Num país cada vez mais polarizado entre a dicotomia política clássica, mergulhamos num poço fundo de incertezas e dúvidas acerca dos próprios governantes. Afinal, o que é que procuramos resolver? O que procuramos mudar?
Num dos momentos mais relevantes do período eleitoral, o último debate antes das eleições produziu um episódio digno de descontentamento. Segundo um levantamento publicado pelo portal O Tempo, foram contabilizados cerca de 68 ataques diretos entre os candidatos. Os nomes dos concorrentes foram mencionados 67 vezes, enquanto temas como SUS, saúde e Bolsa Família receberam menos espaço. Mais do que um excesso retórico, essa diferença expõe a inversão de prioridades que marca o Brasil atual.

O que antes seria uma janela de oportunidade para discutir problemas e soluções concretas tornou-se um Big Brother em horário nobre, com a única diferença de não ser filmado numa casa. Como consequência, esse cenário criou mais incertezas e perguntas do que respostas: se até o debate privilegia o confronto pessoal, talvez parte da crise política esteja também na forma como candidatos e eleitores passaram a encarar a vida pública — mais como uma disputa de identidades do que como uma procura de soluções.
Saímos de um país que ansiava por mudança depois de tantos anos de governação petista, sob o argumento de que era necessária uma reforma, para um país onde a principal métrica de avaliação passou a ser qual governante está menos envolvido em casos de corrupção. Isso normaliza tanto a apropriação do nome de Deus como o uso de movimentos de grupos minoritários como instrumentos de autopromoção. A influência desta falsa dicotomia impulsiona a radicalização e, por conseguinte, afasta o eleitor brasileiro da realidade em que está inserido.
Procuramos uma mudança rápida e grandiosa, mas nem sempre sabemos dizer que transformação desejamos. Que medida tornaria, de facto, o nosso dia a dia melhor? O Brasil tem potencial para ser um dos melhores países — para mim, o melhor —, mas continuamos a aceitar respostas que não enfrentam as nossas perguntas, desde que tragam a promessa mais sedutora de todas: a mudança. “Infeliz é o espírito ansioso pelo futuro”, já dizia, sabiamente, Sêneca. Depois de tanta insatisfação política e até jurídica — muito agravada após o julgamento de Bolsonaro e os escândalos, alguns ainda por descobrir, do caso Master —, resta-nos observar o que foi feito das nossas decisões.
No passado domingo, de 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva reelegeu-se e, com ele, metade do Brasil se alegrou, enquanto a outra metade vive um verdadeiro clima de velório. Esperamos que as nossas perguntas sejam respondidas e, acima de tudo, que as respostas sirvam para unir o Brasil tão belo em que um dia vivi.
Informações deste artigo foram retiradas: O Tempo
Fonte de imagem de capa: Exame
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Pedro Colinski
Editado por: Margarida Simões


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