“É o fim. Desta vez chegamos mesmo ao fundo do poço. O fim está próximo e não há nada que possamos fazer. Tudo está pior e o mundo vai acabar amanhã, por volta das duas e meia da tarde.”
Júlia não sabe porque está tão ansiosa. Acorda e a primeira coisa que faz é pegar no telemóvel. Através do Instagram, descobre que mais um navio petroleiro foi bombardeado no Estreito de Ormuz. As declarações da Casa Branca são lamentáveis e lá se vai o preço do gasóleo a subir. Enquanto Júlia almoça, a televisão, ligada ao noticiário, grita por atenção e assim a informa sobre um duplo homicídio numa aldeia no norte do país. Júlia começa a refletir sobre a razão da sua ansiedade, mas recebe uma notificação sobre como o próximo verão vai ser o mais quente de sempre. Começa a pensar no futuro, mas tropeça numa caixa de comentários arrasadores: “Isto tudo é culpa da imigração!” “Quanto ódio!” Júlia decide estudar, mas não consegue. Um teste de Economia aproxima-se, mas recebe: “NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!” Júlia reflete: “Porque é que há essa urgência em saber que o novo selecionador nacional está na Ponte 25 de Abril?”. A manchete apelativa pulsa em vermelho-sangue, com todas as letras maiúsculas. Por incrível que pareça, soa quase como um respiro das notícias alarmistas sobre o mundo. E sobe o preço do gasóleo.
No carro, a rádio afirma: “Inteligência Artificial pode aniquilar a Humanidade numa década”.
A verdade é que Júlia está farta. Ao mesmo tempo, tem aversão à ignorância. A rapariga acha inconcebível não saber de tudo o que se passa no mundo neste exato instante. “Ser uma alienada? Jamais.” “Se o governo caísse amanhã, quem seria o novo primeiro-ministro?” Sai a 5.ª sondagem de intenção de voto. O candidato de Júlia está em segundo lugar. Júlia reflete sobre a situação do país. “Vamos espiralando em direção ao colapso.”
Mas o fluxo alucinante de informação impede-a de sequer concluir um raciocínio. Vai jantar, mas o artigo que leu sobre o consumo de lasanha congelada deixa-a com um embrulho no estômago. Sobe o preço do gasóleo. Ao pesquisar receitas saudáveis, surge no ecrã do site um spam que diz que “o sumo de laranja é um veneno”. No entanto, surge outro spam a dizer “Lembra-se desta atriz? Veja como está hoje”, o que anula a legitimidade do artigo sobre o sumo de laranja. Clickbait. Decide pegar num livro, mas já não consegue concentrar-se em nada. Só más notícias o dia inteiro. Nada de bom aconteceu no mundo. Tudo está péssimo. “Logo na minha vez de viver!” E sobe o preço do gasóleo.
Antes de dormir, fica a saber sobre a possibilidade de uma nova invasão terrestre em algum lugar, divulgada pelo ministro de qualquer coisa, de sabe-se-lá-onde. Já não faz diferença: está exausta de tanta informação, muita dela inútil. Adormece, mas acaba por sonhar com um apocalipse, causado pelo sumo de laranja. O Estreito de Ormuz, o verão mais quente de sempre, o duplo homicídio, os comentários odiosos, o preço do gasóleo, a inteligência artificial e a lasanha ocuparam todo o espaço.
Júlia acorda e pega logo no telemóvel. Não sabe porque está tão ansiosa.
Fonte da imagem de capa: Wikimedia Commons
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Miguel Dussin Moura
Editado por: Carolina Dinis


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