Não existem NPC´s nem MC´s: apenas pessoas

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Tudo nesta vida é uma questão de perspetiva – e a importância também. Podemos achar que somos extremamente importantes, mas, na imensidão do universo, não passamos de um insignificante grão de areia: ninguém é the main character.

Ah, redes sociais. Como os TikToks e Instagrams desta vida adoram organizar as pessoas em categorias estupidificantes, como tradwife, redpill, cleangirl, entre muitas outras.

Para mim, o auge da estupidez são aqueles vídeos de Main Character Energy, em que uma pessoa grava um vídeo de si mesma a cantar aos berros no meio da rua (não me refiro aos artistas de rua, atenção), a fazer um outfit check no meio do trânsito (arriscando-se a ser atropelada) ou a fazer uma coreografia arrojada digna da Broadway no meio da avenida, atrapalhando os NPCs (non-playable characters) que precisam de chegar a horas ao emprego. (Note-se o sarcasmo.)

Confesso que, por vezes, chego a dar like em alguns desses vídeos, mas logo a seguir dou por mim a pensar: e se na vida real visse essa mesma pessoa a berrar no meio da rua, será que acharia engraçado? E a resposta é: não. Não só não acharia engraçado, como daria um criminal offensive side eye. Já me bastam os indivíduos sem noção que se põem a ouvir música aos altos berros nos transportes públicos! (Falo mais sobre isto no fim do texto.)

Ninguém é NPC e ninguém é main character — somos todos pessoas a tentar sobreviver num mundo caótico. A vida não é um videojogo (embora, por vezes, possa parecer). Por exemplo: se eu der um tiro em alguém, a pessoa não dá respawn (ressuscita, em termos de videojogos), e se alguém me der um tiro, não aparece uma tela de game over seguida da opção load last checkpoint para voltar aos 30 segundos anteriores à desgraça. Morre-se e pronto. Ficamos “mortos, morrido, matados”, servindo de alimento para minhocas.

“Precisamos de ter mais empatia” é uma frase que muito se repete. Não deixa de ser verdade – é até bastante acertada! Só que a situação complica-se quando alguém aparece, precisamente na nossa carruagem do comboio ou do metro, a fazer acrobacias nas barras de ferro e nos penduricalhos no teto, ao som de um funk pesadão numa coluna de som. Ou quando aparecem 7 sem-abrigo, um de cada vez, a pedir esmola na nossa carruagem, num espaço de tempo de apenas 15 minutos. Ou então, o auge: quando uma criancinha passa 15 minutos agarrada ao telemóvel da mãe a ouvir a música Baby Shark aos altos berros, em loop, na nossa carruagem do comboio! (Todos estes exemplos são reais e aconteceram comigo.)

Fica complicado, não é? E está tudo bem. Na verdade: a paciência tem limites, e a empatia também. Somos todos humanos. Temos a obrigação de nos respeitarmos uns aos outros, é certo, mas não temos de tolerar o que é intolerável. “A nossa liberdade acaba quando começa a do outro” – nunca nos podemos esquecer.

Para terminar esta salganhada, quero deixar-te um apelo (sim, a ti, que estás a ler isto): por favor, não te armes em protagonista! Ninguém te vai achar mais fixe ou mais importante por te comportares como main character, ignorando os limites de quem está à tua volta. Em vez disso, tenta ser uma boa pessoa. Vais ver que a tua família, os teus amigos e conhecidos vão admirar-te e respeitar-te a sério.

“És uma experiência. Certifica-te de que és uma boa experiência.”

– Garnet, do desenho animado Steven Universe.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Capa

Escrito por: Helena Bandeira

Editado por: Melissa Figueiredo

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