Cinema português: rir para não chorar com “Santo António- O Casamenteiro de Lisboa”

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Considerado por muitos o melhor filme português, Santo António- O Casamenteiro de Lisboa, realizado por Ruben Alves estreou a 10 de setembro, e já é um favorito do público. Entre comédia, romance, tradição, crítica social e muitos cigarros fumados pela Rita Blanco, é um filme que tem muito que se lhe diga.

Ultrapassando os 100 mil espectadores nas primeiras semanas de exibição, lidera a bilheteira nacional, um feito de louvar em Portugal. O filme passa-se nos dias de hoje e acompanha dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa: Carmo, protagonizada por Rita Blanco, e Valentim, interpretado por Joaquim Monchique. Nesta realidade, os Casamentos de Santo António estão a perder protagonismo e já dão pouco lucro. Assim, uma empresa francesa chamada Stardust, sugere comprar a tradição e expandi-la para outros países.

Com 25 anos de carreira dedicados à organização dos casamentos, as duas personagens recebem um ultimato: ou conseguem reinventar o evento e transformá-lo num sucesso moderno, ou perdem o emprego. Determinados a preservar esta tradição portuguesa, tentam organizar a edição mais icónica de sempre, para mostrar que Lisboa não está à venda.

Se queres ver o filme (e digo já que devias), aconselho-te a parar de ler o artigo, porque vêm aí spoilers. Se não conseguires ir vê-lo ao cinema, não te aflijas, porque em breve estará disponível na Disney+. Posto isto, podemos continuar.

É a partir desta premissa que o filme constrói uma narrativa divertida, mas também muito significativa. Através dos seis casais escolhidos para participar nos casamentos, somos confrontados com diferentes subplots. Temos um casal que só quer ganhar o leilão da casa e divorciar-se depois do casamento; um casal de idosos que reencontrou o amor no lar; uma irmã cujo noivo está preso; outra irmã que está a ser pressionada a casar naquele dia com o seu noivo espanhol; um casal homossexual em que um dos membros não sabe se quer realmente casar; e, por fim, uma crente devota e um imigrante brasileiro que procura obter a cidadania portuguesa.

É, de facto, um grupo pacato. Que graças ao melhor elenco que este filme poderia ter, as personagens ganham vida e nos puxam para dentro da tela. Muito porque vemos pessoas reais nas personagens: a “Kardashian de Alfama”, a familiar que emigrou, o filho que tem vergonha de assumir a sua sexualidade devido ao preconceito da família, os casais sem dinheiro para comprar casa, etc. É a beleza deste filme, no bom e no mau, é verdadeiramente nosso, é verdadeiramente português.

É uma mistura de comédia, romance e uma ode à tradição. E comédia a sério, graças aos atores e atrizes, muitos com raízes de teatro e/ou revista, este filme faz-te mesmo rir. Foi a característica que mais me surpreendeu, por estar habituada aos temas pesados e melodramáticos que são característicos do cinema português.

Fonte: Time Out Lisboa

No lado mais sério do filme, temos a maior crítica social- a crescente descaracterização da cidade de Lisboa, fruto da gentrificação e turistificação. Vemos isso com a ameaça da venda da tradição dos Casamentos de Santo António pela empresa francesa, mas o filme também nos mostra a realidade portuguesa: as lojas de conveniência cujos donos nem sempre falam bem português; as despedidas de solteira das estrangeiras; os poucos negócios portugueses que ainda resistem; as obras intermináveis que Lisboa atravessa; e a perda da nossa gastronomia, substituída por petiscos de outros lados. 

Percebemos, assim, que a crítica do filme vai muito além dos Casamentos de Santo António: pretende marcar uma posição e alertar a sociedade da importância das tradições portuguesas. Na tela vi uma cidade que, em nome do progresso e do lucro, corre o risco de se tornar irreconhecível para nós, que dela viemos. Quando os nossos negócios desaparecerem, os espaços se transformarem em algo mais americanizado e as referências culturais forem substituídas por produtos mais baratos, perderemos parte da nossa vida quotidiana- perderemos a nossa essência. Por isso que é refrescante ver o filme a usar as nossas ruas e ruelas, os nossos símbolos, as nossas expressões e asneiras, e acima de tudo, a nossa forma de viver, mostrando o que é ser português no mundo moderno.

Casamentos de Santo António
Fonte: Renascença

Assim, o que Carmo e Valentim procuram preservar é uma tradição que pertence à cidade e às pessoas que a mantêm viva. A ameaça da Stardust torna-se então uma metáfora de uma verdade cada vez mais presente: tudo pode ser transformado em produto, desde que exista alguém disposto a pagar por ele. O Vereador da Câmara de Lisboa no filme, interpretado por Albano Jerónimo, pressiona as duas personagens principais a aceitar o acordo com a empresa francesa. Depois de informar Carmo que a emissão dos casamentos não seria transmitida pela RTP, a personagem de Rita Blanco diz a minha frase favorita do filme. Carmo responde que, durante a Revolução do 25 de Abril, andou aos ombros do pai e que tem cravos para todos.

Numa linda referência à nossa história, relembra-nos da atualidade da Revolução, pois existem mesmo muitas pessoas vivas que estiveram presentes, fossem crianças ou adultas na época. Mostra-nos que defender as nossas tradições não significa querer voltar ao passado ou fecharmos, do mundo e dos outros como aconteceu na ditadura, mas sim não deixar morrer aquilo que é nosso, aquilo que nos representa enquanto povo.

O filme está, de facto, muito bem conseguido. Faz rir, chorar e pensar. Saímos do cinema com um grande orgulho no nosso país. Claro que não falo daquele orgulho nacionalista que vemos protagonizado por certos partidos, mas de um orgulho que nasce da admiração e da felicidade pelo que temos. Uma sensação que, infelizmente, raramente sentimos. O mais comum é ligar a televisão ou abrir as redes sociais e encontrar alguém a reclamar de Portugal. Existe uma ideia muito portuguesa de “Isto vai de mal a pior. Somos, de facto, um país bastante pessimista e nostálgico. Sobretudo no que toca ao entretenimento, dizem sempre “Ah, nós só copiamos o que é feito lá fora”. E bem, se este filme não serve como uma chapada de luva branca. Parece que os realizadores tinham na sua vision board a frase “Fazer o melhor filme de Portugal”.

Por vezes senti que era um pouco exagerada a crítica aos estrangeiros. Mas, felizmente, o filme pareceu reconhecer essa nuance quando o responsável pela loja de conveniência se junta à celebração dos casamentos no final. De repente, aquele homem deixa de ser apenas uma figura associada à mudança que Carmo despreza e passa a ser aquilo que sempre foi: um vizinho, alguém que também faz parte da comunidade e do nosso país. 

Fonte: Vogue Portugal

Enche-me de orgulho ver um filme nas salas de cinema na nossa língua materna, com caras conhecidas e queridas por nós há tantos anos e a abordar temas tão nossos. É uma carta linda de amor a Lisboa. Sensação que as pessoas que nos visitam durante uns dias não conhecem. 

Concluindo, o filme aborda temas como a sexualidade, a idade, cancro, aplicações de encontros, influencers e dificuldades económicas, entre muitos outros, sempre com um humor de louvar. Um humor que espero que se espalhe pelo resto do cinema português. Talvez seja esta a maior qualidade de Santo António- O Casamenteiro de Lisboa: conseguir criticar sem perder a ternura. 

Afinal, a rir se criticam os costumes. 

Fonte da imagem de capa: Iris FM

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Sara Reis

Editado por: Francisca Lousada Silva

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