A gente vai mesmo continuar

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Há alturas em que nos encontramos em tal solidão silenciosa que nem o mais melodioso piano consegue preencher. É assim que nos encontramos neste momento — a notícia do falecimento de Jorge Palma, aos 76 anos, deixa Portugal inteiro em choque. 

O dono de uma das vozes mais bonitas da nossa história musical deixa-nos assim órfãos da sua melodia e genialidade. Deixa-nos também órfãos, como pátria, de alguém profundamente nobre, humano, solidário para com o outro. Não quero apenas falar do músico, por mais genial que seja, como se o rico conteúdo musical com que nos presenteou pudesse ou devesse ser separado do ser humano que foi.

Há que recordar, antes de mais nada, que enquanto a feroz ditadura do Estado Novo asfixiava a juventude, Jorge Palma, em 1971, escolheu o incerto do asilo no estrangeiro ao invés de pactuar com uma guerra que era injusta. Não foi apenas desertar, mas sim uma escolha que acabaria por definir a sua postura ética perante o mundo. Aquando do tão ansiado 25 de Abril, mais tarde, Palma voltou a Portugal à força toda; colocou o seu talento e conhecimento ao serviço da população, envolvendo-se ativamente nas campanhas de dinamização cultural do MFA. Isto ia muito para além de salas de espetáculos. Estas campanhas foram essenciais para levar a cultura, a alfabetização e a politização a vilas e aldeias onde nunca tinha estado. Penso que posso dizer com segurança que ajudaram milhares de pessoas a libertar-se do obscurantismo. Ao longo dos anos, Jorge Palma continuou a presentear-nos com esta humanidade. Deu-nos tanto de si.

Atenção, não estou aqui para vos desiludir com devaneios — falarei também do músico. Jorge Palma foi um fenomenal músico que mudou o panorama português. Já era visível o seu talento aos 6 anos de idade, quando começou a “brincar” por casa com as teclas de um piano. Ingressou aos 10 no Conservatório de Música de Lisboa, e apenas 3 anos depois, em Palma de Maiorca, foi premiado com o segundo lugar no prestigiado Concurso Internacional das Juventudes Musicais. As decisões que faria mais tarde, de tomar como referência Bob Dylan, os Beatles, e outros artistas de língua inglesa, mudaram para sempre a música portuguesa. Deixou de dar afinco apenas ao piano para se debruçar sobre o rock’ n’ roll: aprendeu a tocar guitarra, fez parte de bandas como Black Boys e o Sindicato. Integrando esta última teve o privilégio de tocar na primeira edição do hoje tão conhecido festival de Vilar de Mouros, em 1971. Trabalhou ainda, no início da década de 70 como arranjista e participou em concertos de históricos como Sérgio Godinho, Amália Rodrigues, Tonicha, Paco Bandeira e José Jorge Letria.

Passou, mesmo antes de se dar o 25 de Abril, muito tempo com Ary dos Santos. A confraternização com o poeta viria a ser essencial para “escutar o peso e a medida exata” de todas as palavras na língua portuguesa, e para politizar Jorge Palma como artista. No EP seguinte, A Última Canção, figurariam duas canções inspiradas em poemas originais de Ary dos Santos. Tudo isto volta ao meu primeiro parágrafo — Jorge Palma usou, desde sempre, o seu talento e influência para defender os valores de Abril, a dignidade da pessoa, a verdadeira justiça social. Os seus valores como humanista nunca se desprenderam daquilo que era a sua arte, e o próprio assim queria que fosse também.

Todos deveríamos ser um pouco mais como Jorge Palma. Atenção, isto não é uma daquelas coisas que se diz. Todos deveríamos fazer o que gostamos, aprender com os outros, usar aquilo que temos de positivo para ajudar a nossa comunidade, defender os valores de Abril. Ter a musicalidade fenomenal de Palma é mais complicado, mas podemos começar pela moral da história. Acho que já o fazemos, sinceramente, muitos de nós. Espero que sim. Sei que Jorge Palma nos ensinou demasiado para simplesmente ficarmos indiferentes à sua influência. E é assim que a gente vai continuar: mais pobres, infinitamente mais pobres, mas com a certeza de que há um rumo a seguir.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Facebook

Escrito por: Lucas Sousa

Editado por: Nikola Milosev

Uma resposta a “A gente vai mesmo continuar”

  1. Um texto bastante claro e que reforça a genialidade musical do Jorge Palma, mas também da sua incrível pessoa. Descansa em paz, grande Jorge!

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