No tempo da minha avó 

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No tempo da minha avó 
A garganta dava um nó 
Com as ruas desertas e o povo só
Perdido num silêncio que falava por nós

Onde “Deus, Pátria e Família” eram mais do que palavras 
Havia alguém maior que achava que nos calava 
Com a PIDE que até o silêncio escutava 
E a liberdade que pouco, a pouco se apagava

Onde só um partido mandava e a censura se instalava
Víamos lá ao longe uma guerra que se arrastava
Em terras que para uns eram destino, para outros casa
Mas onde a perda, no fim, a todos alcançava

Aos poucos o coração apertava 
Dando lugar a várias noitadas 
Onde os pensamentos se instalavam 
E em silêncio caminhos novos se traçavam

Por baixo dos cobertores do medo
Uma força espreitava em segredo
E pelas ruas surgia um gesto contido, sereno e decidido
“E depois do adeus”, acordava o ar adormecido

Nos canos das armas florescia um novo começo
E num sopro distante corria um novo enredo
Um novo povo, com coragem e sem medo
E abria-se um país assim livre do degredo

Neste novo ar renascido
O silêncio antigo ficava esquecido
E o peso dos anos dava-se como vencido
Enquanto deixávamos o braço erguido

As portas das casas, desta vez abertas 
Ecoavam vozes mais do que despertas 
Enquanto na rua cresciam as cores certas 
E o vento dançava, rompendo memórias encobertas

No tempo da minha avó 
Pesava em nós a voz 
E hoje ainda há quem pinte esse tempo com cor e sem medo
Mas quem é que pode ter saudade do degredo?

Fonte da Imagem de Capa: Pinterest

Escrito por: Sofia Maria

Editado por: Íngride Pais

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