Por apenas 3,6 pontos percentuais, Lula garantiu mais quatro anos no poder e a China respirou de alívio. Mas a eleição deixou à vista um Brasil partido ao meio entre as duas maiores potências do mundo, e uma pergunta que carece de resposta, até quando poderá o gigante sul-americano recusar escolher um lado?
A 25 de outubro, contrariando as expectativas, Lula da Silva venceu a segunda volta das eleições presidenciais no Brasil, tornando-se assim o primeiro candidato a conquistar a presidência invertendo o resultado desfavorável da primeira volta, com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Apenas dois dias depois, Xi Jinping já o felicitava e prometia levar a “comunidade China-Brasil com um futuro partilhado a novos patamares”. A rapidez da sua resposta diz muito. Para o governo chinês, esta não era apenas mais uma eleição na América Latina, mas sim uma votação sobre o lugar do seu principal parceiro na região. Porém, mesmo tendo a China assegurado a sua estabilidade, a disputa mostrou ao mundo um Brasil polarizado e dividido em relação ao seu alinhamento entre as duas grandes potências.
O interesse da China nestas eleições pode explicar-se, antes de mais, pela economia. Nos primeiros nove meses de 2026, cerca de 30% das exportações brasileiras seguiram para a China, atingindo quase 84,7 mil milhões de dólares, enquanto as destinadas aos Estados Unidos não ultrapassaram os 10%, totalizando apenas 27,5 mil milhões. Soja, ferro e petróleo alimentaram a economia chinesa, e o investimento desta no Brasil atingiu um recorde de 6,1 mil milhões de dólares em 2025. Soma-se a isto o importante papel do Brasil nos BRICS, bloco que a China vem utilizando para promover o chamado Sul Global, reequilibrando o peso das potências emergentes face ao Ocidente.
Com todos estes dados em cima da mesa, uma vitória de Flávio Bolsonaro representava um risco real para Pequim. Este candidato, apresentando-se como aliado de Donald Trump, chegou a admitir a saída do Brasil dos BRICS e apresentou as reservas brasileiras de terras raras, as segundas maiores do mundo, como alternativa ao domínio chinês neste ramo. Em Pequim, temia-se que o Brasil fosse o próximo a juntar-se à vaga conservadora que já havia chegado à América Latina, na Argentina, Bolívia, Chile e Honduras.
A eleição tornou-se, assim, mais um palco da competição entre a China e os Estados Unidos. Enquanto o governo norte-americano optou pela pressão, aplicando em julho tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e levando os serviços de informações do Brasil a alertar para uma possível interferência norte-americana, do outro lado a China apresentou-se como defensora da soberania brasileira. Xi Jinping garantiu ao presidente Lula que se opunha a “interferências externas” e, após as votações, sublinhou que “respeita a escolha do povo brasileiro”.
Importa, contudo, não sobrestimar o alcance da vitória de Lula. Ainda que Bolsonaro tivesse sido eleito, dificilmente o comércio cairia, uma vez que nenhum governo brasileiro se pode dar ao luxo de prescindir do seu principal cliente. Os analistas chineses entendem este cenário como “politicamente frio, economicamente quente”. Para a China, o problema é outro: com quase metade dos eleitores a apoiar um candidato que prometia afastar o Brasil da China e cético em relação aos BRICS, a relação com Pequim dividiu a política brasileira e poderá estar no centro do debate nas próximas eleições.
A vitória de Lula oferece à China tempo, mas um país dividido não oferece certezas duradouras. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, uma frase pensada e dirigida aos Estados Unidos, mas que se aplica também à China. No fim, entre duas potências que disputam o seu lugar no mundo, o Brasil parece não querer depender de nenhuma, apostando na única posição que lhe oferece essa garantia: a sua própria.
Fonte da imagem de capa: OutrasPalavras
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Matilde Filipe
Editado por: Margarida Simões


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