Durante a madrugada, a polícia retirou as tendas da Acampada do Rossio, movimento pacífico pelo direito à habitação. Não, as tendas não desapareceram por termos sido, finalmente, ouvidos. Foram retiradas na tentativa de que a nossa voz desaparecesse com elas.
É aqui que é suposto perdermos toda a esperança?
Ontem tive o privilégio de estar presente na Assembleia Popular no Rossio. Um momento de escuta, de partilha e de debate. Um momento verdadeiramente bonito. E verdadeiramente necessário. Principalmente quando escutar o outro se tornou algo tão raro — o estado da nossa sociedade reflete tão notoriamente esta escassez da escuta…
Hoje o dia amanheceu um bocadinho mais cinzento que ontem.
Ao que parece, querer que todas as pessoas tenham uma habitação é ser demasiado radical. Quem diria que, hoje em dia, querer uma vida digna é ser-se radical. Quem diria que acampar pacificamente é causar instabilidade. E quem diria que a estabilidade assentaria em não ter casa para habitar, não ter dinheiro para comer e em não ter tempo para viver.
Quem diria que estaríamos a viver uma realidade tão distópica. “É o que é”, oiço por aí. Paro. Penso. Não, não “é o que é”. É o que querem que seja.
Hoje, quando acordei, senti-me angustiada com o futuro. Que futuro? Quero ir-me embora. Já nem o presente é verdadeiramente nosso. Somos egoístas por querermos uma casa para viver e somos radicais por nos manifestarmos sobre isso. Não nos encaixamos aqui.
Penso mais e mais.
Não será que é isto mesmo que querem que sintamos? Que acabemos por desistir e que nos acomodemos? Que paremos de nos manifestar? Que fiquemos mais e mais pequeninos, todos os dias, até, talvez, desaparecermos de uma vez por todas?
É precisamente isto que não podemos fazer — desaparecer.
Manifestem-se. Ouçam-se. Partilhem. Acampem. E não desistam, mesmo quando a esperança andar por aí bem escondida de nós.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Autoral
Escrito por: Madalena Gonçalves
Editado por: Rodrigo Caeiro


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