápida.

Não posso ignorar o impacto das redes profissionais.
Entrar no LinkedIn é como entrar numa montra de super-humanos cheios de cargos, competências e descrições perfeitas.
É impossível não olhar para aquilo e questionar: “E eu? O que é que sei fazer? O que quero ser?”.

No fundo, estes cursos de verão são a minha forma segura de experimentar futuros possíveis e descobrir do que realmente gosto.

Além disso, há um fator crucial: o fim do cansaço mental.
Durante o ano, estamos constantemente esgotados com deadlines, apresentações e mensagens intermináveis nos grupos de WhatsApp. Quando essa pressão desaparece nas férias, o cérebro finalmente respira e aprender volta a parecer um prazer, não um castigo.

A grande lição disto tudo é simples: eu gosto de aprender.
Só não gosto de sentir que a minha vida e o meu valor dependem de um PDF de 80 páginas intitulado “Leitura obrigatória”.
Agora estudo porque tenho curiosidade, porque quero perceber que áreas me interessam e, claro, para alimentar a minha personagem profissional com mais um certificado bonito.

Obviamente, não vou passar as férias todas trancada em casa como se quisesse ser a ministra da produtividade.
Também convém sair, fazer a fotossíntese por falta de vitamina D, ver gente e lembrar-me de que descansar não é falhar.

Mas, pela primeira vez, estudar não parece uma punição.
Parece uma escolha.

Vou abraçar esta fase: se isto me der jeito em setembro, ótimo; se não der, pelo menos passei o verão a alimentar a doce ilusão de que sou uma pessoa extremamente funcional.

E se me virem na esplanada a fingir que gosto de beber imperiais, ignorem.
Estou a fazer pelo bem da minha sanidade.


Fontes Consultadas (Webgrafia)

Ryan, R. M., & Deci, E. L.Self-Determination Theory.
Referência base para explicar como a nossa motivação e bem-estar disparam quando estudamos por autonomia e escolha própria, livre de pressões externas.

Steindl, C., Jonas, E., Sittenthaler, S., Traut-Mattausch, E., & Greenberg, J.Understanding Psychological Reactance. Disponível em: PMC.
Estudo que valida o famoso “agora que me obrigaste, já não quero”, ou seja, a nossa resistência natural quando sentimos a liberdade ameaçada por deadlines.

Steel, P.The Nature of Procrastination. Disponível em: PubMed.
Análise sobre como o nosso cérebro processa a motivação e prefere recompensas imediatas e claras, como os quizzes e certificados online, em vez de prazos longínquos.

Healy, M., Cochrane, S., Grant, P., & Basson, M.LinkedIn as a Pedagogical Tool for Careers and Employability Learning. Disponível em: Emerald.
Artigo que explora o impacto do LinkedIn na construção da identidade profissional e na urgência de adquirir novas competências.

Chong, L. Z., et al.Student Burnout: A Review on Factors Contributing to Burnout in Students. Disponível em: PMC.
Revisão científica sobre o esgotamento académico, que explica por que razão o cérebro precisa que a pressão desapareça para voltar a ver o estudo como um prazer.


Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Freepik

Escrito por: Rita Cardona

Editado por: Íngride Pais

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