Durante décadas, a União Europeia organizou a sua abordagem económica em torno de uma ideia relativamente simples: abertura gera prosperidade. O comércio internacional, a integração financeira e a interdependência eram vistos sobretudo como fatores de estabilidade e crescimento. Hoje, Bruxelas tem uma abordagem completamente diferente.
Na conferência “Surviving Economic (In)security”, realizada no ISCSP, Damien Levie, — responsável na Comissão Europeia por instrumentos ligados à segurança económica, tecnologia e controlo de investimento estrangeiro — descreveu precisamente essa transformação. A economia deixou de ser pensada apenas como espaço de eficiência e passou a ser entendido como espaço de vulnerabilidade, risco e competição estratégica.
É neste contexto que o euro digital ganha importância.
À primeira vista, o projeto parece relativamente banal: uma versão digital do euro emitida pelo Banco Central Europeu, adaptada a uma economia cada vez menos dependente de numerário. Bruxelas apresenta-o como modernização financeira, inovação tecnológica e adaptação ao futuro digital. Mas reduzir o tema a uma simples atualização monetária ignora aquilo que realmente está em causa.
O euro digital não surge apenas num momento de transformação tecnológica; surge num momento em que a União Europeia procura preparar a sua economia a uma ordem internacional mais instável, marcada por pressão económica, disputa tecnológica e crescente competição pelo controlo dos sistemas financeiros globais.
A guerra na Ucrânia acelerou brutalmente essa mudança de mentalidade. O congelamento de ativos russos e a exclusão parcial da Rússia do sistema SWIFT mostraram ao mundo inteiro que dependência financeira também significa vulnerabilidade política. O sistema monetário internacional continua profundamente dominado pelos Estados Unidos, permitindo a Washington exercer uma capacidade de pressão geopolítica extremamente eficaz através do dólar e das infraestruturas financeiras globais.
A Europa deparou-se com uma realidade desconfortável: apesar da dimensão económica, continua profundamente dependente de sistemas financeiros controlados externamente.
É precisamente aqui que o euro digital deixa de ser apenas inovação monetária e passa a ser geoeconomia.
O projeto pode ser entendido como parte da lógica de “de-risking” defendida pela Comissão Europeia – não necessariamente uma tentativa de romper com o sistema financeiro global dominado pelos Estados Unidos, mas sim de reduzir exposição externa dentro dele. No fundo, a União Europeia começa a aplicar à moeda a mesma lógica que hoje aplica à energia, aos semicondutores ou às tecnologias críticas: manter abertura, mas limitar dependências estratégicas.
No entanto, existe aqui um paradoxo profundo.
A procura europeia por soberania económica pode acabar por normalizar formas de controlo financeiro que, há poucos anos, pareceriam impensáveis.
Historicamente, o dinheiro físico possuía uma característica essencial: anonimato relativo. Uma nota não regista onde foi usada, o que comprou ou quem a transportou. Já um sistema monetário totalmente digitalizado transforma cada transação em dados. E numa economia em que tudo deixa rasto, controlar a infraestrutura financeira significa também adquirir capacidade de monitorização económica.
É aqui que o debate deixa de ser técnico e passa a ser político.
O verdadeiro salto não está apenas no facto de o dinheiro se tornar digital — isso já acontece há muito tempo através de cartões, aplicações e pagamentos online. A transformação realmente importante é a possibilidade de tornar o dinheiro programável.
Dinheiro programável significa que pagamentos podem, em teoria, incorporar condições automáticas: limitações temporais, restrições geográficas, tributação instantânea ou mecanismos de controlo específicos. Mesmo que muitas destas possibilidades nunca sejam implementadas pela União Europeia, o simples facto de passarem, tecnicamente, a existir altera profundamente a natureza do dinheiro moderno.
O dinheiro deixa de ser apenas meio de troca, passa a ser uma infraestrutura inteligente de governação económica.
E talvez seja precisamente essa a característica mais importante da nova geoeconomia digital: o desaparecimento progressivo das fronteiras entre dinheiro, tecnologia, segurança e poder político.
A própria dificuldade em lançar o euro digital mostra até que ponto o projeto é mais político do que tecnológico. Christine Lagarde deverá abandonar a presidência do BCE sem conseguir concretizar uma das iniciativas mais ambiciosas do seu mandato. Inicialmente previsto para 2026, o euro digital dificilmente avançará antes de 2029, num contexto marcado por resistência política, preocupações com privacidade e receios sobre o impacto nos bancos tradicionais.

Fonte: Banco de España.
Existe ainda um problema mais profundo: grande parte dos cidadãos europeus simplesmente não sente necessidade real do euro digital.
Enquanto Bruxelas o vê como instrumento de soberania monetária e autonomia estratégica face ao domínio financeiro americano, muitos europeus continuam a considerar suficientemente eficazes os sistemas já existentes, como cartões bancários, MB Way, Apple Pay ou Google Pay.
Talvez isso revele algo importante sobre a nova visão geoeconómica europeia: o euro digital não surge porque existe procura social significativa por uma nova moeda, mas porque as instituições europeias receiam perder controlo sobre a infraestrutura financeira do futuro.
A experiência chinesa ajuda, também, a perceber os limites desta transformação. O yuan digital foi inicialmente apresentado como potencial ameaça ao domínio do dólar, mas os resultados ficaram muito aquém das expectativas. A razão é simples: moedas dominantes não dependem apenas de tecnologia. Dependem de confiança institucional, credibilidade política, profundidade financeira e liberdade de circulação de capitais.
A China possui tecnologia avançada. O que continua a não possuir plenamente é confiança internacional suficiente para substituir o dólar como centro do sistema financeiro global.
E talvez o mesmo limite se aplique à Europa. O euro digital pode reforçar a autonomia europeia, fortalecer pagamentos internos e reduzir algumas vulnerabilidades estratégicas. Mas isso está longe de significar o fim da hegemonia monetária americana.
No fundo, o euro digital simboliza algo maior do que uma simples inovação financeira. Simboliza uma mudança profunda na visão europeia sobre soberania, economia e poder.
E talvez a parte mais inquietante dessa transformação seja precisamente o silêncio com que está a acontecer.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Ana Rita Amoreira
Editado por: Leonor Oliveira


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