Celebrar a Europa, pensar o mundo: Portugal 40 anos depois da adesão. 

Escrito por

Passados quarenta anos da formalização da adesão de Portugal às comunidades europeias, Portugal é, sem qualquer dúvida, um país diferente.

Um Portugal que, apesar de orgulhosamente só no passado, reivindica hoje o título de membro de pleno direito da então Comunidade Económica Europeia, agora União Europeia. A aposta no projeto europeu, um projeto moderno, voltado para o futuro, de paz e democracia, trouxe incontáveis benefícios a este pequeno país da periferia do continente europeu, que, historicamente, vem reivindicando, num jeito mais efusivo, o seu legado atlântico, condicionado pelas duras e permanentes realidades da geopolítica e da geografia.

Portugal é hoje, de facto, um país diferente e de múltiplas frentes. O Dia da Europa (9 de maio) e o Dia do Multilateralismo (24 de abril) mostraram precisamente isso. É um país que se adapta, que se molda aos ambientes que o rodeiam, e fá-lo de uma maneira tão natural, com tão pouco esforço, que não será errado presumir que lhe está no ADN. Pensar Portugal é pensar num país comprometido com a integração europeia, não só na sua esfera económica, como na política e cultural, mas também um país do mundo, cuja aptidão natural e histórica para criar pontes entre povos e culturas lhe agraciou com a melhor das vocações: a do multilateralismo e do consenso. Que mais países, especialmente nos tempos que correm, trilhem o caminho de Portugal.

A responsabilidade do país em matéria de política internacional é, por estas e outras razões, uma responsabilidade que poucos atores assumem no sistema internacional. O sucesso da União Europeia e da sua imagem perante os seus parceiros internacionais, nunca esteve tão dependente de Portugal como hoje. A proximidade cultural, identitária e linguística de Portugal à América Latina e a África, assim como a sua posição geográfica geoestratégica, são um dos, se não o maior, ativo da União Europeia na sua relação com estes dois continentes.

Neste sentido, celebrar os quarenta anos da adesão de Portugal às Comunidades Europeias é também reconhecer que a Europa precisa, hoje, de Portugal. Precisa da sua memória democrática, da sua experiência histórica de abertura ao mundo e da sua capacidade de compreender que a política internacional não se faz apenas de grandes potências, mas também de pontes, equilíbrios e espaços de confiança. Num momento em que o sistema internacional atravessa uma fase de incerteza, fragmentação e rivalidade, a vocação portuguesa para o diálogo ganha renovada importância.

Ainda assim, celebrar a Europa não pode significar ignorar os seus desafios. A União Europeia enfrenta hoje dilemas profundos, alguns deles ligados ao próprio modo como decide e age. A tensão entre eficácia e legitimidade tornou-se uma das grandes questões do nosso tempo europeu. A unanimidade, pensada para proteger a soberania dos Estados e garantir consensos sólidos, pode, em certas circunstâncias, transformar-se numa amarra à ação comum. Num mundo em que as crises se sucedem com rapidez, uma Europa demasiado lenta arrisca perder capacidade de resposta, influência e credibilidade.

Foi precisamente neste sentido que Carlos Coelho, Comissário para a Celebração dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha às Comunidades Europeias, alertou, no primeiro dia da Universidade Europa, para a necessidade de enfrentar estes bloqueios. A sua leitura é clara: os problemas da integração europeia não se resolverão com menos Europa, mas com um aprofundamento da integração. Isto não significa apagar a chamada Europa das Nações, mas antes reconhecer que esta terá, inevitavelmente, novos contornos no futuro. A Europa continuará a ser feita de Estados, histórias, línguas e identidades nacionais, mas só será verdadeiramente relevante se conseguir transformar essa diversidade numa força comum.

Este desafio torna-se ainda mais evidente quando se observa a forma como a Europa é vista a partir de outras regiões. O estudo da Friedrich Ebert Stiftung sobre as perceções latino-americanas da Europa e do mundo mostra uma América Latina atenta, inquieta e consciente da instabilidade internacional. As sociedades latino-americanas olham para o mundo com incerteza, preocupadas com guerras, pobreza, narcotráfico, alterações climáticas e fome, mas continuam a valorizar a cooperação internacional. Ao mesmo tempo, o estudo revela que a imagem da União Europeia já não pode ser dada como adquirida. A Europa continua a ser relevante, mas a sua presença parece hoje mais difusa, a sua liderança menos evidente e a sua força normativa menos incontestada.

É aqui que Portugal pode e deve desempenhar um papel particular. O Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado a 5 de maio, recorda-nos que a língua não é apenas património cultural: é também instrumento de presença internacional. A língua portuguesa liga continentes, aproxima sociedades e cria uma comunidade de circulação de ideias, pessoas, conhecimento e oportunidades. Para Portugal, esta é uma responsabilidade acrescida. Ser europeu não diminui a sua dimensão atlântica e lusófona; pelo contrário, dá-lhe maior alcance. Portugal pode ser uma das portas através das quais a Europa reencontra, com maior sensibilidade e eficácia, a América Latina, as Caraíbas e África.

Esta ideia esteve também presente no XV Encontro do Triângulo Estratégico, dedicado ao tema do multilateralismo e marcado pelo lema “Three Regions. One Agenda. From Dialogue to Delivery”. A mensagem é simples, mas exigente: já não basta afirmar a importância do diálogo; é necessário produzir resultados. Num tempo em que as instituições multilaterais enfrentam crises de desempenho, representação e legitimidade, espaços de convergência entre a América Latina e Caraíbas, a Europa e África tornam-se fundamentais. Não como alternativas à ordem internacional existente, mas como complementos capazes de desbloquear caminhos, aproximar prioridades e devolver utilidade prática à cooperação.

Quarenta anos depois, Portugal tem, portanto, razões para celebrar. A adesão europeia consolidou a democracia, modernizou o país e ampliou o seu lugar no mundo. Mas esta celebração deve ser também um exercício de responsabilidade. A Europa que Portugal encontrou em 1986 já não é a mesma, e o mundo para o qual essa Europa se projeta também mudou profundamente. A tarefa da nova geração será, por isso, dupla: preservar o melhor da integração europeia e, ao mesmo tempo, ajudar a reinventá-la.

Celebrar a Europa é, hoje, pensar o mundo. E pensar o mundo a partir de Portugal é reconhecer que a nossa dimensão nunca se mediu apenas pelo território, mas pela capacidade de ligar margens, construir consensos e transformar pertenças múltiplas numa vocação de futuro.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa

Escrito por: Afonso Vilan

Editado por: Leonor Oliveira

Deixe um comentário