Um artista não pode, deve ser político!

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A música é o nosso maior refúgio, mas também o nosso manifesto mais ruidoso contra as desigualdades que nos tentam calar.

Ultimamente, tenho estado a refletir sobre esta frase de Nina Simone: “O dever de um artista é refletir os tempos que vivemos. Acho que isto é verdade para pintores, escultores, poetas e músicos.”

Consequentemente, também acho que, em alguns casos, a arte procura cada vez mais afastar-se deste tópico tão controverso, como demonstra a divisão ideológica entre Macklemore e Ed Sheeran, em que o último se recusa a adotar uma posição e cujo silêncio não o protege.

Num mundo onde o ódio, a segregação e a indiferença reinam, uma das poucas coisas a que podemos recorrer para procurar abrigo é a arte. Ultrapassa-me normalizar um mundo onde problemas antigos estão cada vez mais evidentes. Recuso-me a aceitar uma realidade onde predomina a “anestesia social” que nos foi imposta, que nos obriga a não sentir e a ignorar as injustiças ao nosso redor. 

É, porém, nesta crueldade do mundo que muitas pessoas, como eu, procuram refúgio nas diferentes formas de arte, sobretudo na música, quando falamos da minha geração.

Nas palavras de Harry Styles: “Um álbum verdadeiramente bom consegue mudar-nos a perspetiva de tudo”. É precisamente aí que quero navegar.

Raramente encontramos um álbum ou uma música que nos “sacuda” e nos diga: “Olha para o que está a acontecer à tua volta!”, mas felizmente no mainstream, começamos a ver artistas a furar a bolha do silêncio político. Quatro peças musicais, recentes ou intemporais, que complementam os tempos que vivemos e que serviram como manifestações contra esta onda de negatividade serão aqui analisadas. Creio que estas peças poderão servir de inspiração para quem estiver a ler este artigo, especialmente para quem tenha vontade de lutar contra o sistema em que vivemos e ajudar a combater o ódio sistémico que parece ganhar terreno tão rapidamente.

O single “serena joy” (2026), da artista norte-americana Olivia Rodrigo, utiliza a personagem do romance “A História de Uma Serva” para representar como, embora os grupos reprimidos possam adotar uma posição complacente em relação ao seu governo, também acabarão por sofrer as consequências das suas políticas. Isso é demonstrado no refrão: “Canta o que eles te dizem para fazer / se lhes fazem isso, eles irão fazer-te o mesmo”.

Para contextualizar, Serena Joy é uma personagem desse livro de Margaret Atwood que ajuda o marido a construir Gilead, uma versão dos Estados Unidos da América transformada numa ditadura religiosa. Esta acaba, contudo, por sofrer com as políticas do próprio país, demonstrando que até aqueles que se consideram imunes às consequências das suas escolhas podem acabar por ser afetados por elas.

Graças a este contexto literário, sentimos esta canção mais perto do nosso coração, principalmente quando a relacionamos com diferentes causas, como o feminismo, que Rodrigo defende com grande convicção. Disso é exemplo o festival “Daisy Chain Fields“, com um cartaz inteiramente constituído por mulheres, que arrecadou mais de 10 milhões de dólares em doações, valor posteriormente duplicado por Melinda French Gates (via Rolling Stone Brasil).

Falar de obras artísticas que ajudaram a transformar perspetivas antiquadas e preconceituosas sem mencionar “To Pimp a Butterfly” de Kendrick Lamar não seria correto. O impacto que este álbum teve na sociedade merece ser destacado.

De acordo com o professor Maurice Johnson, da Florida State University, que utiliza o hip-hop para discutir a representação negra nos media, o álbum foi lançado durante um período de tensão nos Estados Unidos, nomeadamente quando dois adolescentes, Michael Brown e Tamir Rice, de 18 e 12 anos, respetivamente, perderam a vida devido à violência policial (via The Root). Considero, ainda assim, que este álbum ilumina os problemas sistémicos relacionados com a discriminação racial, agravados pelo surgimento das operações do ICE (Immigration and Customs Enforcement).

Gostava de dar destaque à canção “Alright” usada nos protestos do Black Lives Matter após as mortes de George Floyd, Breonna Taylor e de incontáveis pessoas negras que aconteceram em 2020. Esta música foi descrita por muitos como “um hino de unificação” e um “símbolo de esperança” que transparecem nas letras: “Fomos magoados antes / Quando o nosso orgulho estava baixo / Olhámos para o mundo a perguntar “Para onde vamos” e “Nós vamos ficar bem / Consegues ouvir me? / Percebes aquilo que estou a dizer?”

Em vez de reduzir a experiência negra a imagens de violência, criminalidade ou hiper-masculinidade, Lamar explora a vulnerabilidade, a insegurança, a culpa, a espiritualidade, o orgulho cultural e as contradições da sua própria identidade. O álbum apresenta pessoas negras como indivíduos complexos, não como caricaturas. Este álbum não elimina representações de violência, utiliza-as também para questionar as condições sociais, os conflitos e as contradições que as rodeiam.

Numa das suas músicas mais emblemáticas, “Pearls“, Sade canta sobre uma mulher somali que procura pérolas à beira da estrada. Não literalmente: esta mulher procura algo que a mantenha viva, algo valioso.

Ao mesmo tempo, Sade sente dor e compaixão por esta mulher, cujo mero ato de sobreviver se torna um sofrimento constante. A cantora reconhece a sua coragem ao afirmar “Eu não sei do que ela é feita, eu ia gostar de ser tão corajosa”. Ao mesmo tempo que a mulher sobre quem canta chora aos céus devido às suas condições de vida, Sade sente “uma pedra no seu coração”. Enquanto uma mulher sofre, outras vivem de forma feliz e despreocupada, evidenciando a disparidade entre as suas realidades. Quando Sade diz que o sofrimento da mulher somali “Magoa como sapatos novos” esta intensifica o contraste entre as duas, a vida que Sade canta é uma vida que a mulher somali não consegue viver.

Atualmente, e felizmente, graças às chamadas de atenção para as disparidades nas condições de vida, vemos esta música a ser utilizada no TikTok como um “hino” que destaca as vidas destas mulheres. Considero que este é um exemplo de como a música pode mudar perspetivas, sensibilizar a população e evidenciar o choque entre as diferentes realidades do mundo em que vivemos.

Para concluir, esta música não fala apenas das mulheres da Somália, há mulheres a sofrer no Afeganistão, no Sudão, no Congo, na Síria e no Iémen. Cabe-nos amplificar as vozes de quem tantas vezes é ignorado, garantindo que as suas necessidades são ouvidas e contribuindo para a construção de um mundo onde estes problemas não tenham lugar.

O papel de quem assiste diariamente a estas realidades e se sente desconfortável é denunciar estas práticas e deixar a nossa marca na possível melhoria da sociedade. Há quem se sinta desencorajado e quem ache que o seu contributo não fará diferença. Contudo, mesmo através dos nossos gestos mais pequenos, já estamos a fazer mais do que aqueles que se limitam a observar sem agir.

O quarto e último exemplo deste artigo vem da artista norte-americana Melanie Martinez e do seu álbum conceptual “HADES“. Através de uma narrativa distópica sobre uma artista criada para semear a controvérsia e para acabar com a arte humana, o projeto funciona como uma análise cirúrgica da sociedade moderna.

A premissa inspira-se no romance “A Parábola do Semeador: Semente da Terra”, de Octavia E. Butler. Para contextualizar, o livro decorre nos Estados Unidos na década de 2020, um futuro que, para a autora, parecia distante, mas que hoje corresponde inquietantemente à nossa realidade. Nesse livro, o mundo enfrenta uma catástrofe ecológica profunda, um colapso económico, uma escassez extrema de água, uma desigualdade galopante e a falência do Estado, temas bastante presentes tanto no álbum como na atualidade. Para além de criticar um tema bastante atual (a inteligência artificial e os seus danos para a arte) o álbum apresenta também um comentário social ao longo das suas 18 faixas.

Em músicas como “GARBAGE”, “WHITE BOY WITH A GUN”, “POSSESSION”, “MONOPOLY MAN”, “BATSH*T INTELLIGENCE”, “UNCANNY VALLEY” e “HELL’S FRONT PORCH”, é-nos apresentado um retrato da sociedade nos seus mais diversos aspetos. São criticadas as políticas impostas nos Estados Unidos, o ativismo performativo, dinâmicas de poder e abuso em relações românticas, o contributo dos milionários para a destruição do planeta, os problemas de habitação, os padrões de beleza exacerbados pelo aparecimento da inteligência artificial e das ferramentas de edição e, por fim, o aquecimento global.

Para concluir a análise deste projeto, a própria artista afirma: “Eu comecei o processo deste álbum a pensar que iria escrever uma distopia futurista, mas apercebi-me que estava apenas a documentar o mundo em que residimos. HADES é um espelho partido: por trás da raiva, há uma recusa em ficar apático, uma chamada de atenção para sentirmos, vermos com clareza e perguntarmo-nos se ainda conseguimos criar algo lindo com o caos que nos foi dado” (via Billboard).

Para terminar, gostava de fazer uma nota mais positiva. Usando um exemplo da última artista que mencionei. Na sua tour de 2026, HADES: THE SACRIFICE, Martinez antes de cantar a última música “THE LAST TWO PEOPLE ON EARTH” apresenta-nos um discurso. E é precisamente este discurso que quero citar para fazer a conclusão deste artigo, fazendo das palavras dela as minhas.

“Eu não sou cínico, também não sou niilista. Tenho esperança que o nosso planeta mude. Mas é ao reduzir lo a chamas, obliterando este sistema com o amor. Amor uns pelos outros, amor por este planeta flutuante e amor pelas futuras gerações. É o amor que vai perdurar, mesmo se formos as últimas duas pessoas no planeta.”

Num mundo que nos quer anestesiados e divididos, recusar o silêncio e escolher a empatia através da arte é, talvez, o ato mais revolucionário que nos resta.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte das imagens de capa e de corpo: Pinterest (colagens autorais.)

Escrito por: Tiago Bento

Editado por: Nikola Milosev

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