Muito se ouve: “Tanta luta junta, para quê?”. Para quê juntar causas que parecem distintas, quando cada uma já carrega a sua própria urgência? A resposta está na própria natureza da identidade, que não se constrói isolada, mas em diálogo com as comunidades e os contextos em que se insere. É nessa encruzilhada que se percebe por que razão caminhar em conjunto não dilui as lutas, antes as fortalece. Procurarei mostrar o que se ganha quando os caminhos deixam de ser trilhados em separado.
Comecemos pela Confederação Haudenosaunee, que significa “pessoas que constroem uma casa”. É um exemplo ancestral de consenso horizontal e de unidade entre nações nativo-americanas. Esta união não foi linear, já que estas nações viveram, anteriormente, múltiplos conflitos. É um exemplo que atravessa o tempo através da oralidade. Foi legado pelo Pacificador que, acompanhado por Hiawatha, um líder enlutado pela violência entre os povos, transmitiu mensagens de paz pelas várias nações, com a seguinte ideia:
“Uma única flecha é fraca e quebra-se facilmente. Um feixe de flechas amarradas juntas não pode ser quebrado. Isto representa a força de ter uma confederação. Ela é forte e não pode ser quebrada.”
A união constrói-se tendo por base a Great Law of Peace, que estabeleceu a confederação de cinco nações, à qual se juntou uma sexta no século XVIII. Cada nação escolhe os seus líderes para formar um Grand Council. O processo de decisão exigia a aprovação de todos os seus 50 membros, em consenso, prática que se mantém até aos dias de hoje. As propostas são primeiro debatidas pelos mohawk e pelos seneca e, após chegarem a uma posição comum, transmitidas aos oneida e aos cayuga para deliberação. Só então os onondaga, guardiões do fogo do conselho, confirmam a decisão final. Cada nação mantém, contudo, a sua identidade, os seus líderes e a sua autonomia interna. A confederação não exige que sejam iguais, apenas que decidam em conjunto.


Tenhamos, como outro exemplo, a filosofia Ubuntu, advinda das tradições culturais dos povos de línguas bantu da África subsaariana, refletida no provérbio umuntu ngumuntu ngabantu, “uma pessoa é feita pessoa por outras pessoas”. No Ubuntu, a humanidade de cada um não existe fora da relação com os outros. Reconhecer o outro é reconhecer a condição da própria existência. A unidade constrói-se pela interdependência. E, porque esta relação nunca está concluída, o diálogo não é um momento, mas um processo contínuo, que atravessa o que foi, o que é e o que será, numa temporalidade cíclica própria das cosmologias bantu. Se a Confederação mostra a unidade na prática, a filosofia Ubuntu explica-lhe o fundamento.
Por outro lado, existe o conceito de Indaba, originário dos povos Zulu e Xhosa da África Austral. Trata-se de uma reunião para discutir um tema importante, em que cada parte apresenta a sua posição, as fronteiras que não está disposta a ultrapassar e as suas ressalvas, sendo igualmente convidada a propor soluções. O objetivo é chegar a um entendimento comum. Este método de assembleia é importante porque quem é ouvido ao longo do processo compromete-se mais com o resultado e assume maior responsabilidade perante a solução. Se o Ubuntu explica porque é que a unidade é possível, o Indaba mostra como ela é construída.
Tendo também em conta a tática diplomática presente nas cartas de Vladimir Lénine de 1922 sobre a frente única, percebe-se que esta, enquanto forma de convergência popular, comporta nuances e dimensões práticas. Para Lénine, quem estiver disposto, vier por bem e aceitar integrar um projeto comum sem o perturbar é bem-vindo e encontra nesse espaço um lugar. Estas questões de articulação devem estar presentes tanto a nível nacional como internacional. Construir alianças de grande envergadura exige organização e discussão sucessivas, mas é possível, e as Internacionais Socialistas são exemplos dessas tentativas. Contudo, Lénine não aprofunda a ideia em termos teóricos, apresentando antes uma tática concreta de ação conjunta que pressupõe a autonomia crítica de cada corrente envolvida, sem exigir fusão partidária nem dissolução de programas. Esta tática seria, posteriormente, desenvolvida de forma mais sistemática por Leon Trotsky, no contexto da Terceira Internacional.
Antonio Gramsci elabora, na década de 1920, de forma mais concreta, exemplos práticos e táticas para a organização proletária nos artigos “Um Partido de Massas” e “Trabalhadores e Camponeses”, apresentando duas bases de uma convergência popular real e não performativa. Em “Um Partido de Massas”, denuncia que o Partido Socialista Italiano, apesar de se apresentar como um partido de massas, é, na prática, um aparato de cargos e interesses, afastado do movimento operário que diz representar.
“A verdade é que o partido socialista está morto e podre; um partido operário que de 80.000 membros tem 62.000 funcionários é somente uma excrescência morbosa da coletividade nacional.” (Antonio Gramsci, “Um Partido de Massas”, 1921)
Em “Trabalhadores e Camponeses”, mostra que a unidade entre o urbano industrializado e o rural não se constrói por apagamento das diferenças, mas pelo reconhecimento mútuo e pela superação das desconfianças históricas. É nesta lógica que a sua análise se alinha com a tese deste texto: caminhar em conjunto não significa tornar-se igual, antes reconhecer que a identidade se fortalece quando deixa de ser pensada isoladamente.


Sem convergência, corremos o risco de cair no não lugar, esse espaço onde coexistimos sem nos reconhecermos, falamos sem nos ouvirmos e estamos próximos sem pertencermos. É o que acontece quando cada luta permanece fechada sobre si mesma, quando a urgência de cada causa impede o encontro com as outras. As lutas específicas são importantes, porque é a partir delas que as pessoas se reconhecem e se organizam. Mas não podem ser o único horizonte.
Os exemplos apresentados mostram que a unidade não se constrói por sobreposição de causas, mas pelo reconhecimento de que nenhuma identidade se sustenta sozinha. Dos Haudenosaunee ao Ubuntu, das táticas de Lénine à organização pensada por Gramsci, o que se repete é a mesma ideia: caminhar com quem é diferente não dilui as lutas, dá-lhes um ponto de apoio comum. Perante o não lugar, a resposta é a luta com sentido, aquela que transforma a proximidade em pertença e faz de cada urgência parte de um caminho partilhado.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: @sergi0davide
Escrito por: Carolina Dinis
Editado por: Melissa Figueiredo


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