O novo anúncio da Sydney Sweeney gerou uma grande revolta na Internet. A atriz posou, vestindo pouca ou nenhuma roupa e utilizando equipamentos desportivos, para uma empresa de apostas desportivas. Mas não é a primeira vez que Sidney Sweeney recorre à exposição do próprio corpo para promover uma marca. O que me leva a questionar: porque é que não atacamos as marcas que se servem da Sweeney?
A atriz Sydney Sweeney tem 29 anos e uma carreira em ascensão, marcada tanto por produções de sucesso quanto por controvérsias. Esteve em muitos projetos distintos, incluindo sucessos como Euphoria, The White Lotus ou A Empregada. No entanto, em meados de 2025, o público começa a afastar-se da atriz.

Tudo começou em 2022, quando a atriz publicou fotografias da festa de 60 anos da mãe. Nas imagens, apareciam familiares com chapéus e camisolas que remetiam ao MAGA e ao Blue Lives Matter.
Em maio de 2025, Sydney Sweeney, em parceria com a Dr. Squatch, uma marca de higiene masculina, lançou um sabonete composto pela água de banho dela. Por 8 dólares e sob o slogan “Dirty Little Boys”, a atriz aparece numa banheira e dirige-se diretamente aos compradores, falando sobre o seu corpo. Já no site oficial da marca, o produto tem a seguinte descrição: “A combinação perfeita dos dois melhores lugares do mundo, o ar livre e a banheira da Sydney Sweeney.” Foram produzidas 5.000 unidades e, ainda assim, o produto esgotou rapidamente.

Pouco depois, em julho de 2025, vem a primeira grande controvérsia: a American Eagle lança a campanha “Sydney Sweeney Has Great Jeans”. No anúncio, esta fala diretamente para a câmara: “Os genes são transmitidos de pais para filhos, determinando frequentemente características como a cor do cabelo, a personalidade e até a cor dos olhos. As minhas jeans são azuis”. Como expectável, o trocadilho gerou revolta online, levando a que a atriz fosse criticada por transmitir valores da supremacia branca.

Finalmente, a última controvérsia: Novig. A empresa de apostas desportivas lançou um anúncio com Sweeney, onde, em determinado momento, esta aparece completamente nua sobre um aro de basquetebol, com o roteiro a fazê-la dizer “Sports” vezes e vezes sem conta. É transmitida, assim, a imagem de neutralidade da marca em relação ao mundo: “Sem guerras, ou mortes e sem política. Apenas desporto.”.

Porque é que não atacamos as marcas?
A realidade é que a Sydney Sweeney não está em campanhas polémicas por acaso: ela é a polémica. A direita pode vê-la como um símbolo da feminilidade tradicional e como o modelo de mulher de Hollywood. A esquerda, como símbolo da objetificação feminina. Alguns, como mulher de negócios que controla a própria sexualidade. Outros, como uma parola.
Mas há algo em que todos podemos concordar: as marcas veem-na como uma máquina de vendas. Quando o anúncio foi publicado, as ações da American Eagle subiram, passando de US$ 10,19 (em 22 de julho) para US$ 12,03 (em 28 de julho).
Já na Novig, a média diária subiu de cerca de 35 a 37 milhões de dólares para 69 milhões de dólares logo após o lançamento do anúncio, com o CEO Jacob Fortinsky a anunciar posteriormente que a plataforma ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares.
Se são as marcas que fazem os anúncios, os roteiros e pagam à Sweeney para participar, por que razão não são boicotadas? A Internet enche-se de críticas e ataques à atriz, no entanto, a marca fica em segundo plano. Talvez porque seja muito mais simples tornar uma pessoa individual em alvo de chacota do que uma empresa que permanece quase como uma entidade abstrata. Sobretudo quando esta é uma mulher.
A campanha da Novig desencadeou um ódio coletivo, lançando uma trend de desportistas femininas a postar vídeos a praticar os seus desportos com a caption: “Isto é que são mulheres no desporto Sydney Sweeney”. E muitas atletas acusam-na de as sexualizar. O nome Sydney Sweeney é repetido vezes e vezes sem conta, ao ponto de eu ter de ir pesquisar especificamente qual tinha sido a empresa que pagou por aquele anúncio.

Assim, a situação que se vive gera uma contradição interessante: a mesma sociedade que critica a mulher por se tornar objeto sexualizado continua a recompensar economicamente as empresas. Chegam ao ponde de ridicularizar a atriz quando vem a público dizer: “As pessoas se sentem livres para poder falar de mim da maneira que quiserem, porque acreditam que eu entreguei minha vida. Que não estou mais no nível humano, porque sou uma atriz. É esse relacionamento estranho que as pessoas têm comigo e sobre o qual não tenho controle ou voz.”. E já gerou-se um debate online a questionar se ela é sequer boa atriz. O que me faz questionar se é apenas o dinheiro que a faz comportar-se desta forma, uma vez que a sua carreira eventualmente irá sentir as consequências destes posicionamentos.

De facto, é um paradoxo interessante. Por um lado, a atriz é um sujeito com agência, que escolhe criar um sabonete para homens e não se importa de aparecer nua em anúncios e rentabilizar ao máximo o seu físico. Por outro, é um produto da sociedade capitalista e patriarcal. A sua agência não elimina a objetificação. Mas a objetificação também não elimina a sua agência.
Em suma, a nível sociológico, este é um caso extremamente interessante e complexo. Nos Estados Unidos, está a ganhar dimensões gigantes, no momento em que vemos o Presidente Trump a comentar “Se Sydney Sweeney for uma republicana registrada, acho que o anúncio dela é fantástico”. Mas é importante salientar que Sweeney até pode ser o rosto, mas são as marcas, enquanto estruturas, que constroem a polémica e realmente lucram. A Internet está repleta de pop-ups de “O que a Sydney Sweeney fez desta vez?”, enquanto temos as empresas que desenharam, financiaram e monetizaram as campanhas a passar por baixo do radar.
É claro que a pessoa individual também tem de ser responsabilizada por aceitar integrar este tipo de anúncio. Ela não é uma vítima. Mas também não é a principal culpada. Acho cómico como a Internet está a criar uma narrativa em que colocam a Sweeney como o rosto do machismo que está a fazer recuar o movimento feminista, mas não responsabilizam o próprio sistema que permite que campanhas destas existam.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Melissa Figueiredo
Imagem de capa: Reuters


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