Acordei na manhã de domingo de 25 de outubro, mais cedo do que o costume. Estou cansada, porque só consigo adormecer de madrugada, e decido que acordei demasiado cedo para um domingo e aproveito para fechar os olhos mais uma hora. Quando acordo pela segunda vez, e ainda sem vontade de me levantar da cama, decido abrir o telefone para ver o que há de novo no mundo desde a última vez que estive online e de olhos abertos.
Sou bombardeada com dezenas de vídeos, notícias, posts e stories sobre a violenta carga policial contra os manifestantes do Rossio. Surpreendentemente, não me surpreende. Estupidamente, escolho o vídeo que me faz mais sentido para colocar no próprio storie porque não quero que achem que não estou atenta, porque pronunciar-me é um ato de resistência. Um dos vídeos, um rapaz a ser brutalmente atirado para o meio do chão ainda de cravo na mão, emociona-me mais que os outros. É aí que me lembro que ainda não desejei os bons dias aos meus e que já estou imersa em tudo o que há de errado no mundo. E é aí, quando vejo mais um post a dizer “1 hora ou 50 anos?”, que me apercebo que hoje o mundo acordou diferente e eu nem sequer me percebi. Chegou o horário de inverno e é a primeira vez que me lembro que ninguém falou sobre o assunto. Temos coisas mais importantes por tratar.
Levanto-me e espanto essas confusões alheias de mim, afinal, não estou por Lisboa e, por isso, não me posso deixar ser perseguida constantemente. Algures uma voz pequenina dentro da minha mente me diz que o dia de hoje é importante, só não consigo precisar bem o que há de tão importante. Seria a mudança da hora?
Desta vez abro o computador, sou automaticamente relembrada da quantidade de emails que estão por ler e por enviar, das reuniões que tenho por tratar, da apresentação que ainda não fiz, das 200 mensagens paradas na minha caixa de entrada. Estremeço quando me chega mais uma notificação; é domingo, por não favor não me peçam para lidar com isto. Ah já sei! É o aniversário de alguém.
Após algumas tarefas e o dobro de scrolls apercebo-me que talvez não me esteja a sentir assim tão bem porque ainda não comi, o clássico “o teu mal é a fome”. Já passaram imensas desde que acordei e ainda não me tinha apercebido da sensação vazia no meu estômago, e se calhar, se for dormir mais um bocadinho isto passa. Continuo a achar que algo me está a faltar, que estou a esquecer-me de algo importante. Ah já sei! Hoje a noite temos o El Clásico, o meu Real Madrid contra o Barcelona. Subitamente, a vida ganha um pouco de sentido.
Espero ansiosamente pelo horário do jogo enquanto assisto, mais uma vez, a stories de amigos meus em manifestações. Fazem bem. Também gostaria de lá estar. Passo o storie à frente e sou relembrada de que hoje também há eleições, e não estão lá muito famosas. Tenho o feed cheio de estrelinhas e L’s feitos com as mãos, posso estar numa bolha, mas penso que talvez, talvez haja esperança. Ora, nada disso importa porque o Clásico está prestes a começar.
Passo 1h30 sem pensar. E sabe mesmo bem. Claro que no intervalo volto a pegar no telefone para ver se não perdi mais nada de importante. Ainda não respondi aos emails, e a apresentação ficou a meio, e agora tenho 205 mensagens por responder, mas está tudo bem porque agora não o posso fazer. É domingo, e estou a ver o meu grande amor jogar. Tinha a certeza que íamos levar uma goleada mas estamos nos a safar. Tento não pensar se temos algum jogador com currículo criminal em campo, só não deixo o pensamento assentar muito tempo. Disseram-me que faz mal reparar nessas coisas. No entanto, confesso que fico um bocadinho mais aliviada quando me lembro que um certo alguém hoje não entrou em jogo. Bolas, era suposto não estar a usar essa parte do meu cérebro.
Ganhámos. Confesso que não estava à espera. Será esta a única vitória do dia? Quero celebrá-la publicamente, mas tenho medo de que me achem fútil. Quem celebra um jogo de futebol quando o país está a arder? Faço-o na mesma, porque para compensar antes disso já lá estão uns quantos posts sobre a situação política do nosso país. Sou versátil, penso. Troco de separador no computador para começar a ver as notícias do Brasil, ainda não começou a contagem dos votos. Bato nervosamente os dedos contra a mesa, e não percebo porque estou sempre tão nervosa com tudo o que acontece ao meu redor.
A apuração dos votos está renhida, e as chances do resultado ser positivo são quase nulas. Tento lembrar-me que não é o meu país e que o meu estômago pode parar de se contorcer (se bem que pode ser da fome), mas não parece ajudar. O país não tem de ser meu para saber que fascismo nunca mais. Nenhuma fronteira detona isso. Demoram muito tempo para apurar todos os votos e estou a ficar impaciente a olhar para o ecrã; decido abrir um separador para tentar ver alguma série entretanto, decido abrir o telefone e ver novamente o que perdi. Uns quantos tweets sobre o Real Madrid, uns quantos vídeos da acampada, uns quantos posts vermelhos manchados com uma estrela brilhante. Os votos estão quase no fim, e não consigo acreditar que o Lula virou. Demoram-me uns minutos a perceber que se conquistou a segunda vitória da noite. A primeira agora esquecida, ignorada, insignificante.
Não posso adormecer antes de colocar um storie sobre isto. Antes de comentar o post de alguém e dar like no de outro. Já não sei em qual rede social mais entrar. Apercebo-me no meio disto tudo que está tarde e que amanhã tenho mesmo de me levantar às 7 da manhã. Não percebo porque passei o dia cansada, e porque agora de madrugada tenho tanta energia para gastar.
São quase 3 da manhã quando decido que talvez seja hora de adormecer um bocadinho. Mas tenho medo do que vou perder. Será um aniversário, um enxerto de porrada, uma declaração polémica do meu jogador favorito, um vídeo contente do reeleito presidente. Antes de adormecer prometo a mim mesma que amanhã respondo ao tal email, que finalmente vou responder aquela mensagem, e que tenho mesmo de ligar aquela amiga. Tudo isso pode ficar para amanhã, porque, afinal, era domingo: dia de Deus e dia de descanso, não era?
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Margarida Simões
Editado por: Nikola Milosev


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