Estava em Copenhaga com duas amigas, num parque, a tirar fotografias, quando um casal se aproximou e me pediu para lhes tirar uma. Foi então que reparei nos sapatinhos de bebé que tinham nas mãos.
Perguntámos se estavam à espera de um filho. Disseram-nos que sim, que aquela era a fotografia que iam enviar à família para anunciar a gravidez.
Não sabia de onde vinham, quem eram ou que histórias os tinham levado até ali. Eles também não sabiam nada sobre nós. Éramos simplesmente três raparigas a passear e um casal com uma notícia para partilhar. Mas, por alguns minutos, as nossas vidas, que até então seguiam caminhos completamente diferentes, cruzaram-se naquele parque.
Lembro-me de ter ficado feliz por eles. Não sabia há quanto tempo esperavam por aquele momento, nem sequer se a fotografia tinha ficado bem. Mas ali estava eu, num país que não era o meu, contente por duas pessoas que, até há poucos minutos, não sabia que existiam.
Depois disto, cada um seguiu com a sua vida. Nós continuámos a viagem, e o casal ficou com a sua fotografia. Não sei o que lhes aconteceu a seguir. Não sei se a família chorou, se alguém gritou de felicidade ou se houve uma avó que passou os dias seguintes a procurar nomes de bebés.
A história deles continuou sem mim (como era de esperar).
Mas eu fiquei com um pequeno pedaço da deles.
Talvez esta seja uma das coisas mais curiosas da vida: passamos tanto tempo dentro da nossa própria história que nos esquecemos de que, para onde quer que olhemos, há outras a acontecer. Enquanto tentamos perceber o que estamos a fazer com a nossa vida, alguém está a apaixonar-se, alguém está a despedir-se ou até mesmo a receber o pedido errado no café. O mundo está cheio de momentos que não nos dizem respeito, de pessoas cujas histórias desconhecemos e de vidas que continuam muito para além do que conseguimos ver.
Ainda assim, de vez em quando, cruzamo-nos com essas histórias. Não precisamos de conhecer alguém ou de saber o seu nome. Às vezes, basta uma pergunta, uma conversa ou uma fotografia tirada num parque para que, durante uns minutos, uma vida completamente desconhecida deixe de nos ser indiferente.
Naquele dia, a notícia daquele casal não era minha. Não tinha esperado por ela, não conhecia a família que a iria receber, nem sabia o que aquele bebé viria a significar nas suas vidas. Ainda assim, fiquei feliz. E, por alguns minutos, a alegria deles também me pertenceu.
A vida não se organiza em torno dos nossos momentos importantes. Enquanto alguém recebe uma notícia que esperou durante meses, outra pessoa perde o autocarro. Enquanto alguém descobre que vai ser mãe ou pai, alguém se esquece do pão e tem de voltar ao supermercado. O mundo continua mesmo quando, para alguém, tudo muda.
Mas isso não significa que passemos uns pelos outros sem deixar nada.
Acredito que também somos feitos destes encontros breves, das pessoas que não voltamos a ver e dos instantes em que, sem percebermos bem como, nos sentimos ligados a uma vida que não é a nossa. Há pessoas que passam por nós e deixam qualquer coisa, mesmo quando não chegam a ficar.
Talvez aconteça o mesmo ao contrário. Não sabemos quantas vezes ficámos na história de alguém sem nos apercebermos. Talvez haja quem se lembre de nós por uma conversa que já esquecemos, um gesto a que não demos importância ou uma fotografia que nos tiraram. Também nós podemos ser uma pequena memória na vida de alguém, sem nunca chegarmos a saber.
Ainda me lembro daqueles sapatinhos. Não sei se o casal se lembra das três raparigas que encontrou naquele dia, nem se alguma vez voltou a olhar para aquela foto e se lembrou de quem a tirou. Para eles, o mais importante nunca fomos nós. E ainda bem.
Mas, naquele dia, durante o tempo que se demora a tirar uma fotografia, fizemos parte da mesma história.
E, por momentos, isso chegou.
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Fonte da imagem de capa: https://pin.it/350wE8RYq
Escrito por: Rita Luís
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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