Estamos em 2026. A humanidade quer pôr carros no ar e transformar tudo aquilo que ontem parecia ficção científica em realidade. Há máquinas que escrevem, algoritmos que aprendem e engenheiros que procuram novas formas de desafiar a gravidade. O futuro, dizem-nos, está a chegar. Curioso é que, pelo caminho, parece ter-se esquecido de uma parte da população.
Enquanto discutimos a possibilidade de viajar em carros voadores, há mulheres que continuam a lutar pelo direito de decidir sobre o próprio corpo, de andar na rua sem medo, de receber salários justos e de ocupar lugares de decisão. Afinal, aparentemente, inventar uma máquina capaz de voar é mais simples do que construir uma sociedade em que ser mulher não implique tantos obstáculos.
Não digo isto da boca para fora. Segundo o Gender Snapshot 2026, relatório elaborado pela ONU Mulheres e pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, ao ritmo atual, poderão ser necessários 171 anos para alcançar a igualdade de género. Cento e setenta e um anos. É o tempo suficiente para várias gerações nascerem, crescerem e envelhecerem num mundo que continuará a prometer igualdade sem a cumprir. O mesmo relatório indica que nenhum dos indicadores do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável dedicado à igualdade de género está no caminho certo para cumprir a meta de 2030.
Ah, mas, claro, continuemos a falar do futuro. Dos automóveis que prometem voar, da inteligência artificial que transforma profissões, e das tecnologias que nos garantem uma vida cada vez mais cómoda. É fascinante perceber até onde conseguimos chegar quando decidimos investir tempo, dinheiro e conhecimento numa ideia. Menos fascinante é perceber que, quando o assunto é igualdade e equidade, a humanidade parece perder subitamente a capacidade de inovar.
Em janeiro de 2026, as mulheres ocupavam apenas 27,4% dos lugares nos parlamentos nacionais a nível mundial, segundo dados das Nações Unidas. Num planeta em que metade da população é constituída por mulheres, a representação política continua longe de refletir essa realidade. Talvez ainda estejamos à espera de uma tecnologia que nos explique como é que tantas pessoas continuam a não ter uma voz proporcional ao seu número.
Há problemas ainda mais graves do que a falta de representação. As estimativas das Nações Unidas indicam que quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Não estamos, portanto, perante uma discussão abstrata sobre o que falta conquistar. Estamos a falar da segurança, da liberdade e da dignidade de milhões de pessoas.
É claro que o mundo mudou. As mulheres conquistaram direitos fundamentais, passaram a ocupar espaços que durante séculos lhes foram negados e transformaram profundamente as sociedades. Seria injusto ignorar essas conquistas, mas reconhecer o caminho percorrido não significa fingir que chegámos ao destino.
O problema começa quando confundimos progresso com modernidade tecnológica, como se uma sociedade fosse necessariamente evoluída só porque as suas máquinas são cada vez mais sofisticadas. Podemos ter os transportes mais rápidos, os computadores mais inteligentes e os edifícios mais impressionantes. Nada disso nos torna automaticamente mais justos.
A tecnologia pode encurtar distâncias, mas não elimina preconceitos. Pode automatizar tarefas, mas não distribui igualdade por magia. Pode até permitir-nos olhar para o céu de uma forma completamente nova, sem resolver o que continua errado cá em baixo.
O mais absurdo é termos normalizado esta contradição. Aceitamos que a tecnologia evolua a uma velocidade vertiginosa, mas tratamos a igualdade como uma meta demasiado ambiciosa, um ideal bonito para discursos e campanhas, desde que não exija mudanças demasiado incómodas na vida real.
Durante muito tempo, disseram às mulheres que precisavam de esperar. Esperar para estudar, para votar, para trabalhar, para decidir e para ocupar lugares que pareciam reservados a outros. Muitas lutaram para que as gerações seguintes não tivessem de pedir autorização para existir em igualdade. Seria de esperar que, em 2026, a palavra “esperar” já não fizesse parte desta conversa com tanta frequência.
Não precisamos de escolher entre inovação e igualdade. Precisamos de perceber que uma não substitui a outra. O verdadeiro progresso não se mede apenas pela distância que conseguimos percorrer ou pela velocidade a que nos deslocamos, mas também pela dignidade com que permitimos que cada pessoa viva.
No fundo, a maior invenção da humanidade ainda não é um carro capaz de voar, mas uma sociedade em que nenhuma mulher tenha de lutar para ser tratada como igual.
Até lá, podemos continuar a olhar para o céu e a chamar-lhe futuro. No entanto, não esquecer que, para demasiadas mulheres, o verdadeiro desafio continua a ser simplesmente viver em liberdade cá em baixo.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Freepik
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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