E se uma das ferramentas de integração europeia mais poderosas não estivesse em Bruxelas, através de tratados e instituições comuns, mas sim numa residência universitária?
O Erasmus+ é um programa da União Europeia, de apoio à educação, que incentiva a mobilidade de estudantes e professores europeus, através da troca cutural e da partilha de conhecimento. É, de facto, um programa bastante atrativo, visto que impacta diretamente a vida dos jovens que dele participam: desde as amizades que vão levar para a vida toda, até o contato com outras culturas, e à mudança na forma de pensar.
Contudo, essa experiência pode representar mais do que apenas alguns meses estudando fora. O estudante deixa de ser apenas um visitante num país estrangeiro, e passa a fazer parte daquela realidade, de uma comunidade internacional.
Desta forma, o Erasmus pode ser analisado para além da mobilidade académica, sendo uma ferramenta de aproximação entre europeus, o que ajuda a construir uma identidade europeia.
Será que estes jovens estão construindo uma ideia comum do que é ser europeu?
A existência de uma “cidadania europeia” não significa, automaticamente, que os cidadãos tenham o mesmo sentimento de pertença à Europa. Essa identidade é construída através das interações e experiências de cada um, que podem aproximar as pessoas de diferentes formas.
É a partir desta ideia que a Europa deixa de ser apenas instituições como o Parlamento Europeu ou a Comissão Europeia, e passa a ser uma realidade vivida no quotidiano. Os jovens, através do contato direto, percebem que, muitas vezes, vivem as mesmas preocupações, compartilham dos mesmos hábitos e valores e que as suas diferenças podem coexistir. Assim, um estudante continua tendo a sua identidade nacional portuguesa, por exemplo, mas pode ampliar esse sentimento de pertença a nível europeu.
Um estudo de Ana Rita Dias, publicado em 2020 pelo Observatório Político, encontrou resultados que apontam para esta ideia. Foram analisadas as percepções de 90 estudantes do ensino superior, de 24 nacionalidades e, após a mobilidade, 75,6% afirmaram estar mais interessados nos países europeus, e 65,6% na União Europeia. Além disso, 63,3% disseram sentir-se mais orgulhosos de serem europeus.
Vale ressaltar que muitos dos estudantes que se propõem a participar do programa já apresentam uma tendência maior a sentirem-se parte da comunidade europeia.
Se o Erasmus aproxima os cidadãos, poderá também aproximar os países?

Tradicionalmente, os Estados fazem a diplomacia através da atuação do próprio Estado e dos seus representantes. Neste caso, porém, chama a atenção um conceito chamado people-to-people diplomacy, que é realizado precisamente por essa troca cultural entre os povos de diferentes países e baseia-se na ideia de que relacionamentos pessoais e conexões podem ser ferramentas poderosas para promover a paz e o entendimento entre as nações. A diplomacia entre pessoas pode ajudar a derrubar estereótipos e preconceitos, bem como a promover o respeito e criar uma base para a cooperação futura.
Desta forma, o programa Erasmus+ pode adquirir uma dimensão diplomática. O estudante que passa alguns meses em uma universidade estrangeira não representa apenas a si próprio. Passa, também, a ser visto como representante informal do seu país de origem. A convivência diária desses alunos, através de conversas banais ou trabalhos de grupo, possibilita um contato intercultural que nunca seria alcançado através da diplomacia tradicional.
Erasmus como instrumento de soft power da UE
O conceito de soft power é entendido como a capacidade de um ator internacional influenciar outros, não através da força, mas pelo meio da cultura, valores, políticas e educação, por exemplo, que podem tornar um país mais atrativo.
O Erasmus pode ser analisado como um possível instrumento de soft power da União Europeia, quando consideramos que os estudantes que vêm de países de fora da UE, ao terem contato com as instituições e experiências europeias, desenvolvem relações que permanecem mesmo após o fim da mobilidade. Isto influencia a forma como esses indivíduos percecionam a Europa enquanto espaço politico, económico e cultural.
Isso não significa, necessariamente, que o programa vai trazer influência automática da União Europeia, mas que cria condições para um contacto direto e, consequentemente, uma oportunidade para a UE projetar a sua imagem através da educação e da mobilidade.
As limitações do Erasmus e as desigualdades no acesso à mobilidade
Discutir o Erasmus enquanto instrumento de integração europeia implica, também, discutir a sua acessibilidade. Muitas vezes, a possiblidade de participar ou não depende da condição financeira do estudante. Apesar de o programa disponibilizar apoio financeiro aos participantes, a bolsa quase sempre cobre apenas uma parte dos custos associados a mobilidade.
O valor que cada um recebe é calculado com base nos custos de vida do país de destino, entre outros fatores. Apesar disso, as diferenças do custo de vida podem variar dependendo da cidade. Em cidades como Paris ou Dublin, por exemplo, só o custo da habitação pode chegar a ser o valor completo da bolsa, obrigando os estudantes a recorrerem a recursos financeiros próprios ou ao apoio das suas famílias.
Um estudo publicado em 2024, baseado em dados de mais de 46 mil estudantes, concluiu que os estudantes que já vêm de contextos socioeconómicos desfavorecidos estão sub-representados no Erasmus.
Além disso, cerca de 90% das desigualdades socioeconómicas, na participação, está ligada com a própria decisão da candidatura. Isto é: estudantes com um agregado familiar menos escolarizado apresentavam menor probabilidade de se candidatarem ao programa. O acesso a esta experiência não é igual para todos.
No fim, mais do que a mobilidade…
Por fim, apesar de o programa Erasmus+ apresentar desigualdades no acesso, demonstra como as experiências individuais afetam a dimensão coletiva.
É uma “viagem” que pode criar uma amizade, que pode se transformar numa rede académica ou profissional e, quanto mais essas relações se multiplicam, mais vão contribuir para a aproximação entre as sociedades.
A integração europeia não acontece apenas nas instituições, mas também nas relações que os cidadãos constroem, tornando a Europa não apenas uma ideia política, mas uma experiência real.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
A autora escreve em português do Brasil.
Escrito por: Letícia Figueiredo
Editado por: Cristina barradas


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