25 de Abril sempre. A madrugada chegou molhada, como que anunciando que algo no ar se lavava. Em Lisboa, a chuva não era apenas água. Era como se uma voz imensa gritasse: a chuva é do povo, abaixo os telhados. E os telhados, metáfora de um regime que nos queria pequenos e calados, começaram a cair simbolicamente quando as tropas desceram a capital com cravos nas armas.
Nas ruas, o medo habitual deu lugar a uma coragem coletiva. As pessoas que durante anos foram ensinadas a baixar a cabeça saíram à chuva e cantaram. O povo unido jamais será vencido, entoavam os operários do Alentejo, os estudantes de Coimbra, as varinas de Lisboa. E era verdade. Naquele dia, o povo percebeu que o povo é quem mais ordena, e não os governos que oprimiam sem rosto nem nome.
Nas terras lavradas à força, ergueu-se um novo grito. A terra a quem a trabalha, mortos fora dos cemitérios já. Era tempo de os vivos ocuparem o lugar dos vivos, e de os mortos — os que morreram na guerra colonial, os que tombavam na PIDE, os que definharam no exílio — deixarem de assombrar o futuro. Fora com os mortos, a terra a quem a trabalha, repetiam os camponeses, empunhando enxadas como se fossem cravos.
Até os absurdos ganharam voz. Numa tasca do Bairro Alto, um homem de bigode rijo gritou: os galos pedem a Nacionalização dos Ovos. E o riso contagiou a rua. Mais à frente, um rapaz de camisa rasgada escreveu num muro: promoção imediata do leitão a porco. Os velhos sorriram. O absurdo era a melhor maneira de dizer que o regime levava tudo demasiado a sério.
Houve quem pedisse o impossível, só por prazer de sonhar. O galo de Barcelos ao poder, Independência para as Berlengas, nem mais um anticiclone para os Açores. Eram provocações, claro, mas provocações de quem acabara de descobrir que podia dizer tudo, rir de tudo, reinventar tudo. Um poeta bêbado de liberdade ainda acrescentou: nem mais um faroleiro para as Berlengas.
Nas assembleias de moradores, decidia-se com a alma quente: os ricos que paguem a crise. Nas escolas improvisavam-se lições: o voto é a arma do povo. Porque sem ele a revolução morreria. E em alguns cartazes pintados à mão lia-se: o socialismo está em construção, visite o andar modelo. Havia ironia, mas havia sobretudo esperança.
Os cemitérios também foram visitados nesse dia. Mortos da vala comum ocupai os jazigos de família, exigiu um operário que perdera o pai numa prisão do regime. Lembrava que até os mortos tinham sido divididos em classes. Um ateu de óculos fundos perguntava a quem passava: se Deus existe porque não se recenseou. E arrancava gargalhadas.
Para quem achava que aquilo era moda passageira, respondia-se com um sorriso e uma certeza: a reação não passarou nem passará. E se isto não é o povo então o que é o povo? A resposta estava ali, molhada, descalça, armada de cravos e de sonhos.
Os soldados, que antes iam para as colónias matar e morrer, ouviram uma velha dizer-lhes baixinho: nem mais um soldado para as colónias, nem mais uma freira para o céu. A guerra tinha de acabar. O céu que esperasse. E muitos deles largaram as armas para abraçar estranhos.
Nesse dia, houve até quem pedisse: todo o apoio a tudo que for provisório. Porque o provisório era a ponte para o definitivo. E uma mulher de avental branco gritava da varanda: é feio, é feio ficar no passeio. Os tímidos deixaram de olhar. Foram empurrados para o centro da história pelos próprios pés.
O 25 de Abril não foi perfeito. Foi humano, desajeitado, poético e feroz. Teve medo, teve fome, teve sono e teve coragem. Foi feito de gente que até ali só sabia obedecer e que de repente descobriu que podia dizer não, sim, talvez e amanhã. E até hoje, sempre que a chuva cai em Lisboa, há quem se lembre: a chuva é do povo. E os telhados, esses, nunca mais voltaram a tapar o sol.
Neste texto, algumas coisas são bem verdade — a coragem das ruas, a fome de terra, o grito contra a guerra, o voto como arma, a recusa dos mortos mandarem nos vivos. Outras foram só ligações no texto, invenções afiadas com a tesoura da memória poética. Mas no final, Abril venceu. E esta seria uma bonita história. Não deste modo exato, não com estas palavras todas ditas assim na manhã de 1974, mas neste sentido. E esse sentido é o que nos continua a levantar da cadeira sempre que o país adormece outra vez.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: AgendaLX
Frases a negrito: Parlamento.pt
Escrito por: Ricardo Farto
Editado por: Rodrigo Caeiro


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