Estamos tão habituados a passar os olhos por dezenas de conteúdos por minuto, que ignorar se tornou um reflexo. O problema começa quando esse reflexo se estende à ignorância. Porque uma coisa é passar à frente um vídeo que não nos interessa no TikTok, outra é estar dentro de um grupo, perceber que algo grave está a acontecer e decidir, mesmo assim, continuar a deslizar o dedo pelo ecrã. Quando cerca de 50 homens veem, sabem e nenhum se opõe, já não estamos apenas a falar de silêncio, estamos a falar de cumplicidade.
Casos como o de Cornell, em que 7 estudantes universitários violaram uma jovem durante horas e trocaram mensagens num grupo com cerca de mais 50 homens, onde os chamavam para participar na violação, chocam pela brutalidade e violência, mas talvez o mais inquietante seja perceber que o problema nunca se resume apenas aos homens que praticam diretamente a agressão. À volta deles existe muitas vezes uma rede de silêncio, cumplicidade, normalização e indiferença escondida como uma sombra desses próprios agressores. Este é um padrão que já vimos repetir-se diversas vezes, em que homens partilham fotografias íntimas de mulheres (muitas vezes das suas próprias companheiras), em grupos com dezenas ou centenas de homens, como se a intimidade feminina fosse conteúdo para consumo coletivo. E é precisamente aí que a discussão tem de começar.
Sempre que surge um caso de violência sexual contra uma mulher, há uma reação quase automática que nos aparece em vários comentários debaixo dos posts que vemos: “nem todos os homens são assim”. E é verdade, têm toda a razão, nem todos os homens são assim, mas também é verdade que essa frase, usada muitas vezes como defesa imediata, pouco ou nada contribui para resolver o problema. Porque a questão no meio disto tudo, nunca foi saber se “todos os homens são agressores”, mas sim perceber quantos deles estão dispostos a enfrentar um amigo quando ele ultrapassa um limite, quantos deles se chegam à frente e denunciam casos dos quais têm informação, quantos deixam de rir quando a piada deixa de ter graça e quantos preferem proteger a reputação de um homem em vez de questionar o comportamento dele? Quando todas estas questões são normalizadas em vez de serem denunciadas, cria-se um ambiente em que as mulheres são constantemente obrigadas a viver em alerta.
Não deixar a bebida sozinha, avisar as amigas quando chegam a casa, partilhar a localização com as pessoas mais próximas, evitar ruas vazias, não voltar sozinha para casa. Para muitas de nós, estas atitudes são tão comuns e instantâneas que deixaram sequer de parecer medo e tornaram-se rotina.
É estranho pensar que crescemos a ensinar mulheres a protegerem-se de homens, quando o que devíamos realmente ensinar é os homens a saberem responsabilizar outros homens.
Para aqueles que escolhem muitas vezes apontar o dedo à própria vítima, eu relembro-vos: nenhuma quantidade de álcool, nenhuma roupa, nenhuma relação anterior, nenhum sorriso, nenhuma decisão de ir a uma festa ou de entrar num quarto transforma o corpo de alguém em propriedade de outra pessoa. Talvez também esteja na altura de mudar a forma como falamos de consentimento. O consentimento não é algo impermeável a mudanças repentinas de decisão. E é muito importante delinear bem este ponto, porque um não, é um não, independentemente do consentimento que pode ou não ter sido dado anteriormente.
Mas as Universidades, escolas, empresas, organizações e sistemas judiciais também são mais do que responsáveis por este tipo de situações se continuarem a repetir sem que sintam medo das consequências. Têm a responsabilidade de criar ambientes onde vítimas sintam que podem falar e onde comportamentos abusivos tenham consequências reais, não uma “suspensão”, “castigo” pela situação causada.
Quando uma acusação grave resulta numa resposta percebida como mínima ou insuficiente, a mensagem não chega apenas aos envolvidos, chega também a todas as outras mulheres que observam. E essa mensagem pode ser devastadora: denunciar talvez não valha a pena.
Portanto, escrevo agora para todos aqueles que veem, sabem, recebem, leem e escolhem não dizer nada! O silêncio também é uma escolha, esconderem-se atrás de um ecrã, de um grupo, de uma piada ou da ideia de que “não é comigo” não vos torna neutros, torna-vos cúmplices destes comportamentos que conseguem continuar sem resistência.
Porque há situações em que decidir não tomar uma posição, já é por si só, tomar uma.
E aproveito para dizer que, 7 + 50 = 57.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Instagram
Escrito por: Sofia Maria
Editado por: Rodrigo Caeiro


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