Armas, Fado e Liberdade

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Entre a contenção e o grito da revolução portuguesa de 1974, este artigo coloca em perspetiva a presença subversiva da maior fadista portuguesa, Amália Rodrigues, nos processos revolucionários. Voz capaz de insinuar nas entrelinhas, a sensibilidade que escapava à rigidez da ditadura. Uma das personalidades da cultura portuguesa que ecoou a liberdade que o povo chamou a si. Assim como Ermelinda Duarte dizia à data, “Somos livres” para educar as crianças portuguesas e do mundo, dotá-las de responsabilidade para que se olhem, se assumam e para que cresçam e sejam. Valores que inesperadamente contrastaram com o clima internacional à época. 

Para a celebração dos 52 anos do 25 de Abril, o Jornal de Ciência Política Consensus, na pessoa de Henrique Pedro Marques, a Revista Científica de Relações Internacionais  Pacta, na pessoa de Rodrigo Lousa, e o Jornal Académico do ISCSP desacordo, na pessoa de Margarida Cabral, reúnem as suas escritas num texto só, guiado pelo véu cultural português da Revolução dos Cravos e da sua ressonância pelo mundo. 

O golpe de Estado de abril de 1974 foi uma surpresa para o mundo. Em plena Guerra Fria, e depois de várias interferências militares na vida política (sobretudo na América Latina, onde, sete meses antes, o presidente eleito chileno, Salvador Allende, foi derrubado pelo chefe das forças armadas), o 25 de abril foi também uma revolução no status quo do Sistema Internacional. Poucos, no exterior, esperavam que um regime aparentemente forte, que durava há 43 anos, fosse cair pelas mãos de capitães, e não por altas patentes, contrariando assim o padrão das intervenções militares anteriores.   

A relativa pacificidade do golpe foi também um fator de choque. Uma distinção face às ruturas violentas que marcavam outros cenários internacionais. A imprensa internacional apelidou a revolução como “cavalheiresca” ou até “asseada” como no artigo escrito por Kenneth Maxwell. Neste artigo, o autor britânico, que esteve em Portugal antes e depois do golpe, refere que quem o contactava para saber o que se passava no país ficava surpreso ao saber que o golpe estava a ser feito por militares que defendiam a consagração das liberdades fundamentais, a realização de eleições por sufrágio universal direto e secreto, a amnistia imediata dos prisioneiros políticos, a constituição de um governo civil e o reconhecimento de que a solução das guerras no ultramar era política e não militar.    

A imagem de uma revolução conduzida por militares de baixa patente, acompanhada por uma forte participação popular e marcada por símbolos como os cravos, rapidamente ganhou projeção internacional. Este cenário contribuiu para a construção de uma narrativa de mudança associada à liberdade, que influenciou não apenas a perceção de Portugal, mas também a forma como outros processos de transição política passaram a ser interpretados.   

Apesar de a revolução ter criado uma onda de otimismo na comunidade internacional, a verdade é que os interesses das superpotências e dos seus blocos entraram logo em cena. A incerteza sobre para que lado é que Portugal iria cair, criou um braço de ferro através de influências e operações, que rapidamente manchou a imagem “asseada” da revolução. Ainda assim, a revolução não deixou de ser um momento de esperança, onde um regime ultraconservador, isolado e autoritário foi derrubado para abrir caminho à liberdade.   

Deste modo, o 25 de abril afirmou-se não apenas como um momento de transformação interna, mas como um acontecimento com repercussões políticas e culturais à escala internacional. Alguns autores até consideraram o 25 de abril como o início de uma nova vaga de democratização.  A revolução portuguesa passou a ser vista como um caso singular de mudança de regime, projetando uma imagem de transição que contrastava com a instabilidade e a violência que caracterizavam grande parte do sistema internacional na época.  

Rodrigo Lousa 

Era 1956, na pequena Lisboa, que fazia do restante país mais pequeno ainda, onde a icónica Amália, pináculo do fado vadio recebe o convite para a sua primeira atuação no Paris Olympia. Quem diria que aquela rapariga pobre, nascida e criada nos bairros da cidade, acabaria por cantar nos maiores palcos de Paris? 

A Amália não nasceu numa família rica, não conhecia os costumes das elites e não sabia mais do mundo do que aqueles bairros que a rodeavam. Foi em Alfama que conheceu o seu apanágio, o fado.  

Nestes bairros pobres, o fado tomava uma expressão diferente daquela do contemporâneo. Era crude, rouco e imponderado, era, afinal, a música dos renegados, larápios, prostitutas e escumalha. O fado era a expressão mais clara, portentosa e telúrica da alma portuguesa, aquela que passava as mágoas e aflições de um povo e de um império. 

Todavia, o fado que o mundo conheceu não foi o mesmo que Lisboa praticava, não foi o mesmo que os pais choravam e os filhos aprendiam. António Ferro quis “higienizar” o fado, limpá-lo do impuro, do crude e do miserável. O fado é a alma portuguesa e, portanto, cante-o quem cantar, deve ser nobre, doce e eterno, uma canção etérea que fala com os ideais estéticos do regime. 

A política do espírito criou um novo fado, um que rejeita o boémio e faz de seu estandarte a divina trindade do Estado Novo: Deus, Pátria e Família.  

Mas Amália era um fenómeno. A sua ascensão era incontrolável e a sua mensagem muito fugia do fado submisso que o regime impunha. O seu principal compositor a partir dos anos 60, Alain Oulman, desconstruiu a matriz conservadora do fado. Ao introduzir harmonias complexas e, sobretudo, ao trazer para o repertório fadista a poesia erudita de autores como David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill e Ary dos Santos, a dupla provocou um sobressalto estético. Amália deixou de cantar a submissão, a pobreza conformada e o destino fatalista, passando a dar voz a textos de rutura e de inquietação intelectual. O regime tolerava esta insubordinação lírica porque a visibilidade internacional da fadista era um trunfo diplomático demasiado valioso para ser descartado, permitindo que a subversão operasse em plena luz do dia, mascarada de espetáculo. O seu fado tornou-se numa requintada poesia de dupla leitura. 

Enquanto exaltava figuras maiores como Camões, Amália encontrou em Oulman, um judeu de esquerda, preso e forçado ao exílio pela PIDE, o arquiteto sonoro da sua dissidência. E, apesar da vigilância, continuou a gravar as composições dele, subvertendo as convenções estéticas do regime no preciso momento em que cantava para as suas elites. 

O 25 de abril resultou numa autêntica revolução cultural. Não foi somente a inexistência do lápis azul, a remoção desse obstáculo jurídico, que se fez sentir. Tudo mudou. As pessoas agora eram livres de adornar as suas vidas com qualquer arte existente, mas também de renegar aquelas que representavam o passado. As esperançosas ruas pediam catarse, porque se na ditadura o silêncio era prelúdio do Fado, de repente, não se fazia mais silêncio.  

De súbito, Alexandre O’Neill e Ary dos Santos não eram mais rebeldes dissidentes. Mas o fado ficou para trás. As ruas esqueceram-no e deixaram-se tomar pela música de intervenção, agora mais direta, mais audaz, pronta para dilacerar o cadáver de um regime pútrido que nem devia ter existido. Por todo o lado se ouve Sérgio Godinho e Zeca Afonso e por todo o lado renegam Amália, e os outros fadistas. O regime fez do fado seu e agora que não há regime, ele está desamparado.  

Depois dos cravos, a paisagem sonora e cultural do país sofreu uma metamorfose radical. A cultura popular associada ao regime foi alvo de forte repúdio pela intelectualidade e pelos movimentos políticos de esquerda.  

O espaço público e as grelhas das rádios, outrora dominadas pelo fado, foram ocupadas de assalto pelo canto livre e pela música de intervenção de nomes como José Mário Branco, Sérgio Godinho e Zeca Afonso. Neste clima de purga e reescrita da identidade nacional, a cultura popular associada ao Estado Novo tornou-se um alvo a abater. 

Amália foi rotulada de “fascista” e “fadista do regime”, sofreu cancelamentos de espetáculos, boicotes e recolheu-se num semi-ostracismo. Mas ela era tudo menos do regime. A Amália foi o maior fracasso do Estado Novo. Ela fora uma mulher bem-sucedida, que fez da sua arte seu apanágio e conquistou o globo com a sua vocação, sem alguma vez perder a sua integridade. Durante toda a sua carreira, ela havia financiado clandestinamente as famílias de presos políticos e o próprio Partido Comunista Português (PCP) durante a ditadura. Ela apoiou dissidentes e descontentes do regime, para além de famílias pobres e descontentes. Tudo isto enquanto cantava nos maiores palcos a que o fado já chegou. Fez da sua fama escudo da sua subversão.

O regime queria uma figura folclórica, pacata e provinciana, mas ela tornou-se cosmopolita, insubmissa e incontrolável. Em 2001, este facto ficou reconhecido com o traslado do seu corpo para o panteão nacional. No entanto, a sua vida é maior exemplo de uma categórica e inegável verdade: a arte e a cultura são armas políticas. 

Antes da ribalta, o fado fora a sua ferramenta de sobrevivência nas ruas da capital. Sob a batuta de António Ferro, serviu como a anestesia que legitimava o regime e pacificava as ruas pelo país fora. Contudo, Amália fez da sua fama a sua melhor defesa, fazendo da música do regime uma arma de dissidência subtil e financiando a oposição secretivamente. Quando a revolução chegou, o PREC transformou a arte num instrumento de agitação, silenciando implacavelmente quem tivesse o rosto colado ao passado. A verdadeira cultura, porém, recusa ser higienizada por ditaduras ou saneada por purgas: as ruas acabam sempre por reclamar a sua própria voz.  

Henrique Marques  

Uma gaivota voava, voava 

Asas de vento, coração de mar 

Uma gaivota voava, voava 

Asas de vento, coração de mar 

Como ela, somos livres 

Somos livres de voar 

Como ela, somos livres 

Somos livres de voar 

Uma papoila crescia, crescia 

Grito vermelho, num campo qualquer 

Uma papoila crescia, crescia 

Grito vermelho, num campo qualquer 

Como ela, somos livres 

Somos livres de crescer 

Como ela, somos livres 

Somos livres de crescer 

Uma criança dizia, dizia 

Quando for grande, não vou combater 

Uma criança dizia, dizia 

Quando for grande, não vou combater 

Como ela, somos livres 

Somos livres de dizer 

Como ela, somos livres 

Somos livres de dizer (…) 

Ermelinda Duarte (1974) 

Liberdade de voar. Liberdade de crescer. Liberdade de dizer. No fim, liberdade. É do diferente sentir que a liberdade nasce, vive e perdura. É um direito coletivo, que se faz da comunhão e se sente no individual. Para todos, a liberdade é sentida de maneira diferente, mas ganha forma coletivamente, na sua expressão artística, educacional e cultural.  

“Somos livres”, depois de cinquenta anos cinzentos, de nos desfrutarmos, de nos unirmos, de nos olharmos e de nos reconhecermos pelo que somos. Mas somos?  

E é aí que se torna necessário enfatizar a importância da educação, da produção cultural e artística. As palavras de Ermelinda ainda ecoam pelos jardins de infância para celebrar o Dia da Liberdade português, nas escolas e nas crianças às cavalitas na marcha pela Avenida neste dia de abril. “Somos livres de voar”, “de crescer” espontaneamente como uma papoila, e semear a nossa arte como exteriorização de nós mesmos, daquilo que afirmamos a pés juntos que podemos vir a tornar-nos a executar a máxima expressão da liberdade. 

Liberdade para pintar, manchar de vermelho a tela, de preto, de expressar o não sentimento, ou de não o sentir de todo. De nos compararmos uns aos outros, ou de nos acompanharmos. Para nos destratarmos, para nos cuidarmos, para cantar, ou para gritar fora do ritmo. Para ir trabalhar, ou para nos perdermos e termos gozo nessa perdição. Para ser a nossa pior versão ou a melhor, para desconstruir ou apagar. De ser qualquer coisa, desde que sejamos.  

Também há a possibilidade de não sermos, de odiarmos, de instrumentalizar a cultura, o conhecimento. Neste caso, entrará a responsabilidade, conceito que anda de mãos dadas com a Liberdade. Atribuição causal à escolha que fazemos.  

A educação atribui-lhes significado. Portanto, músicas de liberdade passarem nas escolas, como modo de nos transmitirem a livre expressão, pensamento, e de apreciação da arte como conjuntos de ideias lançados, é um bom caminho. Claro que na vida posterior, vai ser a arte que nos vai elevar a alma de todos os quadrados onde nos tendemos a enfiar.  

E tomei a liberdade de escrever para aqui o que sentia, e o que era no momento, com consciência de que era, de que a tinha, e de alguém lutou para que eu a tivesse. 

Margarida Cabral  

Este artigo é da pura responsabilidade dos autores, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Fonte da Imagem de Capa: https://www.avidaportuguesa.com/en/store/poster-a-poesia-esta-na-rua-ii

Escrito por: Rodrigo Lousa, Henrique Marques, Margarida Cabral 

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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