Há quanto tempo não fazes alguma coisa só porque te apetece?
Não porque tinhas de fazer, porque já estava marcado ou porque “agora já fica mal cancelar”. Só porque sim, só porque querias.
Quando é que foi a última vez que pegaste nos lápis de cor que usavas todos os dias quando eras mais nova, te sentaste na mesa da sala a ouvir a tua música preferida e voltaste a pôr a imaginação a correr sem travões?
A resposta, para muita gente, não é imediata, ou quando é, não é positiva e isso por si só já diz mais do que devia.
A rotina não chega de rompante, não pergunta se pode entrar, não há um momento exato em que decidimos abdicar das saídas, das pausas, das viagens e das coisas que nos dão prazer. Bem pelo contrário, ela chega em silêncio, pé ante pé e instala-se devagar, quase sem darmos por isso. Um dia estamos cansados e adiamos um plano. No outro, já nem o marcamos e dizemos simplesmente que não nos apetece nesse dia. Depois, deixamos de considerar sequer essa hipótese. E quando damos por nós, aquilo que antes era natural, as saídas, as pessoas, fazer algo por gosto passa a ser exceção e fora da nossa linha de conforto diária.
E o mais curioso é que ninguém acha estranho.
Vivemos numa altura em que estar ocupado se tornou quase um distintivo de honra, como se quem tivesse mais dias preenchidos no calendário tivesse mais prestígio. Dizer “não tenho tempo” soa produtivo, responsável e até admirável, como se o cansaço constante fosse prova de que estamos a fazer tudo certo, de que cada pinga de suor está a valer apena. Mas no meio dessa correria, raramente se questiona o que ficou para trás.
E o que ficou para trás, muitas vezes, fomos nós.
O lazer passou a ser tratado como um luxo, algo que só acontece excepcionalmente, tal como aquele bolo que comemos no aniversário da nossa amiga há 1 ano.
Prometemos sempre a nós mesmos que para a semana nos vamos permitir viver, que vamos tirar “um tempinho” para aproveitar. Porém, quando damos por nós o tempo preenche-se sempre com o que é urgente, com o que é obrigatório, e aquilo que é opcional, mesmo que seja essencial para o nosso bem-estar, vai sendo empurrado para segundo plano.
Não é que tenhamos deixado de gostar dessas coisas. É só que nos habituámos a não as ter.
E um pequeno detalhe desconfortável, não foi alguém que nos proibiu de usufruir da parte mais divertida da nossa vida. Não houve uma regra que ditasse a que saídas nos podemos permitir ou não ir. Fomos nós, aos poucos, a aceitar essa troca, a normalizar os dias todos iguais, com 6 horas de sono, 3h nos transportes públicos, 8h sentados na secretaria, 2h para refeições e por fim, 1h para vermos a nossa série preferida na televisão…quer dizer, se calhar é melhor irmos dormir cedo para ver se dormimos mais do que 6 horas hoje.
E assim se substitui a vontade por hábito e a estabilidade com repetição constante.
Mas há uma parte desta conversa que costuma ser convenientemente ignorada.
Infelizmente, nem tudo se resume a escolhas individuais.
É fácil cair no discurso de que “é uma questão de prioridades”, de que basta organizar melhor o tempo, acordar mais cedo, desligar mais cedo, querer estar mais presente. Mas essa ideia parte de um pressuposto confortável, o de que temos, de facto, margem para escolher.
E nem sempre temos…
A verdade é que existe uma estrutura que condiciona tudo isto. Um modelo de vida em que trabalhar a tempo inteiro não é uma opção nem uma escolha, mas é o mínimo exigido para garantir alguma estabilidade durante os 12 meses do ano. Renda, contas, transportes, comida, tudo aquilo que nos parece básico e, mesmo assim, muitas vezes, conseguimos ter isso tudo mesmo no limite.
Neste contexto, o tempo deixa de ser apenas escasso, passa a ser controlado.
Os dias organizam-se em função do trabalho e o resto encaixa-se onde der e se der. O lazer não desaparece por falta de vontade, mas porque não consegue competir com aquilo que é necessário para sobreviver. E quando chega o fim-de-semana, aquele espaço que teoricamente seria “nosso”, já não vem com energia incluída, vem com o cansaço de 5 dias acumulado.
Por isso, muitas vezes, não fazemos nada, não porque não queremos viver, sair, estar, experimentar, mas porque estamos simplesmente exaustos. E descansar torna-se a única prioridade possível. O fim-de-semana deixa de ser tempo de lazer e passa a ser tempo de recuperação, quase como uma mini pausa para aguentar mais uma semana igual e repetitiva.
E assim se fecha o ciclo.
Trabalha-se para viver, mas vive-se cada vez menos fora do trabalho. Talvez devêssemos pedir ao sistema mais tempo para viver e não para sobreviver.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem da Capa: Pinterest
Escrito por: Sofia Maria
Editado por: Leonor Oliveira


Deixe um comentário