Ou sobre os lugares e as presenças que teimamos em não deixar partir.
Ninguém nos ensina a arte de cortar os dias,
de fechar portas e fingir que o chão continua igual debaixo dos passos.
E se este for, afinal, o derradeiro outono nas paredes que me emprestaram a voz? Como se diz adeus a um lugar que foi abrigo,
a um tempo e a uma presença que nos desmancharam por dentro e nos avessaram do avesso?
Mas será, afinal, preciso pronunciar essa palavra?
Será que aquilo que nos escolhe a pele e se entranha na alma
alguma vez se despede de nós?
Não há vocabulário que baste para o peso exato do que fomos,
dos instantes guardados a ferro e fogo,
da gratidão imensa por seres parte da minha história.
Há presenças que entram na nossa vida e tornam-se, irrevogavelmente, morada. Espero tanto continuar a caminhar ao teu lado, a desafiar o relógio e a incerteza, mesmo quando o futuro não pede licença para mudar os ventos.
Ainda assim, quem disse que nos separamos?
Será este o fim de um ciclo ou apenas uma vírgula suspensa na eternidade?
Será que os nossos passos hão de deixar de se cruzar nos cantos de sempre
só porque o mapa mudou de cor e o tempo avançou?
Como é que se aprende a largar quem foi teto, rotina e refúgio
nos anos em que o mundo cá fora era demasiado largo para caber no peito?
Aconteça o que acontecer, levo-te inteira na bagagem invisível,
na certeza mansa de que não há geografia ou distância
capaz de apagar o milagre de termos cruzado os caminhos.
Podes mudar de espaço, de rumo ou de rotina...
mas serás sempre o meu lugar seguro,
a casa para onde o pensamento foge quando o mundo pesa.
Porque quem nos acolhe a alma com tanta inteireza
nunca passa por nós apenas uma vez:
fica a morar lá para sempre.
E se nunca partimos de onde fomos felizes,
então talvez o adeus seja apenas a invenção bonita que a vida cria
para nos lembrar que já somos, para toda a eternidade, inseparáveis.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Unsplash
Escrito por: Martim Ribeiro
Editado por: Rodrigo Caeiro


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