Afinal, que país é este?

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Tenho pensado muito nas imagens que têm circulado nos últimos dias. Nas pessoas no chão, nos agentes da polícia, nos gritos, nas tendas a serem desmontadas e na violência de quem, supostamente, está ali para garantir a segurança de todos. Sobretudo, tenho pensado no que é preciso acontecer para chegarmos a este ponto.

Não consigo deixar de achar estranho que, num país onde tanta gente não consegue pagar uma casa, a imagem que nos fica destes protestos seja a de pessoas a serem retiradas da rua à força. Como é que chegámos aqui? Em que momento é que exigir condições dignas para viver, se tornou uma coisa tão incómoda?

Não escrevo isto porque ache que as leis não devem ser cumpridas, nem porque considere que tudo o que acontece numa manifestação é automaticamente legítimo. Escrevo porque me parece que estamos a perder a capacidade de olhar para aquilo que está mesmo à nossa frente. Podemos discutir a legalidade de uma ocupação, podemos discutir os limites da atuação policial e podemos discordar dos métodos de protesto. Tudo isso é legítimo, claro. O que não podemos fazer é discutir tudo isto como se a crise da habitação fosse um problema secundário, uma questão de quem ainda não se esforçou o suficiente para conseguir viver melhor.

É realmente muito fácil dizer a alguém para trabalhar mais, poupar mais ou procurar um sítio mais barato quando não somos nós que estamos a fazer contas ao fim do mês. É fácil dizer aos jovens que precisam de sair de casa dos pais, de serem independentes e de construir o seu futuro quando um quarto pode custar uma parte absurda do salário que recebem. Crescemos a ouvir que estudar compensa, que trabalhar nos permite conquistar a nossa independência, e que o esforço acaba por dar frutos. Depois, chegamos à idade em que supostamente devíamos começar a construir a nossa vida e percebemos que, afinal, há coisas básicas que não estão ao nosso alcance.

Não acho que uma casa deva ser oferecida a toda a gente sem condições, nem que o problema se resolva com uma manifestação ou com algumas tendas no centro de Lisboa. Acho sim, que, ter um sítio onde viver não deveria ser um privilégio reservado a quem nasceu numa família com dinheiro ou a quem consegue suportar rendas cada vez mais difíceis de acompanhar.

É por isso que me custa olhar para estas imagens e ver a discussão a ficar reduzida à polícia, aos manifestantes e à ordem pública. Naturalmente, a atuação policial tem de ser analisada e as denúncias de violência têm de ser investigadas. A força utilizada pelas autoridades não deixa de ter de ser necessária e proporcional só porque existe uma ordem para cumprir. No entanto, a resposta mais visível a pessoas que exigem habitação é uma operação policial, enquanto a solução para o problema que as levou à rua continua por encontrar.

Tenho uma pergunta que me parece impossível de ignorar. Se estas pessoas não estivessem ali, se não houvesse tendas, se ninguém ocupasse uma praça ou interrompesse a normalidade de uma cidade, estaríamos a falar tanto da crise da habitação?

Eis a resposta, queridos leitores. Uma tenda no meio de uma praça pode incomodar quem passa, levantar questões legais e não ser a solução que gostaríamos de ver. No entanto, devia fazer-nos pensar no que leva alguém a considerar que aquele é o lugar onde tem de estar para ser ouvido.

Escrevo enquanto jovem e estudante, sem pretender falar em nome de toda uma geração. Ainda assim, custa-me não pensar no futuro que nos espera. Passamos anos a estudar para conseguirmos ter uma vida melhor, preocupamo-nos com os primeiros empregos, com os salários, com a possibilidade de sair de casa e de conseguir viver sem depender de ninguém. Pelo meio, começamos a normalizar a ideia de que talvez não consigamos ter uma casa, de que talvez tenhamos de adiar tudo aquilo que imaginávamos fazer nesta fase da vida.

Preocupa-me que comecemos a achar isto normal. Como se fosse natural trabalhar e não conseguir pagar uma renda, ou adiar a independência até uma idade indefinida, ou que um direito consagrado na Constituição pareça, para tantas pessoas, uma possibilidade cada vez mais distante.

Não sei qual é a solução imediata para tudo isto. Sei que não cabe numa crónica, nem se resolve apenas com indignação. Sei que não podemos continuar a olhar para estas situações como episódios isolados, que começam com uma manifestação e terminam quando a polícia abandona o local.

Entretanto, as rendas continuarão a chegar ao fim do mês, as pessoas continuarão a fazer contas e muitos jovens continuarão sem saber quando poderão ter uma casa sua.

Assusta-me que possamos voltar à nossa rotina, continuar o nosso dia e fingir que tudo voltou ao normal, quando, para tantas pessoas, nada mudou.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Plataforma Media

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Francisca Lousada Silva

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