A rendição no Largo do Carmo

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A rendição no Largo do Carmo foi o momento final de um regime que durou 48 anos, mas os acontecimentos que ali ocorreram na tarde de 25 de abril de 1974 estão envoltos em episódios que poucos conhecem com detalhe. Desde o adiamento do golpe, que quase acontecera em março, até ao equívoco de Marcelo Caetano que o levou a telefonar ao homem que o iria depor, a história da Revolução dos Cravos é feita tanto de coragem como de ironia e desnorte.

O golpe militar que derrubou o Estado Novo não estava originalmente planeado para 25 de abril. As primeiras reuniões do Movimento das Forças Armadas começaram ainda em 1973, motivadas inicialmente por questões de cariz corporativista, sobretudo alterações legislativas promovidas por Marcelo Caetano que afetavam a carreira dos oficiais. Porém, rapidamente o movimento adquiriu uma dimensão mais política, e a guerra colonial, que já durava 13 anos sem solução à vista, tornou-se o motor da revolta. A data escolhida inicialmente era o início de março de 1974. Contudo, a PIDE começou a descobrir pistas do movimento revolucionário. A 16 de março, um grupo de oficiais do MFA tentou sublevar um regimento de infantaria em Caldas da Rainha, a cerca de 90 quilómetros de Lisboa, para marchar sobre a capital. O chamado Levantamento das Caldas fracassou naquele mesmo dia, e o regime de Marcelo Caetano reagiu lançando uma campanha agressiva de espionagem dentro do Exército, ordenando detenções e transferências de guarnições. Os chefes do MFA concluíram então que seria necessário um levantamento a nível nacional e aceleraram os planos, aproveitando a agenda oficial de deslocações de unidades militares para não levantar suspeitas.

Na madrugada de 25 de abril, o levantamento militar começou tecnicamente às 22h55 do dia 24, com a canção “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, que havia representado Portugal no Festival da Eurovisão dias antes. Esta era a primeira senha para que as tropas se preparassem nos seus postos e sincronizassem os relógios. Às 00h25 do dia 25, a Rádio Renascença transmitiu “Grândola, Vila Morena” de José Afonso, a segunda senha combinada pelo MFA para ocupar os pontos estratégicos do país. A reação da PIDE foi, no mínimo, curiosa. Ao contrário do que se poderia esperar, a polícia política não tentou impedir o golpe. Segundo o investigador Jacinto Godinho, a estratégia da PIDE era deixar os revoltosos sair à rua para depois prender os responsáveis, como já tinha acontecido no golpe de Beja em 1962. A PIDE chegou a prender pessoas no próprio dia 25 de abril, levando-as para o Governo Civil onde eram interrogadas precisamente na altura em que Salgueiro Maia obtinha a rendição de Marcelo Caetano. A polícia política estava convencida de que, depois das prisões na sequência do 16 de março, qualquer movimento já não teria líderes capazes de o comandar.

Um dos episódios mais surpreendentes ocorreu nas primeiras horas da revolução. Marcelo Caetano, convencido de que o levante era uma manobra da extrema-direita para o salvar dos comunistas, pegou no telefone e ligou ao general António de Spínola, a quem julgava um aliado conservador e leal. Caetano pediu ajuda a Spínola para conter os comunistas e sufocar a sublevação. A resposta que obteve, porém, não foi a esperada. Nesse momento, o ditador percebeu, atónito, que Spínola era afinal uma das figuras-chave da revolução que o estava a derrubar. Horas mais tarde, seria ao mesmo Spínola que Caetano se renderia no Largo do Carmo.

Durante a noite de 24 para 25 de abril, Marcelo Caetano recebeu em casa, ainda na cama, um telefonema do major Silva Pais, diretor da PIDE, que o informou que a revolução estava na rua e era grave. Silva Pais aconselhou Marcelo a ir para o Quartel do Carmo, argumentando que no 16 de março ele tinha ido para Monsanto e que os rebeldes certamente tentariam apanhá-lo lá. Além disso, Silva Pais ainda não apurara a posição da Força Aérea e considerava a Guarda Nacional Republicana segura. Caetano não achou estranha esta exibição de ignorância e seguiu sozinho de automóvel para a Baixa, passando por várias patrulhas que guardavam o acesso das ruas. Julgou que se tratava de tropas fiéis. Não eram. Eram tropas do MFA que, por sorte ou desleixo, não o mandaram parar. O Quartel do Carmo revelou-se uma verdadeira ratoeira. Com uma única companhia de comando e serviços, várias repartições de carácter administrativo e dezenas de famílias de guardas que ali viviam permanentemente, a GNR hesitaria sempre em se envolver em qualquer espécie de violência. Fisicamente isolado do comando militar, da PIDE e do governo, com comunicações precárias que o MFA certamente vigiava, a presença de Marcelo no Carmo não servia para nada. Pelo contrário, dava um objetivo fácil e decisivo às forças sublevadas.

Quando milhares de manifestantes se juntaram no Largo do Carmo, Marcelo Caetano concebeu mesmo o plano de os massacrar, fazendo descer uma unidade da GNR da Calçada de Pedro V e subir outra do Largo de Camões para os colher entre dois fogos. Lisboa inteira ouviu, em aberto, pela rádio os comandantes da GNR decidirem desobedecer a essa ordem criminosa. O capitão Salgueiro Maia apresentou então um ultimato: ou Marcelo Caetano se constituía imediatamente prisioneiro do MFA, ou o MFA arrasava o quartel a tiros de canhão. Caetano não se impressionou e respondeu: “Não arrasa coisa nenhuma”. Comunicou ao capitão que já tinha pedido a Spínola para ir ao Carmo e que dentro de meia hora lhe tencionava transmitir o poder.

Quando Spínola entrou no quartel, encontrou o presidente do Conselho sentado num sofá, numa atitude serena e digna. Segundo Marcelo, antes mesmo de o cumprimentar, Spínola desabafou: “A que estado estes gajos deixaram chegar isto!” referindo-se à multidão do Carmo e ao povo na rua. Num livro de memórias de 1978, Spínola transformou esta frase numa declaração histórica: “O estado em que Vossa Excelência me entrega o país”. Foi então que Marcelo Caetano proferiu a frase que ficaria para a história: “Entrego-lhe o poder para que o país não se afunde em sangue.” Metido numa viatura blindada, a chaimite “Bula”, Marcelo Caetano seguiu para a Pontinha sob os vitupérios da multidão. O sistema constitucional do regime, que o professor Caetano ensinara na universidade e afetara respeitar, ruíra num minuto. Pior ainda, tinha sido ele o primeiro a reduzir a lei ao seu arbítrio: sozinho, sem consultar o Presidente da República, o Conselho de Estado ou sequer o Governo, decidira transmitir o poder a Spínola. Nada na Constituição o autorizava a isso.

No exílio no Brasil, Marcelo Caetano nunca conseguiu aceitar plenamente o que acontecera. Incapaz de reconhecer que o edifício para que tanto trabalhara assentava na realidade crua do poder de um homem, o poder de Salazar e o seu, insistia em visitar cerimonialmente o presidente deposto Américo Tomás como chefe de Estado no exílio. Morreu no Rio de Janeiro em 1980, sem nunca ter regressado a Portugal. O homem que pediu ajuda a um revolucionário e viu um golpe de direita transformar-se numa revolução de esquerda levou para o túmulo a certeza de que fora vítima de uma traição, e não o arquiteto da sua própria queda.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: 25abril.pt

Escrito por: Ricardo Farto

Editado por: Rodrigo Caeiro

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