Não sei se alguém escolhe realmente ser artista. Dificilmente acredito que existam pessoas que acordem um dia com a certeza de que querem pintar, escrever, fotografar ou fazer da arte a sua vida. O simples pensamento de escolher criar, como quem escolhe beber leite de manhã, não me parece algo real. Talvez seja exagero, mas gosto de dizer que a arte não é racional, apenas acontece.
Não me lembro de ter decidido que queria ser poeta ou pintora, muito menos de ter escolhido chamar (pseudo)artista à pessoa que sou. Lembro-me apenas de fazer coisas, de voltar a fazê-las e, a certa altura, perceber que talvez houvesse algo em mim que só conseguisse sair dessa maneira.
Não escolhemos aquilo que nos leva à arte. Talvez, simplesmente precisemos dela antes de sabermos o que ela é.
Não sei em que momento se começa a ser artista. Se é quando pegamos pela primeira vez num lápis, quando escrevemos uma frase que não conseguimos guardar só para nós, quando transformamos um pensamento numa imagem ou quando percebemos que aquilo que fazemos nos permite dizer o que, de outra forma, permaneceria por dizer. Existe um instante exato em que deixamos de simplesmente criar e passamos a ser criadores? Ou somos só nós que, mais tarde, olhamos para trás e tentamos dar um nome àquilo que sempre esteve lá? Lá está o grande problema do ser humano: racionalizar, querer dar nome a tudo, querer explicar tudo.
Comigo, houve o desenho, houve a escrita, houve esta tendência de procurar na criação uma forma de expressão. E, sem que eu soubesse explicar exatamente porquê, dava por mim a voltar a ela, a rasgar mais uma folha do meu caderno de ciências porque escrever o que o coração sentia era mais interessante do que estudá-lo.
Nada disto aconteceu porque tivesse um plano, uma carreira idealizada ou a certeza de que um dia alguém iria olhar para aquilo que faço e reconhecer-lhe algum valor. Aconteceu simplesmente porque gostava, porque sentia. Porque gosto, porque sinto. Porque há coisas que parecem encontrar o seu lugar quando lhes dou forma.
É isso que mais me intriga na arte: a forma como pode nascer de um lugar que nem nós próprios sabemos identificar. Do não pensamento, apenas do sentimento. Não precisamos de compreender tudo o que sentimos para começar a criar. Às vezes, a criação acontece primeiro e a compreensão chega depois, se chegar. Há pensamentos que só conseguimos organizar quando os escrevemos, sentimentos que se tornam menos distantes quando lhes damos uma imagem, partes de nós que só reconhecemos quando as vemos de fora.
A arte torna-se, assim, um lugar: não necessariamente onde tudo fica bem, nem onde os problemas desaparecem, mas onde o pousar de um pincel ou de uma caneta nos alivia do peso que carregamos. Onde não precisamos de ter respostas imediatas, de encontrar as palavras certas à primeira tentativa, nem de explicar a alguém o que ainda mal conseguimos explicar a nós próprios. Um lugar onde o que sentimos pode simplesmente existir.
É por isso que a arte nos acontece. Não porque acorde com os galos a planear “hoje vou escrever sobre o nascer do Sol”. Acontece porque, ao acordar, quero imortalizar o que a luz da manhã fez surgir em mim. É um rascunho cru, não pensado, um vomitar de palavras sem saber o que fazer com elas, palavras que, muitas vezes, o próprio anoitecer acaba por levar.
No fundo, será que escolhemos a arte ou foi a vida que nos levou até ela? Mais importante do que essa pergunta é o que fazemos quando a encontramos, o que descobrimos sobre nós enquanto criamos e o que decidimos levar connosco pelo caminho. Afinal, se faço arte porque gosto, se escrevo porque quero e se volto a criar mesmo sem saber ao certo o que procuro, não será isso também uma escolha consciente? Posso não ter decidido começar, mas decidi continuar.
Não quero romantizar a ideia de que nascemos destinados a ser alguma coisa, como se cada um de nós tivesse uma vocação à espera de ser descoberta. Nem acredito que seja necessário transformar tudo aquilo que sentimos em arte para que essas emoções tenham valor. Acredito, antes, que a vida nos faz perguntas estranhas e que cada pessoa encontra, ou não, a sua forma de responder. Para algumas, essa resposta pode ser a música, a dança, a pintura, a fotografia ou as palavras. Para mim, a arte foi-se tornando uma dessas respostas.
Continuo sem saber exatamente quando comecei a ser artista, nem se me posso chamar uma. Haverá sequer algum momento em que esse nome passa a pertencer-nos? É necessário chegar a algum lugar ou basta continuar a fazer aquilo que nos move? Nunca me sentei a decidir que queria. Fui sentindo, fui desabafando, fui vivendo. Quando dei por mim, a arte já não era só uma coisa que fazia: era uma forma de compreender o mundo, de me compreender e de guardar um lugar para aquilo que não queria perder.
Bem, desta arte que me acontece, desta resposta que dou à vida, quero continuar a criar. Quero-o porque hoje sei o que me aconteceu e porque, antes de eu saber, alguém sonhou que o que saísse das minhas mãos encontraria o olhar do mundo. A vida nem sempre nos deixa chegar aos momentos que sonhámos. Há sonhos que construímos acompanhados, mas que terminamos sozinhos.
Mas talvez a presença de alguém não se meça apenas pela possibilidade de assistir à concretização dos nossos sonhos. Ela permanece também naquilo em que essa pessoa nos ensinou a acreditar e na maneira como passamos a olhar para nós próprios depois de termos sido vistos por ela.
Nunca chegarás a ver a arte que me aconteceu, mas levarei comigo um ramo da tua Oliveira em toda a minha arte.
Não crio apenas por ti. Crio porque a arte faz parte de mim de uma forma que ainda estou a tentar compreender. Crio com a memória da tua confiança, e com a certeza de que o sonho ainda comanda a vida. Em mim, haverá sempre qualquer coisa que te pertence. E porque, por vezes, continuar é também uma forma de agradecer a quem acreditou em nós antes de termos aprendido a acreditar em nós próprios, eu continuo.
Não escolhi a arte, nem a primeira vez que precisei dela.
Mas escolho continuar porque ela me encontrou.
Fonte da imagem de capa: Agriterra
Este artigo de opinião é de pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Editado por: Francisca Lousada Silva


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