O que a energia não pôde cancelar: um ano do apagão

Escrito por

Eram 12h30 quando se sentiram os últimos suspiros de normalidade no bairro de Hispanoamérica, em Madrid. A calidez matinal convidava ao passeio de adultos e jovens. Muitos acudiam com pressa aos seus compromissos e outros relaxavam, conversando com comida e uma cerveja na mão durante essa faixa horária em que o frenesim dos escolares recém-chegados não era o protagonista. No entanto, apesar do clima de aparente normalidade que ainda se percebia, os semáforos estavam fora de serviço e as cores tinham sido trocadas por olhares entre peões e condutores.

Ao cabo de vinte minutos, começaram a gerar-se as primeiras filas para o autocarro ante o desconforto de alguns transeuntes e, em questão de meia hora, os supermercados já se encontravam transbordados, metafórica e literalmente. Esperas que se faziam intermináveis, aspiradores para a água dos congeladores e prateleiras na penumbra eram o máximo que alcançava a ver a gente que esperava a sua vez para comprar com o carrinho cheio. Ainda assim, nem todos tinham a mesma sorte. Outros chegavam à caixa, mas saíam de mãos vazias: o fornecimento elétrico tinha caído e não dispunham de numerário para realizar as suas compras.

«Não sei o que vou fazer, vivo sozinha e tenho solução apenas para um par de refeições», afirmava consternada uma jovem à saída do comércio. Deste modo, o meio de subsistência e produto pelas horas trabalhadas tinha-se reduzido para muitos a um simples número numa conta com o mesmo valor que um seixo atirado ao chão. Mais de quatro séculos de fidúcia resumidos nessa primeira hora de crise porque, afinal de contas, o dinheiro jamais foi mais do que aquilo que se esteve disposto a dar por ele.

Nas ruas, os comércios começaram a fechar perante a falta de meios para continuar a operar; inclusive algumas multinacionais seguraram os estabelecimentos com meios rudimentares, como cordas, ao caírem os sistemas de segurança, e todas as entradas de metro foram seladas. Os trabalhadores dividiram-se entre os que regressavam às suas casas de autocarro, sem quase capacidade para mais pessoas; de carro, com engarrafamentos eternos nas ruas, embora bem regulados pelas autoridades de trânsito; ou a pé, entupindo os passeios, que poucas vezes tinham estado tão transitados.

«Vim desde (o bairro de) Vicálvaro. Levo duas horas a caminhar. Está a ser difícil porque me dão muitas indicações erradas, mas pelo menos já vou na direção correta», relata uma estudante. Ao tumulto na capital somou-se a incerteza social motivada pelo contexto geopolítico convulso dos últimos meses. Um ciberataque contra a União Europeia, interesses políticos ocultos e até países africanos afetados foram algumas das teorias mais difundidas. Os poucos que tinham rádio levaram-no para a rua ou puseram-no no volume máximo nos seus veículos para que todo aquele que quisesse o pudesse ouvir; bastava avançar poucos metros para encontrar grupos grandes atentos às novidades em torno de um carro.

Não só os trabalhadores saíram à rua, mas também corredores, procurando amenizar a espera, gente a pedir boleia, pais que vinham recolher os seus filhos e um ambiente generalizado de queixa. «Os comboios não funcionam e tinha de voltar […]», comentava um homem com os seus companheiros em frente à porta do local onde tinha estado a trabalhar.

A partir das 19h00, algumas zonas recuperaram, segundo afirma a entidade de gestão espanhola, Red Eléctrica, a ligação em certas áreas. No entanto, ainda restava grande parte do território na sombra. Conforme as horas de sol terminavam, nas maiores zonas residenciais a gente começou a agrupar-se dentro dos seus respetivos complexos e as ruas, sem um ápice de luz, esvaziaram-se. Os poucos que decidiram sair para ver a situação no bairro foram iluminados com lanternas e vitoriados por vizinhos das suas janelas.

Porém, embora houvesse escuridão e incógnitas, o ambiente não era desolador. A concórdia entre as poucas pessoas que confluíam nos passeios e os ânimos impediram que a noite decaísse. Com ela, foi regressando a luz a alguns candeeiros. Às 21h50 aproximadamente, o Santiago Bernabéu recuperou o seu fulgor habitual e, pouco mais de meia hora depois, já se tinham restabelecido — ainda com carências— as linhas telefónicas em Chamartín, embora noutras localidades menores a inatividade se tenha estendido até à madrugada.

Por volta das 23h00, a luz regressou por completo perante vivas nos bairros que tinham perdido as esperanças após 10 horas de colapso. Já com os telejornais ligados, descobriu-se que o apagão tinha afetado unicamente Espanha, Portugal e, em menor medida, regiões francesas limítrofes como Perpinhã. Também se tinha travado a atividade para lá das telecomunicações, transporte e comércio em setores como o automobilístico e petroquímico, além de se suspender a assistência médica não essencial e a atividade educativa para o dia de hoje.

A recuperação foi lenta, mas impulsionada por países como França e Marrocos com ciclos de gás e centrais hidroelétricas, conseguindo que se restabelecesse a ligação em 50% ao final do dia. Os prejuízos no seu conjunto não foram graves: o serviço sanitário funcionou apropriadamente graças aos geradores, a atividade aérea paralisou-se em menos de uma sexta parte e o mercado bolsista fechou sem perdas. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, apelou à tranquilidade cidadã e aceitou proporcionar ajuda às comunidades que solicitaram ao Governo central o nível 3 de emergência de proteção civil.

Descarta-se que o motivo do colapso energético tenha sido consequência de um ciberataque, embora continue a ser investigado pela Audiência Nacional. Na sua terceira comparência, o primeiro-ministro aponta como potenciais culpados as empresas privadas sob a premissa de que «Isto não pode voltar a acontecer jamais».

Tanto lusos como espanhóis continuam a adaptar-se novamente a uma rotina que se vai encaminhando pouco a pouco, embora ainda haja serviços como o ferroviário sem atividade, mas se há algo seguro é que ninguém esquecerá a perda de 60% da atividade elétrica de 15 gigawatts em cinco segundos. Cinco segundos que tornaram patente a dependência dos mercados e Estados contemporâneos de uma rede energética que há tantos séculos era prescindível. Que recordaram que, em questão de um piscar de olhos, pode desaparecer tudo o que se presume ter. Que trouxeram à luz as dúvidas, o medo, a valentia e a solidariedade de um povo unido por uma cegueira comunicacional incapaz de paralisar a vontade de seguir em frente com o que se tem posto. Porque a luz e a energia não são apenas o que o dinheiro pode mensurar.

Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: IA

Descrição da imagem de capa: Cinco jovens em Madrid observando um agente a dirigir o trânsito.

Escrito por: Reyes S. Sacramento

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

Deixe um comentário